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Os progressistas, os conservadores… e o futuro da Igreja

Abertura do Sínodo dos Bispos 2023 no Vaticano

Antoine Mekary | ALETEIA

Santa Missa de abertura do Sínodo dos Bispos 2023 no Vaticano

Francisco Borba Ribeiro Neto - publicado em 03/12/23

O futuro da Igreja provavelmente verá um crescimento, ao menos do ponto de vista demográfico, de seu lado “conservador”. Entenda

Li recentemente, no New York Times, um texto de Ross Douthat, articulista católico daquele jornal, comentando as polêmicas entre “progressistas” e “conservadores” em torno do pontificado de Francisco. Referia-se, particularmente, à destituição do bispo Joseph Strickland, da diocese de Tyler, no Texas, uma atitude do Vaticano que desagradou aos “conservadores”; e à carta que a Santa Sé dirigiu ao Caminho Sinodal Alemão, reafirmando o magistério em relação à ordenação de mulheres e à homossexualidade, dessa vez desagradando aos “progressistas”.

Douthat vê, nesses dois gestos, uma preocupação do Papa em evitar que os extremismos de ambos os lados terminem por desgarrar parte do povo de Deus e, numa possibilidade mais radical, levar a um cisma. Não é uma discussão nova. Assim como São João Paulo II e Bento XVI eram acusados de pender mais para os conservadores, Francisco é acusado de pender mais para os progressistas. Quando se analisa as situações com cuidado, se percebe que o posicionamento dos papas – qualquer um desses três – não é sectário ou polarizado, se encontrando em suas mensagens tantos aspectos “progressistas” quanto “conservadores”.

Antes de continuar essa reflexão, é bom lembrar que tanto “progressista” quanto “conservador” são rótulos que não definem o magistério católico, nem deveriam servir para definir a posição dos católicos. A Igreja – e cada um de nós – deve ser progressista, mudando ou incentivando a mudança do que está errado, e conservadora, mantendo ou incentivando a manutenção do que está certo. Contudo, as polarizações, certas ou erradas, são um dado da realidade e não podemos fugir delas, principalmente se desejamos superá-las, buscando a verdadeira unidade em Cristo.

Quem está crescendo?

O aspecto mais interessante do artigo de Douthat é uma comparação entre a Igreja norte-americana e a alemã, as duas mais ricas e que mais contribuem financeiramente para o catolicismo mundial. A primeira tem cerca de 73 milhões de fiéis, a segunda, 21 milhões. Enquanto nos Estados Unidos existem mais de 3.000 seminaristas diocesanos, a Alemanha amarga uma gigantesca crise de vocações, com apenas 48 novos seminaristas em 2022. A título de comparação, o Brasil tem mais de 120 milhões de católicos (a maior população católica do mundo) e pouco mais de 5.000 seminaristas diocesanos.

A questão, aponta Douthat, é que os católicos norte-americanos são cada vez mais “conservadores” – e isso parece estar fortalecendo suas comunidades; enquanto, na Alemanha, existe um esforço evidente do Caminho Sinodal de mudanças “progressistas”, que copiariam práticas das igrejas protestantes. Mas, argumenta Douthat, é uma busca desesperada por uma solução que tende a só aumentar a crise.

Para completar o quadro, temos ainda os posicionamentos do Papa Francisco, frequentemente interpretados como “progressistas”…

A dinâmica das minorias

Ao longo do século XX, a Igreja Católica perdeu a hegemonia político-cultural que detinha nos países onde era majoritária. Isso não tem a ver só com uma perda de fiéis, mas – sobretudo – com a perda da capacidade de indicar seus valores como bons e desejáveis para as pessoas. Até pior, os valores defendidos pelo cristianismo frequentemente se tornaram uma espécie de “bodes expiatórios”, como se fossem os responsáveis por todas as mazelas da sociedade. Foi uma perda de capacidade de dialogar com o mundo e suas mudanças, um problema que vem de bem antes, e que só começou a ser enfrentado institucionalmente, com a devida firmeza, a partir do Concílio Vaticano II.

A questão é que os católicos, principalmente os jovens, passaram a sentir-se cada vez mais “cancelados” na sociedade …. Mas o cancelamento nem sempre tem o resultado esperado. Pode levar a uma perda da expressão social de um grupo, mas fortalece seus laços internos e suas convicções. Os cancelados precisam ser confirmados em suas práticas e em suas ideias – e nisto o discurso tido como “conservador” é muito mais eficaz. Por outro lado, um discurso vago e inseguro tende a afastar os cancelados, que preferem, nesse caso, aderir ao discurso hegemônico.

O Espírito corrige os que estão fortes

Não sei o que se passa na cabeça do Papa Francisco. Como todos os demais, procuro entender seus documentos e pronunciamentos. Indo além dessas fontes, não posso dizer o que ele pensa das polêmicas entre “progressistas” e “conservadores”. Contudo, esse quadro geral aponta para uma curiosa característica da Igreja.

Minha mãe, uma católica muito ortodoxa e fervorosa, dum tempo em que não se falava em polarizações na Igreja, me ensinava: quem nos ama, nos corrige. Nada do que é humano é perfeito e a correção, tanto a fraterna quanto aquela exercida pela autoridade eclesial, é necessária para que nos aproximemos cada vez mais de Deus. Por isso, a Igreja corrige seus filhos mais fortes e próximos a ela e se desvela em acolhimento para com os mais frágeis e mais distantes.

Num tempo que os poderosos procuram calar os católicos e censurar seus valores, em que tendemos a nos enrijecer e nos fecharmos em nossas convicções, o mais esperado deveria ser mesmo que o Espírito nos convidasse a abertura, ao perdão e ao diálogo. É o contrário do que pensa “o mundo”. Pensamos que a instituição eclesial e o próprio papa deveriam seguir as tendências ditadas pela história, para fortalecer os quadros católicos, como fariam as lideranças partidárias. Mas o Espírito quer a nossa santificação, não nossa força política. Quer conquistar os corações para Deus, não os indivíduos para os censos demográficos… Por isso, o caminho eclesial é de correção dos fortes e não de reafirmação de suas posições.

O futuro da Igreja provavelmente verá um crescimento, ao menos do ponto de vista demográfico, de seu lado “conservador” – mas, justamente por isso, esse é um tempo em que nosso conservadorismo precisa ser continuamente corrigido, para que encontremos a Deus, não para que sirvamos a esse ou aquele projeto de poder.

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