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Por que, agora mais do que nunca, a cortesia é tão importante?

smiling woman groceries elderly man

Andrey_Popov | Shutterstock

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Michael Rennier - publicado em 08/05/23

Tudo ao nosso redor está se tornando cada vez mais rápido. A cortesia demanda tempo, e está sendo deixada para trás - o que não deveria acontecer

Recentemente, vi uma pergunta em um quadro de mensagens que indagava o seguinte: “Se você é uma pessoa que não adere às cortesias, pode explicar o motivo?” 

A primeira resposta dada foi: “Porque é uma perda de tempo, não é necessária”. Achei a resposta interessante, principalmente porque mostrou que a falta de cortesia hoje em dia não é porque as pessoas querem ser rudes. Pelo contrário, é porque a cortesia é vista como desnecessária em um mundo acelerado. É tida como uma relíquia de tempos passados, um aspecto decorativo do comportamento que não é vital para a interação humana. Seguindo essa visão, a verdadeira cortesia, ao que parece, é parar de desperdiçar o tempo com o outro e seguir em frente com nossos respectivos dias.

É indiscutível que a cortesia leva tempo. As linhas extras no e-mail com a saudação simpática, a conversa fiada que antecede o verdadeiro motivo da comunicação – isso leva tempo para ser digitado. Enviar mensagens de texto como “por favor” e “obrigado” pode parecer um fardo intolerável para o minúsculo teclado do smartphone.

 Tudo ao nosso redor está se tornando cada vez mais rápido – refeição, comunicação, automóveis, reações às notícias. A compra é feita com um clique, e os itens são deixados na varanda poucas horas depois. As opiniões são formadas rapidamente e descartadas com a mesma rapidez. Como padre, até recebi reclamações de que a missa dominical durava cinco minutos a mais. A cortesia é simplesmente muito lenta, por isso está sendo deixada para trás.

O advento da internet e dos smartphones anunciaram essa nova era da pressa. As mensagens digitais são apressadas, disparadas de trás do volante do carro enquanto os motoristas estão parados em um sinal vermelho. Não há contexto para as palavras, nenhum sorriso para acompanhá-las, nenhuma reação física para avaliar como nossa comunicação foi recebida. Na era da internet, a cortesia é ineficiente e antinatural.

Esses hábitos descorteses, parece-me, começaram a afetar nossas interações face a face também. A desculpa é a mesma; todos nós reivindicamos pressa.

O engraçado é que toda essa rapidez e eficiência deveriam nos deixar com mais tempo para sermos corteses, mas na verdade aconteceu o contrário. Estamos mais apressados ​​do que nunca. Que mundo estranho! Quanto mais eficientes nos tornamos, menos realizamos. Quanto mais deixamos para trás, mais pesada é a nossa carga. Quanto mais rápido formos, menos distância percorreremos.

A vida é muito curta para correr, sem desacelerar para reconhecer um ao outro. Relacionamentos e conexões genuínas são essenciais para levar uma vida feliz, e quanto menos tempo tivermos para eles, menos felizes seremos.

Lembro-me de uma história famosa sobre o filósofo alemão do século XVIII, Immanuel Kant. Durante toda a sua vida, ele escreveu livros para promover a dignidade e o respeito devidos a todas as pessoas, independentemente de sua posição na sociedade. Ele considerava o respeito por todos um dever moral e cumpriu esse dever até o fim. Poucos dias antes de sua morte, bastante doente, idoso e quase completamente cego, Kant se levantou da cadeira com dificuldade quando seu médico entrou na sala para uma visita domiciliar. Ele esperou que o médico se sentasse antes de seguir o exemplo. Mais tarde, ele ficou satisfeito ao saber: “O senso de humanidade não me abandonou”. A cortesia comum era muito importante para ele.

Uma coisa de que gosto nessa história é que ela revela um aspecto importante da cortesia – ela deve estar presente mesmo quando não sinto vontade de ser cortês. Na verdade, a cortesia é ainda mais importante quando não estou de bom humor. Quando estou cansado, impaciente, aborrecido ou apressado – é exatamente quando a virtude da cortesia vem em socorro. A cortesia não é genuína se for oferecida apenas quando me apetecer e às pessoas de quem gosto. Deve ser um hábito consistente.

Também não é uma desvantagem se a cortesia causar inconveniência. Meu cenário absolutamente favorito é quando um grupo de amigos se reúne para jantar e sobroa um pedaço de pizza. Ela está lá, totalmente disponível, mas ninguém quer ser descortês e aceitar. É um daqueles pequenos aspectos engraçados da cortesia que me faz sorrir. Revela uma verdade profunda, que é a de que a cortesia se baseia em pensar primeiro na outra pessoa. 

A cortesia é ótima porque não custa nada além de um pouco de tempo e atenção. É extremamente fácil dizer a um estranho que você gosta da camisa dele ou perguntar ao balconista do supermercado como está indo o dia dela. Esses pequenos gestos podem fazer uma grande diferença para quem os recebe. Sei que me sinto feliz quando recebo uma cortesia, mesmo que um pouco surpresa. Pode mudar o humor do meu dia inteiro.

O dom da felicidade que passamos um ao outro é o ponto principal da cortesia. A cortesia desacelera e reconhece a personalidade. Oferece respeito a absolutamente todos, mesmo que a interação seja apenas passageira. Segurar a porta aberta para uma pessoa atrás de mim é uma maneira simples de reconhecer que ela existe no mundo e estou feliz por ela estar ali. Não preciso dizer uma palavra para colocar energia positiva no mundo. Essa positividade reflete de volta para o doador. Fico mais feliz quando sou cortês, mesmo que meus esforços não sejam reconhecidos.

A cortesia leva tempo? Sim, isso absolutamente nos atrasa. Porém, não é muito tempo, e a desaceleração é de grande benefício. Não é um desperdício. É um reconhecimento de que outras pessoas são valiosas e há muito mais na vida do que correr com a maior eficiência possível.

Nossas vidas são marcadas por grandes amores – amizade, cônjuge, família – mas igualmente importantes são todos os pequenos amores, as cortesias. Os grandes amores têm hora e lugar, mas os pequenos amores podemos praticar todos os dias.

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