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Sudão do Sul: Igreja prepara o acolhimento dos que fogem da guerra

polscy misjonarze w Sudanie Południowym

fot. Biuro Prasowe Kapucynów - Prowincja Krakowska

Reportagem local - publicado em 21/05/23

“Há imensa gente na fronteira”, descreve a Irmã Beta Almendra, uma comboniana na Diocese de Wau, Sudão do Sul. A Igreja deste país está a preparar o acolhimento dos milhares de refugiados vindos do vizinho Sudão, vítimas da guerra que começou a 15 de Abril

Desde o dia 15 de Abril que o Sudão está tomado por um conflito armado, extremamente violento, entre as forças de dois militares rivais, o general Abdel Fattah al-Burhan, líder das Forças Armadas e o general Mohamed Hamdan Dagalo, mais conhecido como Hemeti, que comanda as Forças de Apoio Rápido (RDF). Desde que os primeiros combates eclodiram na capital, Cartum, já morreram mais de 500 pessoas e mais de cinco mil ficaram feridas. A situação é crítica no plano humanitário, com milhares de pessoas em fuga num clima de total insegurança, agravado pela falta de bens essenciais, desde comida a água potável. Até ao momento, a esmagadora maioria dos refugiados tem procurado abrigo no Egipto, Chade, Etiópia e, claro, Sudão do Sul. É neste contexto que a Igreja do Sudão do Sul [país que ganhou a sua independência precisamente do Sudão em 2011] está a preparar o acolhimento de todos os que fogem da guerra e pedem socorro. Calcula-se que terão passado a fronteira entre os dois países, até ao momento, já mais de 50 mil pessoas. 

A Diocese de Wau, onde está a Irmã Beta Almendra, está a mobilizar-se na expectativa do acolhimento de milhares de pessoas traumatizadas pela violência e por uma caminhada longa e perigosa. “Ainda não temos campos de refugiados porque [as pessoas] estão a vir a pé, mas devagar, devagarinho chegarão. Acredito que chegarão aqui a Wau. Nas fronteiras há imensa gente, mas, claro, caminham a pé e pelo caminho há muitos perigos.” Segundo relatos que chegaram à missão comboniana em Wau, muitos dos refugiados que fogem da guerra e se fizeram a caminho, “estão a ser assaltados”. “As pessoas já não vêm com nada, mas mesmo com esse nada ainda estão a ser roubadas… Está a ser uma viagem muito difícil, um sair de um país em guerra com muitos, muitos problemas”, explica a religiosa portuguesa em mensagem enviada para Lisboa, para a Fundação AIS.

“Todos têm família em Cartum…”

Para apoiar os refugiados que chegam do Sudão, a Diocese de Wau está a mobilizar-se intensamente. O próprio Bispo, D. Matthew Adam Gbitiku, escreveu uma carta a todos os sacerdotes e religiosas, a todas as congregações existentes localmente para se mobilizarem para esta iniciativa. “O Bispo – tenho aqui na minha mão a carta que ele escreveu, diz Beta Almendra – pediu para que nós, na diocese de Wau, possamos ajudar os nossos irmãos de Cartum. Pediu a todos, padres, religiosas, e aos leigos. E realmente a mensagem é solidariedade com Cartum, com as pessoas de Cartum [a capital do Sudão]. Para fazer isto, vamos organizar três ofertórios consecutivos nas missas. Todos os fiéis leigos são convidados a contribuir para que depois possamos mandar esse dinheiro até à primeira semana de Junho para Cartum, para ajudar realmente as pessoas, os que ficam, os que estão e os que têm de vir embora.” Há entre a população um sentido de enorme proximidade para com o Sudão. Não só pelos laços históricos, mas também familiares. A Irmã Beta sublinha esse aspecto. “Sudão do Sul e Sudão foram um país. Agora estão separados, desde 2011, e realmente quando dizemos que o Sudão do Sul é o país mais novo do mundo foi devido a esta separação. Mas as pessoas são as mesmas, todos têm família em Cartum. Aqui, perguntamos, ‘como é que está a tua família, como é que eles estão?, estão a sair do país? Conseguem vir?”, descreve a irmã.

“Queremos acolhê-los…”

Famílias separadas e angustiadas. Principalmente porque os que ainda não fugiram do Sudão são os mais pobres, os mais fragilizados, os que estão, por isso, mais vulneráveis. “Quem tinha algum dinheiro, alguma economia, conseguiu sair de carro ou de avião. Todos os outros saem a pé, e isso demora meses e meses até conseguirem chegar, por exemplo, a Wau, onde os esperamos. Nós esperamos por eles e queremos acolhê-los”, garante a religiosa portuguesa. A Fundação AIS tem vindo a acompanhar a evolução dos acontecimentos no Sudão, procurando manter contacto com responsáveis da Igreja neste país. As informações disponíveis apontam para um agravamento da crise humanitária, com campos de deslocados e de refugiados completamente cheios e as cidades cada vez com menos pessoas. Faltam alimentos, combustível, água potável. Mas a Igreja tem permanecido junto das populações. Ainda recentemente, a Fundação AIS Internacional recolheu o depoimento de um missionário que quer continuar junto das populações deste país em guerra desde 15 de Abril. “Quero ficar até ao último minuto. Não quero deixar as pessoas aqui sozinhas. Muitos dos nossos católicos vieram [à igreja]. Sabe, aqui, a Igreja é a esperança deles. Mas nós enfrentamos os mesmos problemas que o resto das pessoas”, afirmou o missionário que, por questões de segurança não pode ser identificado.

Igreja bombardeada

Algumas Igrejas foram atingidas durante os combates, tal como edifícios públicos, incluindo hospitais. A Fundação AIS sabe que a igreja de Bahri, no norte de Cartum, foi atingida por uma bomba, mas os que se encontravam no local conseguiram apagar o fogo que chegou até ao telhado. Foi forçada também a entrada na catedral de Cartum e uma capela, pertencente a uma congregação religiosa, foi bombardeada. A nível humanitário, a questão da falta de água está a revelar-se dramática. As temperaturas são muito elevadas – chegam a atingir 40 graus à sombra… – e, na falta de alternativas, as pessoas arriscam ir até aos rios, mas essa água é imprópria para consumo o que poderá vir a ser um foco também de doenças. Parceiros de projectos da Fundação AIS explicam que falta em todo o lado tudo o que é essencial. Os mercados estão vazios, os alimentos são escassos, o combustível rareia e formam-se, por vezes, longas filas nas estações de serviço. Neste cenário de caos, que se tem vindo a agravar de dia para dia, em Wau, no Sudão do Sul, a Igreja está mobilizada para o acolhimento dos que estão em fuga. Em Wau, no Sudão do Sul, a Irmã Beta Almendra, é um dos rostos dessa Igreja de mangas arregaçadas preparada para ajudar os que chegam do outro lado da fronteira. “Vamos continuar a rezar por eles e no fundo queremos ajudá-los e como congregações religiosas vamos fazer o nosso melhor para poder acolher os nossos irmãos no Sudão e em Cartum. Deus vos abençoe”, diz a religiosa na mensagem enviada para a Fundação AIS.

(Com AIS)

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