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Os portugueses esperam que o Papa traga “uma mensagem de confiança no futuro”, diz embaixador

Domingos Teixeira de Abreu Fezas Vital

I.Media

Domingos Teixeira de Abreu Fezas Vital

I. Media - publicado em 30/07/23

"Receber centenas de milhares de jovens por uma semana é uma oportunidade de abraçar um espírito de renovação, de esperança, de fé no futuro, de vontade de agir por um mundo melhor" [ENTREVISTA]

De 2 a 6 de agosto de 2023, o Papa Francisco iniciará sua 42ª viagem apostólica ao exterior, em Portugal, por ocasião da Jornada Mundial da Juventude em Lisboa. Além de participar de vários eventos com jovens católicos de todo o mundo, o Papa também se reunirá com representantes da Igreja, da sociedade e do governo português durante o movimentado programa de sua viagem. O embaixador de Portugal na Santa Sé desde 2022, Domingos Teixeira de Abreu Fezas Vital, conta à I.MEDIA como o povo português está se preparando para o evento e o que os católicos do país esperam da visita do Papa Francisco.

O que significa a JMJ para Portugal? O que os portugueses estão esperando?

Esses dias representam um enorme desafio logístico, pois são centenas de milhares, as pessoas que precisam de ser acolhidas. Mas são também uma grande oportunidade de projeção internacional para Portugal, que vai estar sob os holofotes da comunicação social mundial durante muito tempo. O país vai viver uma atmosfera festiva, obviamente com uma conotação espiritual, mas, que não deixa por isso de constituir uma celebração.

Receber centenas de milhares de jovens por uma semana é uma oportunidade de abraçar um espírito de renovação, de esperança, de fé no futuro, de vontade de agir por um mundo melhor. Cada um deles traz isso consigo, e isso é extremamente positivo.

Os portugueses são também um povo muito curioso em relação aos estrangeiros, como qualquer pessoa que visite o nosso país pode constatar. Eles são vistos como construtores de pontes. O confronto com jovens de origens geográficas tão diferentes, durante a JMJ, será uma oportunidade para os portugueses satisfazerem esse seu apetite natural por construir pontes, ouvir os outros e acolher a diversidade. Penso que viveremos um período em Portugal, que ninguém poderá esquecer.

Como o país se mobilizou para organizar a JMJ?

As estruturas da Igreja e do Estado vêm trabalhando há muito tempo na organização das jornadas tendo em vista garantir o seu sucesso. O governo está envolvido, assim como os municípios, como Lisboa e Loures, além de Leiria-Fátima, Cascais e Oeiras.

Mas o que eu gostaria de salientar é a procura, por parte de que todos os envolvidos, na Igreja e no Estado, de uma cooperação cada vez mais intensa e frutífera. Um empreendimento desta envergadura implica, obviamente, um período de esforço de aprendizagem, é normal que assim seja. A JMJ permitiu a todos os envolvidos aprender a trabalhar uns com os outros, no respeito pela identidade, competências e responsabilidades de cada um.

O Papa disse muitas vezes que um dos grandes desafios das JMJ é precisamente aprender a trabalhar em equipe, a levar por diante um ‘lavoro di squadra’. Hoje, acho que as coisas estão mais afinadas, a colaboração é mais próxima, mais fluida e mais fácil.

E como a sociedade portuguesa está contribuindo para a organização?

Quer as estruturas, quer as pessoas se têm estado a preparar para receber quem vem. As Forças Armadas, por exemplo, através das suas instalações militares, ou as escolas, através de suas instalações de ensino, mas também as famílias. Muitas famílias receberão pessoas em suas casas. Muitas pessoas estão envolvidas nas estruturas de voluntariado que foram criadas, estruturas de que pouco se fala, mas que foram fundamentais na preparação da JMJ. A grande maioria dessas estruturas é constituída por católicos, para quem o compromisso tem também uma dimensão espiritual, que lhe confere um vigor adicional.

