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Anne Frank e a atitude correta perante a realidade

ANNE FRANK

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Manuel Ballester - publicado em 13/06/23

Há no esconderijo um primeiro problema: o que fazer com o tempo?

Faltando poucos meses para o fim da Segunda Guerra Mundial, morria a jovem judia Anne Frank (1929-1945). Ao longo de dois anos e meio, ela havia permanecido num esconderijo apertado, em Amsterdã, a fim de tentar escapar da perseguição a que o regime nazista de Adolf Hitler submetia o povo judeu.

Pouco antes de precisar abandonar a própria casa para se transferir ao esconderijo, Anne tinha ganhado um caderno de presente de aniversário de 13 anos. Nele começaria a escrever o seu hoje famoso diário. As primeiras anotações nos mostram Anne segundo Anne mesma: uma adolescente expansiva, animada, inquieta, simpática, popular entre os amigos e professores e que se sentia amada, especialmente pelo pai. Esse clima cordial preenche pouco espaço do diário, porque a situação se deteriora rapidamente e a família toda tem que se esconder.

É assim que começa o período de confinamento no esconderijo, ou Anexo Secreto, como Anne o chama. Nele se abrigam também a irmã, os pais e outras pessoas, até um total de oito.

O diário é escrito com muita agilidade e mostra como se desenrolam os acontecimentos relacionados com a guerra, alguns pormenores do quotidiano dos holandeses, as relações entre as pessoas que têm de conviver no pequeno refúgio, assim como o processo de amadurecimento de Anne.

Há no esconderijo um primeiro problema: o que fazer com o tempo. Vemos uma série de estratégias interessantes: estabelecer um horário diário, não descurar o exercício físico, traçar uma árvore genealógica (“Papai e eu descobrimos uma forma de nos entretermos. Ele me ajuda a montar a minha árvore genealógica paterna. Sobre cada membro da família, ele me relata uma breve história, e isso me faz sentir a minha ancestralidade”), disfarçar-se, entreter-se com jogos de tabuleiro, ouvir música e… escrever um diário!

Escrever obriga a desacelerar, repensar, acalmar a vida. Essa reflexão se traduz numa ocupação profícua imediatamente visível e num amadurecimento gradual perceptível ao longo do tempo.

Não é impossível que a vida cotidiana, com a sua agitação e suas idas e vindas, tenha servido como desculpa para descuidar a família e a própria interioridade: não havia tempo para isso. Neste o caso, ser forçados a eliminar as atividades externas pode nos jogar, abruptamente, diante do vazio da nossa vida. Pode-se então descobrir que a família é um inferno ou que a nossa interioridade está frágil. E isto sim é uma crise, uma provação.

Para superá-la com sucesso, é preciso primeiro mergulhar nela. Em outras palavras, as coisas precisam ficar difíceis. Anne percebe que, no “confinamento opressivo” em que se encontram, ouvem-se “palavras ofensivas proferidas constantemente”, não só entre adultos e crianças, mas dos adultos entre si.

“As disputas fazem toda a casa tremer. Mamãe contra mim, os Van Daan contra o papai, a senhora contra a mamãe. Todo mundo está nervoso”. Esse tempo de confinamento é, como se vê, um tempo para emergirem as relações tóxicas mantidas em letargia pelas atividades externas. Só quando elas mostram a cara é que nos incomodam, se tornam visíveis e, por isso mesmo, podem ser encaradas de frente e nós podemos trabalhar para curá-las. Nos termos de Anne: “Tenho certeza de uma coisa: ao brigarmos abertamente uma vez, aprendemos a nos conhecer a fundo”.

O diário contém páginas engraçadas e tristes; relata com beleza questões como a atitude de Anne perante as primeiras menstruações, como ela percebe o próprio corpo, a sexualidade, a adolescência naquelas circunstâncias difíceis, a necessidade de ternura, a amizade ou o namoro e tantas outras coisas.

Gostaria de destacar a evolução de Anne, que se traduz na forma como ela avalia o mundo e na sua atitude perante ele.

O início do diário revela tédio e frivolidade. Ela é uma criança mimada que, de repente, se vê forçada a levar uma vida de confinamento e de privação de conforto.

Mas está a salvo. Ela sabe o que está acontecendo lá fora. Sabe o que acontece com muitos judeus, alguns dos quais são seus conhecidos e amigos, transferidos para campos de concentração e mortos numa câmara de gás.

Anne se torna consciente de que a sua vida antes do “anexo secreto” era divertida e superficial, mas também de que ela teve “a sorte de ser atirada abruptamente de volta à realidade”. Ela entende o seu confinamento como uma oportunidade de encontro com a realidade; antes de tudo com quem ela realmente é, mas também com a realidade dos outros e do mundo em geral. “Aquela Anne, a colegial de antes, eu vejo agora como uma menina encantadora, mas muito superficial, que nada tem em comum comigo […] Ao me tornar mais séria, me senti consciente de um desejo sem limites de tudo o que é beleza e bondade”. O amadurecimento pessoal a levou a admirar o que é bom e belo, a ampliar a dimensão dos seus anseios, a almejar a Deus.

A certa altura, ela percebe que essa atitude feliz e grata não é igual à de quem aconselha a pensar nas desgraças do mundo e a alegrar-se por estar a salvo. Porque, embora essa abordagem tente passar-se por positiva e até possa ajudar a atravessar a crise, ela só consegue trazer certo alívio caso nos comparemos com alguém em situação pior que a nossa – o que, em si mesmo, também é angustiante. Em vez dessa abordagem, podemos optar por aceitar as adversidades com firmeza, o que guarda semelhança com a diretriz estoica “sustine et abstine” (suporta e renuncia), compartilhando da dignidade dessa postura.

Anne, porém, considera que suportar é uma atitude valente e honrada, mas não é a atitude certa se olharmos para a realidade. O entusiasmo é a postura certa: é preciso “reencontrar a alegria em si mesmo e em Deus. Pensa na beleza que ainda existe em ti e ao teu redor. Sê feliz!”.

Em suma, o que nos fará felizes é a visão e o desejo do melhor, do bom, do belo. Assim podemos ser apoio para os outros, porque “aquele que é feliz pode fazer os outros felizes. Quem não perde a coragem nem a confiança jamais perecerá na calamidade”.

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