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Burquina Fasso: “Os cristãos que acompanhamos não sabem se sobreviverão para além de 24 horas”

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ACN

Sanctuaire Notre-Dame de Yagma à Ouagadougou (Burkina Faso).

Fundação AIS - publicado em 03/09/23

O prior-geral dos Irmãos Missionários do Campo (FMC), Padre Pierre Rouamba, fala com a Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) sobre como é servir a população cristã no Burquina Fasso, uma das regiões mais perigosas do mundo

A vossa congregação está activa em vários países da África Ocidental. Como é que é a vida nesta região?

O contexto político é muito turbulento. O Burquina Fasso, onde se situa a nossa sede regional, sofreu recentemente dois golpes de Estado. A insegurança é grande no Mali, no Burquina Fasso, no Togo e no Benim, onde se situa a nossa província, e os Cristãos estão a sofrer. Em 2022, o Burquina Fasso foi o país com mais ataques anti-cristãos no mundo.

A evangelização nestes países é recente, não remontando a mais de 150 anos e, na maioria das regiões, a menos de 100 anos. Todos os quatro países foram duramente afectados pelo terrorismo islâmico, em particular o Mali, mas também o Burquina Fasso, onde as tensões e a perseguição estão a aumentar. Os Cristãos são afectados diariamente pelas acções terríveis da Al-Qaeda e do Estado Islâmico.

Pode falar-nos um pouco sobre como é exercer o seu ministério no meio destes perigos?

Passei a Páscoa em Kompienga, no Burquina Fasso, num ambiente muito especial, porque este lugar está isolado do resto do mundo, cortado por minas e postos de controlo, que são mantidos por terroristas. Só podemos entrar de helicóptero. Por volta do Pentecostes de 2023, os terroristas começaram a atacar a população local. Muitas pessoas foram mortas ou gravemente feridas e tiveram de ser transportadas por via aérea. Os terroristas também se apoderaram de gado e estão a fazer tudo o que podem para levar a população a converter-se ou a evacuar. Se as pessoas se recusam a converter-se ao Islão, são obrigadas a partir, mas como as estradas estão bloqueadas, são deixadas a vaguear pela floresta sem bens, e muitas morrem por falta de comida e de cuidados.

Numa paróquia pela qual somos responsáveis, um grupo de mulheres tentou furar o bloqueio, pensando que os terroristas não as atacariam. No entanto, muitas delas foram detidas e violadas. Algumas foram detidas durante muito tempo para serem usadas como escravas sexuais e só regressaram ao fim de várias semanas, grávidas. Estas são tragédias reais que não são relatadas nos media.

Que planos tem a congregação para o futuro?

O nosso próximo grande projecto é a abertura da nossa casa regional na Diocese de Ouagadougou, no Burquina Fasso. É também aí que queremos reunir e formar leigos para os podermos enviar em missão para lugares difíceis e levar pela primeira vez o Evangelho às populações rurais.

Estamos preocupados com o futuro. Como é que se pode alcançar o perdão pode ser alcançado? Porque o esquecimento é impossível. Esta é uma das razões pelas quais gostaríamos de criar unidades de apoio para oferecer apoio espiritual e psicológico. Muitas pessoas vêm ter connosco simplesmente para serem ouvidas.

Queremos olhar para o longo prazo, e em particular para o período pós-crise, para acolher e acompanhar as muitas vítimas da violência. Muitas pessoas viram os seus entes queridos serem degolados, decapitados, violados ou reduzidos à escravatura sexual. Crianças nasceram por causa dessas violações. Quando tudo isto acabar, como é que poderemos ter um discurso coerente com o Evangelho? Teremos de curar todas estas feridas, sejam elas físicas ou psicológicas. O trabalho pastoral promete ser imenso.

Há perigos também para o clero. Dois dos seus irmãos foram raptados em 2021, por exemplo…

Sim, e o que aconteceu é, atrevo-me a dizer, um milagre. Foram detidos num posto de controlo por terroristas que os levaram de olhos vendados para a floresta, maltrataram-nos, revistaram-nos, interrogaram-nos sobre a sua missão e o seu apostolado e, claro, pediram-lhes que se convertessem ao Islamismo wahabita, que tanto mal faz a um país que já foi um exemplo de harmonia inter-religiosa.

Os nossos irmãos falaram com eles num verdadeiro espírito de paz, sem raiva nem azedume. Quando os terroristas lhes pediram para rezarem com eles a oração islâmica, recusaram gentilmente, explicando que, como cristãos, rezavam com os Salmos, e que a verdadeira oração é um contacto directo com Deus, e não pode ser algo imposto do exterior. Apesar do assédio, mantiveram-se pacíficos, respondendo à violência com a caridade. Impressionados, os terroristas acabaram por conduzi-los de volta à estrada e libertaram-nos. Agradecemos a Deus por este facto, que é um sinal de que o amor pode triunfar sobre o ódio.

Como é que tudo isto afectou a fé das pessoas?

É verdadeiramente impressionante constatar que os Cristãos que, de certa forma, tinham abandonado a prática religiosa antes da crise, estão a regressar à fé numa altura em que os terroristas estão a fazer tudo o que podem para extinguir o Cristianismo. Enquanto os terroristas impedem os Cristãos de se reunirem nas igrejas, as famílias reúnem-se em casa para reavivar a chama da fé através de aulas de catequese e de celebrações conjuntas, quando não há padres.

É precisamente porque estes cristãos são perseguidos, que aprofundam a sua ligação a Cristo. O sangue dos mártires é semente de cristãos, de uma forma particular e actual aqui no Burquina Fasso. Em Kompienga, sob o fogo dos terroristas, os pedidos de baptismo multiplicam-se e as aulas de catequese prosseguem.

Os Cristãos que sofrem ódio por causa da sua fé têm duas opções. Podem procurar a salvação fora de Deus, revoltando-se contra Ele, ou podem procurá-la no coração do próprio Jesus Cristo. Os nossos cristãos têm esta graça especial de compreender e de colocar a sua vida nas mãos do seu Salvador.

Qual é o carisma da vossa comunidade?

A nossa Congregação foi fundada no auge da Segunda Guerra Mundial, em 1943, em França, para se dedicar à pastoral rural. Este é ainda hoje o cerne do nosso trabalho, particularmente na África Ocidental. Permanecemos nas zonas mais desfavorecidas económica e socialmente, partilhando a vida das populações rurais e sendo uma semente do Evangelho.

Estamos muitas vezes em contacto com muçulmanos ou pessoas que ainda não ouviram falar de Cristo. Estamos a abrir sistematicamente as portas ao Evangelho!

O nosso carisma é levar tudo ao próprio Jesus Cristo, alegrias ou tristezas, e levá-las ao Redentor em acção de graças, apesar das dificuldades, que são muitas neste momento. Queremos ser um sinal de esperança cristã no meio da desolação. Somos acompanhados por Cristo, porque Ele próprio passou pelo sofrimento que nós estamos a passar. Para os cristãos que acompanhamos, a perspectiva temporal não vai além das 24 horas seguintes. Não sabemos se sobreviveremos para além do dia seguinte. Isto obriga-nos a aprofundar a nossa relação pessoal com Ele.

Através da nossa parceria com a Fundação AIS, estamos a vivenciar uma verdadeira solidariedade, especialmente através de um recente projecto de apoio alimentar a refugiados e pessoas deslocadas que implementámos numa das paróquias que nos foram confiadas, em Pama, na Diocese de Fada N’Gourma.

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PerseguiçãoTerrorismoViolência
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