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Espiritualidade cristã e liturgia

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Fabio Lotti | Shutterstock

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Don Emanuele Bargellini - publicado em 28/05/23

Como pode acontecer este milagre, de viver uma vida divina e espiritual nesta existência humana tão fragilizada e complicada pelo pecado que nos marca interiormente?

O que é a espiritualidade cristã? 

Espiritualidade cristã ou vida espiritual, para o cristão significa, no seu sentido original, viver todas as expressões da própria existência segundo a vida recebida do sopro divino na criação, renovada pelo Espírito Santo derramado por Cristo morto e ressuscitado em nossos corações no batismo, e seguir o seu impulso e a sua guia. É viver a vida como caminho que se traduz em um processo existencial dinâmico e global sob a ação do Espirito. E o objetivo desse caminho é chegar à experiência de São Paulo: Não sou mais eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim (Gl 2,19).

O Espírito Santo é o dom do Senhor Jesus Cristo, morto e ressuscitado que nos conforma sempre mais a Cristo. Por isso a vida do batizado é uma potencialidade e uma vocação a se tornar cristã e espiritual de fato, isto é, conforme a Cristo, graças à ação do Espírito Santo.

O processo da vida espiritual abrange toda a existência: desde antes do nascimento (cf Jer 1,5: antes de te modelar no ventre materno, eu te conheci…eu te consagrei; cf Ef 1, 4-6), após o nascimento pelo batismo, no acompanhamento e na iniciação cristã, até a acolhida no abraço do Pai, “através” da morte e para sempre.

Como pode acontecer este milagre, de viver uma vida divina e espiritual nesta existência humana tão fragilizada e complicada pelo pecado que nos marca interiormente?

A páscoa de Jesus, com a sua morte e ressurreição e a efusão do Espírito Santo, é o centro de toda a história da salvação: da criação e da aliança com Abraão e Israel, até as núpcias do Cordeiro Imolado e vivente com a Igreja sua esposa, na plenitude do reino de Deus que contemplamos no Apocalipse. Uma ponte une as duas margens do grande rio da história. O pilar central, sobre o qual se apoia a ponte é Cristo Jesus morto e ressuscitado, que infunde o Espírito que com a sua energia vital e a sua ação atravessa toda esta história, como uma longa viga de ferro que une e sustenta toda a estrutura da ponte. Ou, outra imagem, o Espírito é a seiva vital que alimenta a vida da árvore da história.

Como entramos em relação com o centro vital da história de Deus-conosco?

A liturgia no seu conjunto, e os sacramentos da iniciação cristã em modo especifico, nos põem em relação vital com a páscoa de Jesus, isto é, com a sua morte e ressurreição, que nos fazem participar da sua vida nova pelo dom do Espírito Santo. A liturgia é o memorial atualizante/Zikarón da páscoa judaica que permite entrar nessa vida nova (Sacrosantum Concilium – SC 2. 7-10).

O batismo nos doa a graça de participar da morte e ressurreição de Jesus, que nos faz “morrer” ao pecado e “nascer” à vida nova em Deus pelo dom do Espírito Santo. O rito do Batismo/baptízein nos faz mergulhar e subir da água. Pelo batismo nós fomos sepultados com Cristo na morte, para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também nós vivamos vida nova (Rm 6, 4).

A vida cristã, a vida espiritual, não consiste na observância de mandamentos e regras que vem do exterior, mas na relação pessoal com o Senhor. Assim o Espírito Santo se torna lei/energia que nos impele e nos guia do interior, a partir da nossa consciência. Desta relação com o Senhor no Espírito nascem as exigências de viver e comportar-se em maneira coerente. É a partir dessa relação pessoal que brotam, como “frutos do Espírito”, os comportamentos coerentes: a conversão ao Senhor, o amor, alegria, paz, a fidelidade, a misericórdia, o autodomínio, acontecimentos da vida (cf Gl 5, 22-23).

Juntos com toda a criação e a história humana, nós também “que temos as primícias do Espírito”, sofremos interiormente como as dores do parto, enquanto esperamos e fatigamos para alcançar a plenitude da vida. O Espírito nos sustenta na nossa fraqueza e intercede por nós junto do Pai (cf Rm 8, 22-26). Assim ele é o penhor da nossa esperança (cf Ef, 1,14). O reino de Deus é uma pequena semente que se torna uma grande árvore (cf Mt 13,31-32), é um punhado de fermento que fermenta toda a farinha (Mt 13, 33)

A energia vital do Espírito (batismo – confirmação) ativa em nós um dinamismo de transformação da nossa vida sem limites, uma vida de homens e mulheres ressuscitados, que podem atuar como filhos de Deus e irmãos uns dos outros, atuar para a transformação da sociedade segundo os critérios do evangelho, isso é do amor e da vida: Se ressuscitastes com Cristo, pensais e procurais as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus (Cl 3, 1). O céu para os cristãos já está aqui na terra. Nós somos o céu na terra, enquanto o Espírito de Deus vive e atua em nós e por nós. E nós colaboramos a construí-lo com o nosso comportamento guiado pelo Espírito Santo, espírito filial e fraterno: Não sabeis que o Espírito habita em vós e vós sois templo de Deus? (I Cor 3, 6).

Todas as expressões da vida cotidiana, na medida que se deixam orientar pelo Espírito do Senhor, pela fé e pelo amor, constituem o verdadeiro culto espiritual agradável a Deus. É superada toda divisão entre o templo e a vida, entre os ritos sagrados e os caminhos da vida concreta que é o lugar privilegiado do nosso encontro com Deus. Exorto- vos, portanto irmãos, pela misericórdia de Deus, a que ofereçais vossos corpos como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus: este é o vosso culto espiritual. Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa mente, a fim de poder discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, agradável e perfeito (Rm 12, 1-2).

