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A teologia da libertação e a ditadura do proletariado

Teologia da libertação

Eugenio Hansen, OFS, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons

Pe. José Eduardo - publicado em 04/05/23

A teologia da libertação é uma forma de historicismo dialético-materialista

Uma das tarefas filosoficamente mais difíceis é definir a essência de um ente, especialmente quando este não é um objeto extra-mental. Por detrás de mil e uma aparências e desculpas, de escolhas hermenêuticas e de métodos de análise, esconde-se efetivamente o que uma corrente de pensamento é.

No caso daquilo que se convencionou chamar, a partir dos próprios autores, de “Teologia da Libertação”, essa abordagem teológica é recoberta por diversas camadas simbólicas, desde a opção preferencial pelos pobres, que é evangélica, sim, apesar do que dizem os seus críticos, até o engajamento com a militância política da esquerda, coisa que é realmente histórica, mas que não é propriamente a essência da abordagem em si.

Até que ponto uma teologia seja apenas uma desculpa para a ação prática de um movimento político, no caso, o movimento socialista internacional, é uma discussão que, apesar de importante, não abraça a problemática teológica em si. E essa questão, que num primeiro momento pode parecer secundária, na verdade se revela essencial, sobretudo para entender quem se sente filiado a essa corrente de pensamento, apesar de não exercer nenhuma militância política direta.

Fundamentalmente, a teologia da libertação é uma forma de historicismo que, partindo da análise dialético-materialista da história, concebe uma teologia de tipo dinâmica, em que a história se torna o “locus” da manifestação de Deus.

O que quero dizer com “historicismo”? O historicismo é a convicção de que todos os fenômenos éticos, sociais e políticos decorrem do processo histórico. Portanto, tende a considerá-los todos, globalmente, de maneira sincrônica (sincrônico é o oposto de diacrônico: enquanto uma análise sincrônica considera os fenômenos a partir de sua confluência histórica, uma análise diacrônica considera-os em si, numa dimensão idealmente atemporal).

O problema de uma ideologia, infelizmente, é a parcela de verdade que ela tem. E o historicismo não escapa disso.

É verdade que os fenômenos não podem ser realmente compreendidos de forma puramente abstrata, a-histórica; mas também é verdade que os mesmos fenômenos têm algo em si que ultrapassa os condicionamentos do tempo e que deve ser considerado em si mesmo.

Acontece que Kant realizou um atentado contra o conhecimento do objeto e Hegel o substituiu pela presunção de certeza do conhecimento do fim da história. E é justamente assim que funciona a mente de um historicista: todo conhecimento é provisório, não há certeza alguma no presente; a única coisa definitiva é a direção libertária para a qual dizem caminhar a história.

O que Marx fez foi usar a dialética hegeliana em sentido materialista, ou seja, transformou a luta de classes na gramática da história e apresentou como fim da mesma a ditadura do proletariado: partindo da ideia evolucionista de que o mais forte sempre prevalece sobre o mais fraco, Marx prognosticou que, assim como a burguesia se tornou forte e venceu a nobreza, o proletariado, numericamente superior, vencerá a burguesia e terá de se impor através da ditadura, pois este seria o único meio de evitar o aparecimento de uma nova burguesia.

Ora, quando você entende que a ditadura do proletariado é o Reino de Deus e que esta é a revelação fundamental a partir da qual toda a Escritura precisa ser interpretada, pois a essência da divina revelação seria a de que Deus toma o lado do oprimido contra o opressor, então se começa a adentrar na teologia da libertação.

Nessa abordagem teológica, não há verdades teoréticas, dogmáticas, que não sejam provisórias diante do definitivo dessa sua compreensão de Deus. E essa provisoriedade se revela, sobretudo, na moral.

É absolutamente flagrante a completa ruptura que existe, na teologia da libertação, entre dogma e moral. Um libertador pode facilmente defender a comunhão dos divorciados, o casamento de pessoas homossexuais, a relativização de todas as exigências morais e, em seguida, rezar o Credo Apostólico para não ser chamado de herege. Tanto faz que tais condutas sejam proibidas pela Escritura… Eles dirão que todo texto precisa ser interpretado num contexto histórico e que, hoje, tais proibições já não têm sentido. Daí, partirão para um novo discurso sobre o dogma, em que tentarão impor aquilo que chamam de despatriarcalização de Deus, o culto ao eterno feminino, a divinação da natureza etc, pois toda “verdade” é provisória e precisa ser adaptada à revolução de hoje, já que os oprimidos também variam de acordo com o tempo.

Se a teologia tem que ser crítica de seus próprios fundamentos e tem de colocar a Igreja à serviço do mundo, isto é, da sociedade dialeticamente concebida, como queria Gustavo Guitérrez, toda tentativa de aferrar-se a qualquer verdade sempre será encarada como um fanático apego ao passado.

Sem discutir os pressupostos epistemológicos da teologia da libertação, jamais conseguiremos entendê-la nem superá-la. Para isso, é preciso colocar na ordem do dia algumas perguntas fundamentais: será que toda verdade é provisória e o conhecimento objetivo é realmente tão impossível? Será que se pode falar de um processo histórico único e que tenha um sentido obrigatório? Será que as alegações da teologia da libertação estão realmente favorecendo os pobres ou tais teorias se colocam apenas ao serviço da demolição da Igreja, em favor de um superpoder global?

Apenas respondendo a essas perguntas conseguiremos libertar os libertadores do seu ódio a qualquer verdade definitiva e da sua angústia futurista. De fato, o progressismo é uma espécie de escravidão psicológica: o sujeito se sente excluído da história se não estiver engajado na vanguarda do momento! Isso lhes dá o desespero de ter que avançar, ainda quando este “avanço” não seja senão um terrível retrocesso.

Portanto, se tivesse que definir a teologia da libertação, eu a definiria como um historicismo teológico dialético-materialista.

Pe. José Eduardo Oliveira, via Facebook

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