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O Rosto Transfigurado e Transfigurante de Cristo

TRANSFIGURATION

Brooklyn Museum

La Transfiguration, détail d'une aquarelle de James Tissot.

Don Emanuele Bargellini - publicado em 13/08/23

Os discípulos precisaram de um longo caminho de fé para chegar àquela tarde do primeiro dia da semana, quando Jesus, o crucificado e ressuscitado, abre definitivamente os olhos deles, e o medo se transforma em uma grande alegria cheia de coragem

Todos os anos a liturgia nos oferece a exaltante narração da experiência da Transfiguração de Jesus no Monte Tabor (Mt 17, 1-9), momento decisivo no seu caminho para Jerusalém, meta da sua missão. E passagem fundamental para que os discípulos possam vislumbrar seu destino pessoal, entregue nas mãos dos homens, mas protegido pelo Pai, e a sorte deles, chamados a seguirem seus passos. 

O rosto e o corpo de Jesus resplandecem de tal luz que é como se ele fosse transportado até às nuvens, na luz de uma felicidade superior. Os três discípulos ficam encantados pela maravilha e, ao mesmo tempo, desconcertados pela incapacidade de olhar e entender o que se passa: a luz excessiva é cheia de obscuridade!

De fato, os primeiros a ficarem surpresos e desnorteados foram os três discípulos, testemunhas diretas desse evento extraordinário (Mt 17,6.9). Como podem coexistir a potência de Deus, mostrada por Jesus em inúmeras obras maravilhosas e a sua glória manifestada agora na montanha, com a perspectiva que o “potente” Messias de Deus – assim eles o imaginavam – deveria acabar vítima de seus inimigos, como o próprio Jesus afirmava que aconteceria, segundo o designo de Deus, antes de ser ressuscitado dos mortos? (Mt 16,21 e paralelos)

As perguntas angustiantes perseguirão os discípulos, sem uma “resposta razoável”, até que cheguem aos eventos da Páscoa e a descida do Espirito Santo. Jesus, antecipadamente, abre suas mentes e corações falando a eles sobre esse mistério, – o do “Servo Sofredor” descrito por Isaías que será Senhor e Salvador do povo de Deus – e sobre o caminho necessário para segui-lo. 

As mesmas perguntas nos acompanham ao longo da vida. Cada um de nós também precisará chegar a este dia e ao mistério da Páscoa, transformados e iluminados pelo mesmo Espírito, para “contemplar” a “gloria” de Deus, a manifestação do seu amor, no Crucificado e nas nossas crucifixões. 

O evento do Tabor antecipa a Páscoa. Na frágil humanidade do Filho se manifesta a glória do Pai e a sua proximidade com o seu povo, que em Jesus chega até o dom da própria vida na cruz. A cruz se torna a definitiva e plena transfiguração/revelação do seu amor e do amor do Pai, e o início da transfiguração/transformação dosdiscípulos de todos os tempos, que olham para ele com fé. 

O rosto e o olhar dos discípulos são transfigurados, pois agora correspondem ao rosto de Jesus, “o Filho bem amado”, e tornam-se “homens novos”, segundo o projeto original de Deus ao criar a pessoa humana “à sua imagem e semelhança”, para voltar a viver a relação filial com ele, “face a face” (Gn 1, 26-27). 

A presunção havia desfigurado o rosto e o olhar de Adão e Eva. Pois, quando estes abriram os olhos depois do evento da maçã, em vez de se encontrarem elevados “como Deus”, segundo o que lhes tinha prometido Satanás (Gn 3,5), descobrem-se agora “nus”, desprovidos da própria dignidade. E, envergonhados, sentem necessidade de se esconderem (Gn 3, 7-10).

A Transfiguração de Jesus recupera o projeto original de Deus na criação, pois o “filho bem amado”, “imagem de Deus invisível” (Cl 1,15), despoja-se da sua glória e se torna o Servo Sofredor desfigurado, em tudo igual à criatura humana, até a morte na cruz, e por isso pode ser agora “glorificado pelo Pai” (Fl 2, 6-9).  

Ele não tinha beleza nem esplendor que pudesse atrair o nosso olhar… eram nossos sofrimentos que ele levava sobre si… foi transpassado por causa das nossas transgressões… por suas feridas fomos curados (Is 53, 2. 4- 5).

A cruz, a árvore da vida do Jardim que havia se tornado “árvore de morte” pela violação da ordem de não comer seu fruto, volta a ser a árvore da vida, oferecida para todos, com seu precioso fruto pendurado sobre o mundo: o Cristo crucificado, de cujo lado aberto fluem o sangue e a água viva, que irriga o novo Jardim da história. 

É penetrando neste mistério, iluminados pelo Espírito, que os discípulos alcançam a nova visão sobre Jesus, o Messias pobre de Deus, e sobre si mesmos, chamados a seguir seus passos. 

Jesus, o Transfigurado, é nosso Transfigurador

Os discípulos precisaram de um longo caminho de fé para chegar àquela tarde do primeiro dia da semana, quando Jesus, o crucificado e ressuscitado, abre definitivamente os olhos deles, e o medo se transforma em uma grande alegria cheia de coragem (Jo 20,19-23).

O grande protagonista desta inesperada transformação/transfiguração dos discípulos é o próprio Cristo com a ação iluminadora do seu Espirito, como já tinha prometido: O Espirito Santo, que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará toda a verdade (Jo 14,26). No dia de Pentecostes, o “novo” Pedro pode proclamar, com a força do Espirito, ao povo de Israel que aquele Jesus que vós crucificastes, Deus o ressuscitou e o constituiu Senhor e Messias (cf At 2,2-36).

Viver constantemente como “discípulos na escola do Espirito” será a graça, a missão e o desafio dos seguidores de Jesus de todos os tempos. Para tanto, será necessário ter os ouvidos da obediência abertos, assim como deixar que o Espírito abra os olhos da inteligência e do amor para reconhecer Cristo presente nas situações que serão sempre novas – permitindo que Ele seja o Senhor da nossa vida.

Se na madrugada do primeiro dia da semana, Ele se apresenta a Maria como o jardineiro, e à tarde, vai ao encontro dos discípulos de Emaús como o viandante desconhecido, bem cedo se apresentará a Saulo na via de Damasco, identificando-se com seus discípulos perseguidos, em cujos rostos deformados se faz presente o seu pedido: Saulo, Saulo, por que me persegues?… Eu sou Jesus a quem tu persegues (At 9,5-6).

Uma trágica histórica e uma pergunta perturbadora que se renova todos os dias ao longo dos séculos, nas grandes perseguições sofridas em nome de Jesus, nos rostos dos pobres de todos os tipos que com o rosto desfigurado circulam pelas nossas estradas, vivendo seu sofrimento no anonimato das nossas cidades, que se afogam no mar Mediterrâneo ou no litoral de São Sebastião, em busca desesperada por um fio de esperança para si e para os próprios filhos. 

A igreja nos convida a seguir Jesus junto com os três discípulos, no longo caminho que nos conduz da luz e da nuvem do Tabor, através da montanha das Oliveiras, até o Jardim da ressurreição, reconhecendo no desconhecido jardineiro e na sua voz, o Senhor Ressuscitado. 

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