O Concílio esclareceu ainda mais o pensamento de Paulo, especialmente em relação aos leigos: Consagrados a Cristo, e ungidos pelo Espírito Santo, os leigos são chamados e munidos para que neles se produzam sempre mais abundantes os frutos do Espírito. Assim todas as suas obras, preces e iniciativas apostólicas, vida conjugal e familiar, trabalho cotidiano, descanso do corpo e da alma, e mesmo os incômodos da vida pacientemente suportados, tornam-se ‘hóstias espirituais, agradáveis a Deus por Jesus Cristo’ (I Pd 2,5). E estas são oferecidas com fé ao Pai com a oblação do Senhor na celebração da Eucaristia (Lumen Gentium 34).

O necessário cuidado com a liturgia

A Liturgia é o cume para o qual tende a ação da igreja e, ao mesmo tempo, é a fonte donde emana toda a sua força: do batismo à eucaristia. Na celebração, afirma a SC, os fiéis atingem o espírito verdadeiramente cristão (SC 14). A liturgia é primeira fonte da piedade cristã (S. Pio X e S. Paulo VI). A Liturgia, assim, realiza e exprime a ação salvífica de Deus, através da linguagem “ritual/simbólica”, segundo a estrutura da pessoa humana – espirito e corpo – e no respeito do mistério de Deus, que pode ser expresso de qualquer forma, por símbolos.

Isto exige iniciação em vários níveis, disposição interior e formação cultural. A participação consciente às celebrações da liturgia tem a capacidade de alimentar com a vida do Espírito todos os aspectos da nossa vida cotidiana, pessoal, familiar, social. Toda celebração litúrgica nos alimenta, à sua maneira, com o pão da vida proporcionado na mesa dupla da Palavra e do Sacramento. Para tanto, é necessário chegar à celebração preparados e disponíveis ao encontro pessoal com o Senhor, à escuta da palavra de Deus que será proclamada, e ao diálogo interior com seu Espírito; que a participação seja consciente, interior, plena e ativa (cf. SC 14), não somente ao nível dos gestos rituais (cantos, procissão, acontecimentos da vida) mas das condições interiores.

Participar significa entrar na liturgia, fazer uma experiência global com toda a própria pessoa: fé, amor, inteligência, coração, imaginação e memória; com o próprio sentido estético e com os sentidos do corpo: vista, ouvido, olfato, tato e paladar. Por isso a liturgia não se explica, se vive, como disse o artista sacro Claudio Pastro.

Uma espiritualidade que tem ao seu centro a liturgia (espiritualidade litúrgica) não significa uma vida estreita nas malhas da celebração. É uma espiritualidade capaz de inervar o conjunto e cada detalhe do nosso viver cotidiano, pois nos coloca em relação permanente com a fonte de toda vida cristã, que é a páscoa de Jesus. A espiritualidade litúrgica é simplesmente a espiritualidade cristã e a espiritualidade da igreja. A ela deve fazer referência qualquer outra espiritualidade: de Nossa Senhora, dos movimentos carismáticos, dos neocatecumenais, dos monges, dos acontecimentos da vida. 

A espiritualidade litúrgica é uma maneira de ser e de viver, não é somente um método de rezar. Se adquire gota a gota, dia após dia, através da experiência pessoal e comunitária. A experiência nos modela interiormente, e o crescimento na nossa formação nos faz participar mais profundamente como numa espiral sem fim. É acompanhar o caminho da igreja ao longo do ano litúrgico, que nos faz voltar sempre à páscoa de Jesus, como a seu centro e ao centro da vida da igreja. 

Algumas características da espiritualidade a partir da liturgia

  1. Nos insere na história da salvaçãode Deus Pai, redescobrindo a sua iniciativa e a sua fidelidade para conosco. Em Cristo morto-ressuscitado alcança seu centro e sua realização. Por isso é uma espiritualidade profundamente bíblica. Aquela Palavra agora se cumpre em nós. 
  2. É pascal pois é centrada sempre (domingos, ano litúrgico, sacramentos, liturgia das horas) sobre o mistério da páscoa de Jesus morto e ressuscitado que se torna também o nosso caminho de transformação nele e de santificação. É possível uma existência pascal. À santa Trindade é orientada nossa existência como a seu fim.
  3. É cristológica pois nos faz viver a contínua relação pessoal com Cristo, com seu mistério pascal, na sua presença perene no meio de nós na palavra, na eucaristia, na caridade fraterna, na consciência, acontecimentos da vida. Tudo recebemos do Pai por meio dele e toda nossa vida se relaciona com o Pai através dele. Nosso caminho espiritual é tornarmo-nos “cristãos”, conformados e transfigurados em Cristo.
  4. É pneumatológica pois é no Espírito derramado em nós que partilhamos com Jesus a sua condição de filhos/as de Deus, que nos relacionamos uns com os outros como irmãos e como membros do mesmo corpo de Cristo. Anima todas a expressões da vida, tornando-as “espirituais” e nos impele e nos habilita a dialogar com os sinais da sua presença, em qualquer experiência humana, religiosa ou não.
  5. É trinitária pois a santa Trindade é a fonte da nossa vida e a meta do nosso caminho: da Trindade para a Trindade. Batizados em nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo. Gloria ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo!
  6. É eclesial pois é na comunhão da igreja, nossa mãe que nascemos à vida de Deus pelo anuncio do evangelho e o batismo, crescemos pela catequese e pelos sacramentos e no Espírito somos formados como membros do corpo da igreja na caridade. Com ela caminhamos na história.
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