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Sinceridade e direção espiritual

Direção espiritual

SeventyFour | Shutterstock

Pe. José Eduardo - publicado em 23/11/23

"Ir à direção espiritual é dispor-se para falar mal de si mesmo, para revelar-se em toda a amplidão da sua própria virulência, a fim de receber o remédio adequado"

Costumamos chamar de “direção espiritual” esse meio de formação da consciência que alinha o indivíduo com o seu fim sobrenatural, primeiramente em nível moral, mas sobretudo em nível ascético. Ora, a matéria desse direcionamento outra coisa não é senão a vida mesma do dirigido, que se expõe com total simplicidade ao médico que lhe pode ajudar a não fazer a sua própria vontade, mas a vontade de Deus.

A direção espiritual, portanto, deveria ser o momento em que nós livremente nos abrimos, expondo todos os aspectos da nossa personalidade perante o infinito, contando com a graça de estado daquele que nos orienta para sermos tratados em todos os pontos da nossa indolência, da nossa claudicação, da nossa fragilidade.

Se o ponto mais alto da maturidade humana é viver, por assim dizer, “in conspectu Dei”, na presença de Deus, é justamente nesses momentos em que nós o comprovamos para nós mesmos. Para quem quer ser santo, a sinceridade deixa de ser uma obrigação e passa a ser o tema mesmo de sua existência, com todos os seus ônus, visto que ela não é senão um aspecto daquela humildade fundamental, sem a qual jamais podemos ser verdadeiramente conscientes diante de Deus.

O homem vaidoso, insincero, que quer parecer bom aos olhos do seu diretor e, por isso, oculta-lhe, talvez com o pretexto de não o decepcionar, as suas próprias misérias, nada mais é que um extraviado que fez a opção de perder-se de modo cada vez mais irreversível. Não há nada mais patético do que um dirigido que se apresenta como quem lesse a “positio” do seu próprio processo de beatificação: tudo são qualidades, tudo são méritos, recheados de lirismo pseudo-místico, de poesia e de orgulho espiritual.

Quem quer parecer santo diante do seu diretor deve simplesmente interromper esta encenação e reconhecer humildemente o quanto é hipócrita, cínico e palhaço, pois o crescimento em santidade é tão maior quanto maior é o reconhecimento da nossa precariedade, do nosso nada. E não se trata de um reconhecimento retórico, mas da coragem de demolir a própria autoimagem e demonstrar-se como verdadeiramente se é, com todas as sutilezas da sua própria canalhice, ignorância, fraqueza e malícia.

Ir à direção espiritual é dispor-se para falar mal de si mesmo, para revelar-se em toda a amplidão da sua própria virulência, a fim de receber o remédio adequado.

Um diretor experiente sabe quando está lidando com uma pessoa ou com um personagem. Pessoas têm fraquezas, lutas, tentações; personagens têm proezas, para o bem ou para o mal: suas virtudes são façanhas de Hércules, seus pecados são as desventuras de Hazazel e os seus problemas são o tormento de Sísifo; tudo para esconder, por detrás de desproporções, a mediocridade real de sua miséria.

Não existe santidade sem humildade. Qualquer sacerdote sabe disso. E, para além da parlóquia inútil, os santos têm virtudes reais, radicais, heroicas.

Portanto, se alguém pretende autobeatificar-se, não está buscando um diretor espiritual, mas um fã. E isso é uma grande falta contra a justiça e a caridade. Se o dirigido não tem pena de sua própria alma, vitimada por sua própria mentira e fingimento, ao menos deveria ter pena de perder o próprio tempo com conversa tão inútil, bem como deveria ter misericórdia de fazer perder o tempo àquele pobre sacerdote, que tem muitas ovelhas para cuidar e que não pode se dar ao luxo de trabalhar inutilmente, deixando de rezar e de estudar para simplesmente debalde pastorar bodes.

Pe. José Eduardo de Oliveira, via Facebook

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