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O Papa e a intercessão pela evangelização

Frade franciscano

Anna Nass | Shutterstock

Dom Orani João Tempesta - publicado em 02/05/23

A vida contemplativa – seja eremítica ou cenobítica, seja no âmbito das antigas famílias monásticas, seja nas novas comunidades – é um grande bem à Igreja e só merece louvores e recomendações. Entenda:

Na Audiência Geral do Santo Padre, o Papa Francisco, quarta-feira, dia 26 de abril de 2023 falou da importância da vida contemplativa na evangelização. Ela é um estímulo para melhor compreender e, por conseguinte, mais valorizar a vida monástica masculina e feminina, embora tenhamos outras vertentes desse tipo de vida. O monaquismo é o coração pulsante da Igreja, pois, escondido em Cristo (cf. Cl 3,3), irriga sangue a todo o corpo eclesial (cf. Cl 1,24; 1Cor 12,12-21).

História

A partir disso, gostaria de centrar-me nos inícios da história do monaquismo e à sua nomenclatura. Começo por esta última: o termo monge – e também monja, que segue, no âmbito feminino o mesmo propósito, dentro de suas peculiaridades –, vem do grego mónos ou monachus, isto é, quem vive só ou ainda melhor, vive só para Deus ou que tem uma só busca: a de Deus. Dom André Martins, OSB, abade da Abadia da Ressurreição, em Ponta Grossa (PR), recorda ser o monge “aquele que tem como projeto de vida não dividir o coração e nem o corpo. É alguém que dá total adesão ao convite do Senhor ‘segue-me’, mas um tal seguimento que revele eloquentemente a invocação ‘Vem, Senhor Jesus!’. Um monge ou um celibatário por causa do Reino deveria ser verdadeiramente, para todo o povo de Deus, um ‘Maranathá’ vivente (do aramaico: ‘Vinde, Senhor nosso!’) (Cf. 1Cor 16,23; Ap 22,20)” (Eis o servo fiel e prudente. Ponta Grossa: Abadia da Ressurreição, 2020, p. 45). Em outros termos, um monge não se afasta dos seus por egoísmo ou misantropia, mas, sim, para que, apesar de suas limitações humanas, comuns a todos nós, vivendo na presença de Deus, seja um sinal verdadeiro do Reino, neste mundo tão carente da graça divina.

A vida monástica, que, sem perder a sua essência, passou, como testemunha a própria História, por várias fases e reformas ao longo do tempo, nasceu – humanamente constatando – como consequência da resposta ao chamado de Deus ou da busca d’Ele. Dom Emanuele Bargellini, OSB Cam, escreve que “o monaquismo não tem um fundador no sentido estrito da palavra, um lugar e nem uma data de nascimento precisa, e muito menos um programa ou estilo de vida uniforme. Mesmo orientado por valores espirituais substancialmente comuns e difusos nas várias experiências monásticas primitivas, seja no Oriente, seja no Ocidente, esses valores são historicamente expressos em modalidades muito diversas” (Como água da fonte. São Paulo: Loyola, 2009, p. 39). 

Ainda: por mais que se apontem várias razões – até mesmo espúrias – para as origens do monaquismo, é inegável que a sua razão de ser centra-se na busca de Deus ou no princípio religioso. Jean Comby, historiador da Igreja, assegura o que segue: “A escolha da virgindade e da castidade para o Reino foi objeto de apreço nas comunidades cristãs. Essa escolha estava fundada no exemplo e no ensinamento de Jesus (Mt 19,22-30) e de Paulo (1Cor 7). Os grupos de viúvas de 1Tm 5, as quatro filhas de Felipe, as virgens que profetizavam (At 21,8-9) seriam os primeiros indícios da vida consagrada” (Para ler a história da Igreja I: das origens ao século XV. São Paulo: Loyola, 1993, p. 83). Isso pode explicar, em grande parte, a origem do monaquismo, pois natural – antes mesmo de uma profissão religiosa num determinado Credo – é a busca do Transcendental no ser humano, criado para ser capaz de conhecer, mesmo sem a fé sobrenatural, a Deus (cf. Catecismo da Igreja Católica n. 27-49). 

