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O altar da minha avó

Altar em casa

Rafael Codonho

Rafael Codonho - publicado em 27/08/23

"A Vó Dona — como todos a chamávamos carinhosamente — era a velhinha que orava por nossa família, murmurando com o rosário em mãos. Assim, fez de nossa família um espaço privilegiado do amor"

Por trás de toda família feliz, há uma velhinha de joelhos dobrados que ora pelos seus. Ouvi essa frase certa vez e nunca mais me esqueci. Talvez porque consegui perceber o quanto isso é verdade.

De origem humilde e interiorana, minha avó paterna, Natalina, queria ter entrado para o convento. Porém, com sério problema de visão, não conseguiu fazer os votos perpétuos e realizar esse sonho. Os desígnios de Deus apontavam para outro caminho: o matrimônio com Francisco e a consequente missão, também divina, de erguer uma família.

E assim o fizeram, juntos. Juntaram dificuldades, percorrendo algumas das profissões mais duras — ele, caldeireiro, lavrador e guarda noturno; ela, doméstica e caseira, começando bem cedo a trabalhar na lavoura. Mas, para além disso, juntaram uma visão de esperança diante dos desafios da vida. Deles, não ouviam-se lamurios, ressentimentos ou queixas. A vida era uma permanente ação de graças.

Jamais tiveram qualquer pretensão material. Voto de pobreza? Possível que sim: parte imposta pela própria realidade, e a outra por um foco no que é essencial à felicidade. “Deixai vir a mim os pequeninos”, chamou Jesus Cristo, e ela foi. Sem pensar duas vezes. Conheci ali o significado da tal “fé simples”. Aquela que é um exercício puro e completo de entrega, sem racionalismos.

Ainda pequeno, aos cinco anos de idade, perdi o convívio próximo com ela. Conseguia reencontrá-la a cada quatro estações, em média. Mas ficou profundamente marcada, no meu imaginário, aquela casa humilde e preenchida de Deus.

Quadros com imagens modestas de temática católica se espalhavam pelo lar. Repito: tudo muito simples, mas inspirando a mais alta dignidade. Era uma casa de oração, onde ela rezava seus diversos terços diários e — no mais avançado da idade — assistia às missas pela TV, a cada final de tarde.

E eis que chego ao título deste texto: o altar da minha avó. Era o centro do lar, entre a cozinha e a sala de estar. Sempre acesa, uma vela acompanhada por flores preparava de forma singela o ambiente para os amigos de Deus, incluindo São Judas, Santo Expedito e Santa Luzia. A Sagrada Família ficava ao centro.

Tenho guardada, com carinho e saudade, uma foto que fiz desse altar. Carinho, porque é a representação perfeita da minha avó. É só olhar para esse espaço para compreender muito de sua alma. E saudade, porque Natalina faleceu há cinco anos, enquanto eu estava em lua de mel, de uma forma um tanto inesperada para mim.

Altar em casa
O altar da minha avó: “É só olhar para esse espaço para compreender muito de sua alma”.

Em outro continente, sequer pude dizer “até mais!” (afinal, o reencontro é matéria da nossa fé) a quem tanto me ensinou, nem beijar pela última vez a mão que me abençoava. Lamento por não ter agradecido a ela por ser o testemunho mais evidente que tive da presença de Cristo. Ela, que transmitiu a mim o bem mais valioso que possuo: a crença no Deus que nos abraça e nos salva.

Sim, a Vó Dona — como todos a chamávamos carinhosamente — era a velhinha que orava por nossa família, murmurando com o rosário em mãos. Assim, fez de nossa família um espaço privilegiado do amor, mesmo com tantas fraquezas humanas minhas e dos demais membros. Desde o céu, agora, ela intercede por todos nós.

Rafael Codonho é jornalista, empreendedor e sócio-diretor da Critério – Resultado em Opinião Pública

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