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Bíblia: O amor em Palavra 

Woman holding bible in summer field

Andrew Angelov | Shutterstock

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Julia A. Borges - publicado em 16/07/23

Antes mesmo que o mundo fosse criado, a Palavra já existia. Havia entre o Pai e o Filho, um diálogo de amor

Do crente ao ateu e do gentio ao judeu, a leitura bíblica se dá por diversas veredas que atravessam o pensar e a lógica humana, e tais caminhos vão de encontro, predominantemente, ao entendimento da intencionalidade do autor. Muitos dos estudos das Sagradas Escrituras se voltam às questões hermenêuticas justamente porque o material suscita múltiplas interpretações e a isso também se devem os inúmeros nichos religiosos dispersos no mundo. Portanto, refletir acerca da Bíblia é ser possuidor de um material acadêmico heterogêneo com recepção direta no mundo contemporâneo/moderno, e sua riqueza é incontestável, seja pelo viés religioso ou exclusivamente literário.

Tamanho bem é, muitas vezes, negligenciado pelo próprio fiel que faz das Escrituras um fim puramente apologético e ignora o fato único e basilar da fé cristã no qual afirma que a Palavra se fez carne, ou seja, a Bíblia não é Palavra de Deus, portanto, a não ser em sentido analógico; porque, propriamente falando, a Palavra é a segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Filho eterno do Pai, Jesus Cristo. O próprio documento do Concílio do Vaticano II, intitulado Dei verbum – Dogmática sobre a Divina Revelação, revela que “o cristianismo é a religião da Palavra de Deus, não de uma palavra escrita e muda, mas do Verbo encarnado e vivo”.

Antes mesmo que o mundo fosse criado, a Palavra já existia. Havia entre o Pai e o Filho, um diálogo de amor. Foi por pura graça que Deus, servindo-se de seu Verbo, tudo criou, inclusive a raça humana, para que assim fosse feita uma comunhão. O ser humano, no entanto, através de seu livre-arbítrio, apartou-se de Deus, frustrando o plano original que Ele tinha para todos os seus filhos. Mas tamanha é a misericórdia divina que com o intuito de resgatar o homem dessa condição, tornou visível, audível e tátil o Verbo eterno. A verdade, agora, tornou-se palpável.

Instrumento

As páginas sagradas não constituem um fim em si mesmo, mas são um instrumento para suscitar a virtude da fé, princípio de todo o organismo espiritual que Deus enxerta em seus filhos adotivos; são um meio para tornar-nos “participantes da natureza divina” (2Pd 1, 4) e saciar o ser com a Palavra por que ansiava desde sempre o inquieto coração humano. É de fé católica que os livros que compõem as Escrituras são divinamente inspirados e, por isso, têm a Deus mesmo por autor principal. Isto não significa, porém, que nos tenham sido transmitidos por simples ditado, ao modo das assim chamadas “psicografias”, nem que, portanto, os autores humanos — também denominados hagiógrafos — tenham pouca ou nenhuma participação na composição dos textos santos. Conciliando extremos à primeira vista incompatíveis, a fé católica ensina que, apesar de ser antes e sobretudo Palavra de Deus, a Bíblia não deixa de ser também produto da ação de homens reais e concretos, que cooperaram ativa e efetivamente para que à Igreja estivessem sempre abertos os tesouros das divinas Letras.

As Escrituras, por conseguinte, não podem ser consideradas fonte de inspiração somente pelo fato de uma decisão da autoridade eclesiástica; pelo contrário, é justamente por serem inspiradas e motivo revelação divina que a Igreja, sob a assistência do Espírito Santo, as acolhe, venera, medita e proclama. Segundo o livro de Teologia Fundamental do Padre Paulo Ricardo,  “não é a inventos e especulações humanas que se deve recorrer para alcançar o sentido verdadeiro e genuíno das Escrituras e da Tradição, nem a critérios e preferências pessoais, mas à voz daquela que, instituída pelo próprio Senhor Jesus como mãe dos fiéis e mestra das nações, suporta, nutre e sustenta a fé de cada um de seus filhos, isto é, à Igreja Católica”.

Sentido

À primazia da Escritura acrescenta-se o poderio da fé individual, e, portanto, é função do leitor, iluminado pelo Espírito Santo, a exegese dos textos sagrados. Entretanto, a Igreja orienta sobre o verdadeiro sentido dos textos bíblicos, prevenindo de qualquer interpretação que discorde do que por ela é proposto como sendo a reta compreensão da Palavra de Deus. Fato é que a Bíblia não poderá ser entendida, na profundidade do seu significado, pelo leitor que se limitar aos aspectos formais literários ou até mesmo nas questões históricas, haja vista que mesmo sendo inegável o manancial investigativo e científico por detrás daquelas linhas, só será possível ter a verdadeira interpretação da mensagem aquele que se deixa ser conduzido pelo Espírito Santo de Deus. 

Ao cristão que muitas vezes, mesmo com todo empenho, sente-se aquém de realizar algumas análises, é necessário ter em mente que o fiel tem na Igreja, a intérprete legítima constituída pelo próprio Cristo como depositária incorruptível das verdades contidas na Palavra. É a ela que se deve recorrer quando a dúvida for maior do que o real entendimento da vontade de Deus.


Referências

Leão XIII, Encíclica “Providentissimus Deus“, de 18 nov. 1893, n. 31.

Bento XV, Encíclica “Spiritus Paraclitus“, de 15 set. 1920, n. 10.

Ricado, Padre Paulo. Teologia Fundalmental I. São Paulo: Ecclesiae, 2010.

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