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A arte de envelhecer

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happy elderly couple man woman laughing

NDAB Creativity | Shutterstock

An elderly couple laughs and smiles together.

Xavier Patier - publicado em 29/06/23

A velhice é a idade mais aberta de todas, a idade da conversão do coração. É o momento em que abrimos mão de um pouco de entretenimento para nos dedicarmos à preparação para a grande aventura da vida. Como você tem feito isso?

A terceira idade é quando a verdade de nossas vidas ressurge. Nós nos tornamos nós mesmos. Enfrentamos nossos limites físicos mais do que antes e, ao mesmo tempo, saboreamos mais a liberdade de não ter mais nada a provar. Chega de provar para dar o melhor: esse é o projeto. 

Em sua primeira sátira, Horace Flacus compara nossas vidas terrenas a uma refeição. A aposentadoria é, então, o momento da sobremesa – que os romanos chamavam de tragemata, a última iguaria. Quando chega a sobremesa, falamos mais baixo, contemplamos o banquete que está terminando, não fofocamos mais sobre os ausentes, focamos finalmente no que estamos fazendo, saboreamos a doçura – e o carpe diem torna-se, literalmente, um carpe tragemata

Como sobremesa de nossas vidas, Deus nos oferece um tempo de serviço. Não percamos! Vamos viver como monges. 

A era da conversão do coração

Você foi engenheiro, professor, cozinheiro, agricultor? Agora você é militante associativo, jardineiro, ciclista, catequista, marido, avô. Você já era tudo isso, mas o acessório passou a ser o principal. A sua vida já não se reduz a uma profissão: torna-se a soma das suas paixões. E essas paixões servem umas às outras. 

É hora de agradecer por esse paradoxo: você se torna único no exato momento em que, tornando-se ancião, entra na linha. Velho é suficiente para definir você para a sociedade, mas não para ocupá-lo. 

Como você faz bom uso do último suspiro da juventude moribunda dentro de você? A velhice é a idade mais aberta de todas, a idade da conversão do coração. É o momento em que abrimos mão de um pouco de entretenimento todos os dias para nos dedicarmos à preparação para a grande aventura, a morte.  

Nem sempre é fácil explicar esta alegre e vigilante preparação para a proximidade da morte. Para mim, quando me perguntam o que faço da vida, desde que me aposentei, respondo: sou escritor. É uma forma como qualquer outra de dar o troco. Digo escritor porque a sociedade não reconhece o status de avô e não gosta de ouvir falar em morte. 

A hora de ser o que é

Lembro-me de Jacques Attali explicar, já há uns bons dez anos, que preferia escrever livros a candidatar-se às eleições, porque o futuro do político é tornar-se, um dia, velho, ex-ministro, enquanto o futuro do escritor é tornar-se um escritor. 

Apesar de seu lado narcisista, a reflexão de Attali é profunda, pois mostra que chega um momento em nossas vidas em que não se trata mais de fazer, mas de ser. Para alguns, esse momento chega muito cedo; para outros, nunca. 

Mas esse momento, em que o ser finalmente encontra seu lugar, é uma bênção de Deus. Nunca é tarde para vivê-lo com todo o seu coração. Não há nenhum ex-escritor, talvez, e nenhum ex-artista, certamente, mas acima de tudo não há nenhum ex-batizado. 

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