Forma inicial

Sua forma inicial e, pode-se dizer, no início, única – ainda que com várias expressões, mas nem todas plenamente aceitáveis – foi o eremitismo, isto é, a vida solitária ou fora de uma comunidade propriamente dita, regida por um superior comum e direto, abade ou prior, como se dá na vida cenobítica a aparecer depois. Tal modelo de eremitismo, contudo, não excluía, ao que parece, as chamadas lauras. Assim, Dom Estêvão Bettencourt, OSB, pôde registrar que “em certas regiões desenvolveu-se uma forma de vida mista de monaquismo eremítico e cenobítico; os monges viviam em colônias chamadas lauras sob a guia de um abade, mas ocupando habitáculos distintos uns dos outros” (História da Igreja. Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, 2012, p. 128). Nelas, irá, no século XI, se inspirar São Romualdo de Ravena († 1027) ao dar, com o carisma camaldolense, harmonia à vida eremítica e cenobítica num mesmo local (cf. Como água da fonte, 2009, p. 8-10, por exemplo).

Devido a abusos no modo de se viver o eremitismo, São Basílio (330-379), bispo de Cesareia, passou a desaconselhá-lo vivamente. Ganharia espaço aí a vida cenobítica ou comum. Neste novo viver, a comunidade primitiva de Jerusalém (cf. At 2,42-47) seria o ideal a ser atingido e São Pacômio (287-347) pode ser considerado o seu iniciador, entre 310-320, ao fundar um mosteiro em Tabenisi, no Egito, e ao compor uma Regra para os monges. De acordo com Dom Estêvão Bettencourt, OSB, submeter-se-iam, então, os monges “a uma Regra e a um superior chamado ‘Abade’ (= Pai); a Regra visava a regulamentar a disciplina dos monges na oração, no trabalho, no vestuário, na alimentação…, apresentando um caminho de santificação concebido pela sabedoria do Fundador. A casa dos cenobitastomou o nome de monastérion (donde mosteiro em português). Os monges eram quase todos leigos, isto é, não recebiam as ordens sacras; o número de sacerdotes nos mosteiros correspondia às necessidades do serviço interno da comunidade. Só na Idade Média é que se difundiu o costume de conferir o presbiterado aos monges. São Pacômio era tão rigoroso neste particular que excluía por completo a possibilidade de ordenar algum monge, pois julgava que isso podia suscitar o desejo de honras e encargos de projeção” (História da Igreja, 2012, p. 127). Ora, isso, sem dúvida, dá espaço para que, no século VI, São Bento de Núrsia (cerca de 480-547) componha sua Regra que se difundiu mundo afora, especialmente no Ocidente.

Reconhecimento

Cabe recordar, no entanto, que a vida eremítica em si nunca deixou de existir na Igreja ou jamais foi proibida. Aliás, o Código de Direito Canônico, no cânon 603, diz que: “§ 1. Além dos institutos de vida consagrada, a Igreja reconhece a vida eremítica ou anacorética, com a qual os fiéis, por uma separação mais rígida do mundo, pelo silêncio da solidão, pela assídua oração e penitência, consagram a vida ao louvor de Deus e à salvação do mundo. § 2. O eremita, como dedicado a Deus na vida consagrada, é reconhecido pelo direito de professar publicamente os três conselhos evangélicos confirmados por votos ou por outro vínculo sagrado, nas mãos do Bispo diocesano, e se mantiver o próprio modo de vida sob a orientação dele”. Daí escrever o Pe. Jesús Hortal: “Eremita (do latim eremus = deserto) é aquele que se retirava ao deserto para uma vida de oração e penitência. Chama-se também anacoreta, palavra de origem grega que significa ‘sem coro’. A vida eremítica foi o primeiro tipo de vida consagrada masculina, muito florescente a partir do último terço do século III. Neste cânon não se trata dos eremitas que estão integrados em uma ordem religiosa (p. ex. carmelitas, camaldolenses etc.), mas dos que vivem isoladamente. Para serem reconhecidos como levando uma vida consagrada precisam emitir uma profissão (portanto, um ato juridicamente público) nas mãos do Bispo diocesano e seguir as suas diretrizes. A vida eremítica está reflorescendo em muitos lugares, especialmente na França” (Código de Direito Canônico, 1983, comentário ao cânon 603). Aí não se leva, como se vê na Regra de São Bento 2,3-5 a recomendar que se viva vida cenobítica antes de se tornar eremita.