Ouvi uma história extraordinária recentemente. Uma das minhas irmãs contou-me que esteve recentemente num casamento no norte de Portugal em que os noivos, em vez de partirem para a lua de mel, foram para Lisboa para trabalhar como voluntários na JMJ. Na imprensa, temos lido várias histórias de pessoas que renunciaram a coisas e momentos importantes para ajudar a tornar a JMJ um sucesso. Esse esforço é ainda mais notável e valioso porque as jornadas acontecem numa semana que tradicionalmente é de férias e descanso para os portugueses.

O que os católicos portugueses esperam do Papa Francisco?

Acho que os portugueses esperam que o Papa traga uma mensagem de esperança e confiança no futuro. O mundo passou e está a passar por momentos muito difíceis, de que também Portugal sentiu e sente o impacto. Vivemos a crise económica e financeira, a pandemia e agora a guerra. Este encontro de todas estas pessoas, de origens tão diferentes, representa a crença no futuro que nos entra pela porta e queremos acreditar no futuro com eles.

O Papa tem um programa muito exigente e generoso que demonstra o seu afeto por Portugal e pelo povo português. Um programa que incluiu igualmente uma visita a Fátima, que é um ponto de referência universal para os católicos e não só. Como costumamos dizer, Fátima é o altar do mundo. Como Portugal também é o país de Fátima, a visita do Papa a esse santuário é um reconhecimento dessa caraterística.

A questão dos abusos na Igreja portuguesa tem sido um dos principais tópicos de discussão no ano passado, após as revelações da comissão independente encomendada pelos bispos. Como o povo português reagiu a essas revelações? Elas terão um impacto na JMJ?

A primeira reação do povo português, como um todo, foi de choque com as revelações. Seguiu-se a expectativa em relação à resposta, e a Igreja respondeu. Nesta fase, a sociedade portuguesa espera que essa resposta da Igreja tenha seguimento. 

Como o próprio primeiro-ministro português referiu, nessa altura, há uma consciência de que esse gesto por parte da Igreja deve ser acompanhado pela sociedade como um todo. A questão dos abusos não se limita à Igreja, mesmo que, no seu caso, tenha uma gravidade particular. A iniciativa da Igreja é uma oportunidade para o país examinar essa questão, como um todo. Como sabemos, a maioria dos abusos ocorre dentro da família, o que é terrível. Foi também isto que o primeiro-ministro quis lembrar, quando, na sua reação inicial ao relatório disse que esta não era uma questão apenas da Igreja.

No que diz respeito à JMJ, está previsto, como se sabe, que o Santo Padre se encontre com pessoas que apresentaram queixas e denunciaram abusos. É um momento importante, mas que está a ser tratado com o máximo de reserva e discrição, como exige o respeito por essas pessoas. Perguntou-me como é que as vítimas se sentiriam com este gesto. Não posso falar pelas vítimas, só posso esperar que elas vejam na atitude do Papa um sinal de conforto e uma oportunidade de reconciliação.

A Igreja ainda é ouvida no cenário político e social, em um momento em que o país acaba de legislar sobre a eutanásia?

Claro que sim. Portugal é uma democracia, portanto, todas as opiniões são levadas em conta, no processo de tomada de decisões, incluindo as da Igreja, com o seu peso específico e particular.

Há aspetos em que a convergência com a agenda do Papa está muito presente. É o caso, por exemplo, da preocupação com o meio ambiente. Tudo o que o Santo Padre tem dito sobre este assunto, o que está contido nas encíclicas Laudato Si’ e Fratelli Tutti, são aspetos de óbvia convergência com Portugal. A visão do Papa sobre a necessidade de dar particular atenção aos mais desfavorecidos é outra dimensão que os portugueses acompanham de forma particularmente próxima.

O Papa Francisco acaba de anunciar a criação de um novo cardeal eleitor português. O que pensa da decisão do pontífice argentino de dar 6 cardeais, incluindo 4 eleitores, ao seu país?

Foi uma grande alegria para nós. É um sinal de reconhecimento e apreço por Portugal e pela Igreja portuguesa, que o país recebeu com alegria, mas também, em especial os católicos, com humildade, porque, como o próprio novo cardeal, Dom Américo Aguiar, disse, esta decisão implica também maiores responsabilidades para a Igreja portuguesa, como um todo.

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