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Oppenheimer: quando os homens brincam de ser deuses

Oppenheimer

Universal Pictures

Oppenheimer

José Ángel Barrueco - publicado em 02/08/23

O novo filme biográfico sobre o "pai da bomba atômica" não deixa de trazer alusões religiosas

Em uma das principais cenas do recém-lançado filme “Oppenheimer“, Kitty diz ao marido, J. Robert Oppenheimer (a tradução não é literal): “Você está achando que, ao se deixar humilhar, vai ser perdoado pelo mundo? Não vai”.

Após a destruição das cidades de Hiroshima e Nagasaki pelas bombas atômicas que ele tinha ajudado a fabricar durante o Projeto Manhattan, em Los Alamos, Oppenheimer opta por se tornar uma espécie de mártir: um homem dividido entre o sucesso (o médico que aparece nas capas das publicações de maior prestígio) e a consciência (o cientista atormentado porque se tornou um “destruidor de mundos”); uma figura devastada pela culpa e pela necessidade de perdão, embora, como testemunha uma das personagens do filme, nunca tenha demonstrado remorso em público.

O longa-metragem de Christopher Nolan, com três horas de duração, exige esforço do espectador – o que é habitual na sua filmografia. Os filmes de Nolan devem ser vistos como quebra-cabeças a ser montados com base em pistas e muita dedicação mental. É por isso que tantos espectadores rejeitam o seu cinema: eles odeiam que os créditos finais comecem a rolar pela tela enquanto a sua mente ainda tenta desvendar os peculiares andaimes que o diretor vai erguendo no espaço e no tempo. Para quem vê no cinema não apenas entretenimento, mas uma possibilidade de exploração complexa da condição humana, ainda que o diretor não a facilite, os filmes de Nolan são um completo deleite.

Não faltam as alusões religiosas

Quem ficar apenas na superfície não entenderá totalmente a reconstrução cinematográfica do personagem. Aqui, Oppenheimer é uma figura trágica, uma pessoa que desperta a nossa raiva e a nossa pena ao mesmo tempo. Um homem que, juntamente com militares, políticos e cientistas, brincou de se tornar um deus; mas um deus nocivo. Essa ambição de se tornarem deuses os degenera em demônios, destruidores de mundos – talvez o oposto do que pretendiam.

Em outro momento do filme, J. Robert faz alusão ao seu possível status de “profeta”. Mas Isidor Rabi, outro físico, adverte: “Um profeta não pode estar errado. Nem uma vez”. O próprio Albert Einstein também o alerta: diz a ele que, assim que o castigarem o suficiente, começarão a lhe dar medalhas e a lhe prestar homenagens, mas elas não serão para o seu benefício, e sim para o deles próprios.

Oppenheimer
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Oppenheimer também é consumido pela rivalidade que tem com alguns colegas. A inveja dos outros, principalmente de Lewis Strauss, acabará por levá-lo à farsa de um julgamento privado em que nenhuma prova é apresentada – mas que servirá para os seus detratores o despojarem das suas funções. Como o próprio Nolan apontou, esta parte do filme é uma homenagem a “Amadeus”, dirigido por Milos Forman, com Oppenheimer como um Mozart bem-sucedido, brilhante e bem-humorado, e Strauss como um Salieri invejoso e menor, afundado nas sombras. Nolan reconstrói a sua história saltando continuamente pelos momentos essenciais do Projeto, os anos que se seguiram e as audiências e julgamentos dos dois protagonistas.

Oppenheimer” é um filme que não carece de referências religiosas, nem dos conceitos de culpa e perdão. É o caso da cena em que o cientista declama: “Strike my heart, God One and Triune“, citando um poema-oração de John Donne que Oppenheimer usa para apresentar a sua ideia de nomear o primeiro teste atômico no Novo México como Trinity – ou seja, a Trindade. Ou o momento em que Kitty, a mulher forte, mas traída pelo seu marido, declara: “Você não pode cometer um pecado e depois pedir que todos nós sintamos pena de você na hora das consequências”. Ou quando outro cientista afirma que a bomba cairá sobre justos e injustos.

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Sem dúvida, “Oppenheimer” é uma das melhores obras de Christopher Nolan – uma cinebiografia atípica para a sua filmografia (como foram, por exemplo, “Lincoln“, de Steven Spielberg, e “Mank“, de David Fincher), com atuações magistrais de todo o elenco, da primeira à última estrela, passando por atores menos conhecidos e pelas celebridades em participações especiais, como Cillian Murphy, Emily Blunt, Robert Downey Jr., Matt Damon, Tom Conti, Kenneth Branagh e Jason Clarke. É também um filme que nos alerta para os perigos do poder, do controle e da corrida armamentista, além de um alerta sobre o quanto alguns homens acabam queimados pelas próprias ambições.

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