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Homem que vivenciou dois ataques ao World Trade Center se esforça para perdoar terroristas

Emergency workers attend person injured in World Trade Center attack

Maria Bastone | AFP

John Burger - publicado em 12/09/23

"Senhor, se eu sair daqui, quero viver a verdade e quero viver para o Senhor", rezava ele depois de ficar ferido no primeiro atentado, em 1993

Um homem que espiou o “poço do inferno” durante o primeiro atentado ao World Trade Center em 1993 – e depois perdeu dois parentes próximos e muitos amigos durante o segundo ataque às Torres Gêmeas em 11 de setembro – se esforça para perdoar aqueles que conspiraram e executaram os atos terroristas.

Quando Tim Lang viu as torres caírem na parte baixa de Manhattan em 2001 e perdeu a irmã e um sobrinho, ele já tinha tido o seu próprio encontro com a morte no World Trade Center, oito anos e meio antes.

 A primeira tentativa de derrubar as torres – em 26 de Fevereiro de 1993 – matou sete pessoas, incluindo uma grávida, e feriu mais de 1.000. Lang, então com 39 anos, estava passando por um momento difícil em sua vida e sua experiência de quase-morte o levou a reorientar suas prioridades.

Talvez nem mesmo Dante pudesse ter descrito o Inferno da forma como Lang o viu. Ele estava a poucos metros de distância de um caminhão-bomba que foi detonado no estacionamento da Torre Norte. Lang era um operador de Wall Street cujo escritório ficava em um prédio próximo ao Trade Center. Sempre que chegava a Manhattan, vindo de sua casa em Nova Jersey, estacionava o carro na garagem subterrânea das Torres Gêmeas. Naquela última sexta-feira de fevereiro de 1993, ele planejava trabalhar de casa, mas um sócio ligou dizendo que precisavam dele para uma reunião às 12h30.

Ele colocou no bolso uma página do calendário que continha uma frase do Livro de Gênesis: “Não tenha medo”.

Pouco depois do meio-dia, ele entrou com seu Toyota 4Runner na rampa da garagem subterrânea. O motorista de um Ford Taurus o cortou e foi para a direita depois de passar pelo portão. Lang virou à esquerda.

Quando o caminhão-bomba detonou, às 12h18, o motorista do Ford foi morto quase que instantaneamente. Lang – que havia estacionado, saído e estava pegando seu paletó no banco traseiro – foi jogado no ar e ficou inconsciente. Quando voltou a si, não conseguia enxergar nada, pois o ar estava muito denso, com fumaça e poeira. Ele achou que tinha ficado permanentemente cego. A parte de trás de sua cabeça estava molhada e pegajosa de sangue. Seus membros estavam intactos, mas ele estava tão tonto que não conseguia ficar de pé. Ele se arrastou em direção ao que achava ser a saída, mas os cacos de vidro e o concreto quebrado cortaram suas mãos e seus joelhos. A fumaça começou a queimar seus pulmões.

Coisas do inferno

De repente, ele viu uma luz fraca, o que o animou, pois percebeu que não havia ficado permanentemente cego. Eram as luzes internas de seu carro amassado.

Ele conhecia bem o layout da garagem. Ainda na escuridão total, ele se arrastou até onde sabia que havia uma sala de segurança, pensando que poderia fazer uma ligação telefônica. Ao entrar na sala, caiu sobre um cadáver.

“Pulei dali rapidamente. Rastejei em outra direção e depois até a borda do poço [a vasta cratera criada pela explosão da bomba]. Aquela coisa estava vomitando coisas do fundo do inferno. Eu me arrastei para longe daquilo rapidamente e não tinha ideia de onde estava”, compartilhou ele em uma entrevista

Completamente perdido no escuro, Lang se encolheu ao lado de um carro e rezou.

“Orei para ter coragem de morrer e orei por minha família, meus filhos”, disse ele. “Naquela época, minha vida era sombria de todas as formas que eu poderia imaginar. Eu estava passando por um divórcio amargo. Minhas prioridades na vida eram uma bagunça, ou seja, eu estava preso no mundo – o mundo das finanças, o mundo do poder – tudo isso era o mais importante”, acrescentou.

“Então, minha oração incluía: ‘Senhor, se eu sair daqui, quero viver a verdade e quero viver para o Senhor'”, continuou ele. “E quase naquele momento, fui envolvido por uma calma completa. Nunca senti essa paz em toda a minha vida. Quero dizer, minha vida estava nas mãos do Senhor, quer eu vivesse ou morresse.”

Ele estava em paz, embora estivesse cercado pelo caos. Como ele disse, “o que eu chamaria de inferno e uma celebração do mal”.

O caminho para a cura

Quando estava começando a dormir, ele ouviu um barulho alto de batida e alguém chamando: “Tem alguém aqui?” Apesar de sentir uma dor aguda no peito, ele conseguiu direcionar dois policiais para onde estava.

“Então, bem na minha frente, havia uma luz brilhando em uma bota”, lembrou Lang. “Eles tinham esses holofotes, mas os holofotes não atravessavam a escuridão. Então, esses caras estavam iluminando suas botas. Estendi minha mão sobre a bota e o homem gritou de medo. Eu simplesmente o assustei muito”.

Os dois policiais levaram Lang para fora do prédio e, por fim, ele foi encaminhado para um hospital. Nas semanas e meses seguintes, encontrou cura no aconselhamento e em uma prática mais profunda de sua fé católica.

Sobre os terroristas, que esperavam que a bomba caísse em uma torre e a derrubasse na outra, ele disse ao The New York Times: “Eu sempre soube que eles voltariam”. Quase ninguém esperava, no entanto, que eles voltariam de avião.

Perdão

Lang ainda acha difícil quando os aniversários dos ataques se aproximam – um na primavera e outro no outono do hemisfério norte. Ele ainda tem pesadelos e não consegue entrar em um estacionamento subterrâneo.

Parte de sua jornada de cura tem sido um esforço consciente para perdoar, especialmente após o ataque de 11 de setembro, que tirou a vida de sua irmã, sobrinho e um bom número de bombeiros com quem ele cresceu no Brooklyn.

“Essa é a verdadeira fonte de alegria e paz na vida de qualquer pessoa, ser capaz de perdoar qualquer injustiça, qualquer pessoa que tenha causado essa dor. Quero dizer, nada poderia ser pior do que alguém levar embora seus entes queridos”, comenta.

Não há indícios de remorso por parte daqueles que realizaram os ataques. Lang fez parte de um grupo convidado pelo governo dos EUA, em 2019, para observar os procedimentos legais na Baía de Guantánamo contra alguns dos planejadores do 11 de setembro. Quando os terroristas foram conduzidos à sala do tribunal, “eles nos olharam com total desdém”, lembrou Lang. “Alguns deles sorriam. Observei o ódio. Observei pessoas que nos matariam se tivessem a chance. Quero dizer, se você me perguntar: ‘Você consegue ver o mal nas pessoas?’, foi isso que eu vi.”

Para Lang, no entanto, o “processamento” da provação inclui “primeiro deixar de lado a raiva e o ódio e, depois, tentar avançar em direção ao perdão”.

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