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Quem sai do seminário ou do convento é uma “vocação perdida”?

Seminaristas

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Seminaristas na Missa

Pe. Cido Pereira - Reportagem local - publicado em 21/07/23

Certas expressões podem ser profundamente ofensivas para quem percorreu uma trajetória de discernimento vocacional e concluiu perante Deus que não tem a vocação sacerdotal

A coluna de perguntas e respostas que o pe. Cido Pereira mantém no portal O São Paulo recebeu de um leitor o pedido de explicar “o caso dos vocacionados que vão para o seminário e acabam perdendo a vocação”.

O assunto é delicado porque a vocação não é um fato automaticamente confirmado só porque uma pessoa entrou no seminário ou no convento. Existe um processo de discernimento vocacional que todo candidato e candidata precisa trilhar, antes de efetivamente professar os votos religiosos ou receber as sagradas ordens. Nesse processo, alguns descobrirão que realmente foram chamados por Deus à consagração, enquanto outros perceberão com mais clareza que o seu chamado não é à vida religiosa.

Não obstante, persistem certas expressões frequentes, mas muito equivocadas, em relação a quem sai do seminário ou do convento: “abandonou a vocação”, “desistiu”, “perdeu a vocação”… Tais expressões podem ser profundamente ofensivas para com quem percorreu uma trajetória de discernimento vocacional e concluiu perante Deus, com toda a tranquilidade de consciência, que não tem a vocação sacerdotal ou consagrada. Essas pessoas não desistiram de nada, não abandonaram nada e não perderam nada. Quem se apressa em julgá-las sumariamente deveria cuidar da própria resposta a Deus, que afirmou categoricamente: “Com a mesma medida com que medirdes, sereis medidos”.

Tipos de vocação

Colocada esta premissa, eis o que o pe. Cido respondeu ao leitor:

“Rodrigo, a vocação para nós, cristãos, é coisa séria. É muito mais do que tendência, muito mais do que jeito para alguma coisa. Vocação, para nós, é chamado de Deus. É Deus entrando na vida de uma pessoa e dizendo: ‘Olha, eu preciso de você’. E é a pessoa dizendo ‘sim’ a Deus.

Entre os muitos chamados que Deus faz aos homens e mulheres, o primeiro é o chamado à vida. Viver é maravilhoso, não é? E viver bem, ser feliz, realizar plenamente suas potencialidade, é dizer ‘sim’ ao Deus da vida que nos tirou do nada para a existência.

Depois, Deus chama homens e mulheres a serem seus filhos na vida cristã. Deus, nosso Pai, quer reunir todos os homens e mulheres e fazer deles a sua família, a sua Igreja. Ele chama para esta vida pelo Batismo, que nos dá uma vida nova, nos insere no Corpo de Cristo que é a Igreja, nos faz filhos adotivos de Deus, irmãos de Jesus, torna-nos templos do Espírito Santo, nos faz cristãos. Viver intensamente a nossa fé, em profunda comunhão com Deus, com os irmãos e com o mundo criado é o nosso sim ao chamado à vida cristã.

Entre os cristãos, Deus também faz alguns chamados especiais. Ele chama para o serviço de santificar os irmãos na fé, para o serviço de anunciar ao mundo a boa notícia de salvação aos que ainda não a conhecem, e ao serviço de ajudar os filhos de Deus a viverem em comunhão em comunidade. Esta é a vocação sacerdotal.

E há, também, aquela vocação que Deus faz a muitos de seus filhos e filhas para serem sinais do seu amor junto aos pequenos e fracos, junto aos excluídos, junto aos pobres que Deus tanto ama. É a vocação à vida religiosa”.

Perder a vocação?

O sacerdote aborda então a famigerada expressão “perder a vocação”:

“Agora, por que muitos vocacionados ‘perdem a vocação’?. Eu não concordo com isso. Eu não acho que se perdem vocações nos seminários. Eu acho, sim, que o seminário é tempo de discernimento vocacional, por meio do acompanhamento vocacional; pela escuta atenta da Palavra de Deus; pela oração pessoal e comunitária; pelo acompanhamento de homens de Deus que se dedicam à formação.

No tempo de seminário, os vocacionados vão avaliar se sua vocação é real ou se não se trata apenas de um entusiasmo passageiro. E avalia-se, também, se aquele jovem está maduro física e psicologicamente para assumir a missão que Deus e a Igreja estão lhe propondo. No seminário, então, não se perdem vocações. As vocações se perdem, isso sim, naqueles ambientes onde é difícil se ouvir a voz de Deus e onde no coração do jovem ecoam muitas outras vozes que abafam os apelos de Deus”.

Para finalizar, o pe. Cido exorta:

“Rezemos pelas vocações. A Igreja precisa delas para continuar gritando ao mundo que vale a pena ouvir, acolher, amar, seguir e testemunhar Jesus Cristo”.

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