Grande bem

Como quer que seja, a vida contemplativa – seja eremítica ou cenobítica, seja no âmbito das antigas famílias monásticas, seja nas novas comunidades – é um grande bem à Igreja e só merece louvores e recomendações. Há de ser sempre acolhida com apreço pela hierarquia da Igreja, uma vez que o seu propósito seja reto no campo da fé e dos costumes. Com efeito, os Papas sempre se voltaram com paternal apreço a esse modo de viver autenticamente o Evangelho. Para ficar apenas com o Papa Francisco, recordo o seu afeto para com as monjas ao lhes escrever, apenas três anos após ter sido escolhido para a cátedra de Pedro, o seguinte: “Sem vós, queridas irmãs contemplativas, o que seria da Igreja e de quantos vivem nas periferias humanas e trabalham nos postos avançados da evangelização? A Igreja olha com muito apreço a vossa vida inteiramente doada. A Igreja conta com a vossa oração e imolação para levar aos homens e mulheres do nosso tempo a boa-nova do Evangelho. A Igreja precisa de vós! Não é fácil que este mundo – pelo menos a grande parte dele que obedece a lógicas de poder, riqueza e consumo – compreenda a vossa vocação especial e a vossa missão escondida, e, contudo, tem uma necessidade imensa dela. Como o marinheiro no mar alto precisa do farol que indique a rota para chegar ao porto, assim o mundo tem necessidade de vós. Sede faróis para os que estão perto e sobretudo para os afastados. Sede tochas que acompanham o caminho dos homens e mulheres na noite escura do tempo. Sede sentinelas da manhã (cf. Is 21,11-12) que anunciam o nascer do sol (cf. Lc 1,78). Com a vossa vida transfigurada e com palavras simples ruminadas no silêncio, indicai-nos Aquele que é caminho, verdade e vida (cf. Jo 14,6), o único Senhor que oferece plenitude à nossa existência e dá vida em abundância (cf. Jo 10,10). Gritai-nos como André a Simão: ‘Encontramos o Messias’ (cf. Jo 1,40); anunciai, como Maria de Magdala na manhã da ressurreição: ‘Vi o Senhor!’ (Jo 20,18). Mantende viva a profecia da vossa existência doada. Não tenhais medo de viver a alegria da vida evangélica segundo o vosso carisma” (Vultum Dei quaerere, 2016, n. 6).

Coração pulsante

E, em 26 de abril último assim se referiu o Papa Francisco: “Continuamos as catequeses sobre as testemunhas do zelo apostólico. Começamos por São Paulo e, da última vez, vimos os mártires, que anunciam Jesus com a vida, a ponto de a entregar por Ele e pelo Evangelho. Mas existe outro grande testemunho que atravessa a história da fé: o das monjas e dos monges, irmãs e irmãos que renunciam a si, renunciam ao mundo para imitar Jesus no caminho da pobreza, da castidade e da obediência e para interceder a favor de todos. A sua vida fala por si só, mas nós poderíamos nos perguntar: como podem pessoas que vivem no mosteiro ajudar o anúncio do Evangelho? Não seria melhor que empregassem as suas energias na missão?  Saindo do mosteiro e pregando o Evangelho fora do mosteiro? Na realidade, os monges são o coração pulsante do anúncio: a sua oração é oxigênio para todos os membros do Corpo de Cristo, a sua oração é a força invisível que sustenta a missão. Não é por acaso que a padroeira das missões é uma monja, Santa Teresa do Menino Jesus. […] Far-nos-á bem – na medida em que pudermos – visitar algum mosteiro, porque lá se reza e se trabalha. Cada um tem a própria regra, mas as mãos estão sempre ocupadas: ocupadas com o trabalho, ocupadas com a oração. Que o Senhor nos conceda novos mosteiros, monges e monjas que levem em frente a Igreja com a sua intercessão” (Audiência Geral, 26/04/2023, online).

Que Deus, por intercessão da Virgem Maria, abençoe a todos os contemplativos(as). 

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