Aleteia logoAleteia logoAleteia
Segunda-feira 26 Fevereiro |
Aleteia logo
Atualidade
separateurCreated with Sketch.

Papai Noel e a gratuidade cristã

A multi-generational family Christmas caroling at neighboring house

DGLimages | Shutterstock

Francisco Borba Ribeiro Neto - publicado em 24/12/23

Papai Noel não é só a degradação consumista do espírito natalino. Ele é a confirmação que nossa cultura, por mais consumista e interesseira que seja, não consegue apagar em nosso coração o desejo de gratuidade e bondade sem limites

Existe um curioso ponto de convergência entre as “análises críticas marxistas” mais ortodoxas e as reflexões cristãs mais sinceras: a veemente condenação da mercantilização das festas, em particular a do Natal. Todos nós já ouvimos, e já falamos, como o consumismo desvirtua o verdadeiro espírito do Natal, como as pessoas esquecem-se do mais importante neste período.

As tais análises críticas marxistas costumam mostrar a mercantilização de todas as esferas da vida humana, a transformação da festa em mais uma ocasião para incentivar o consumo que só visa o lucro, para sujeitar-nos ao mercado. Os católicos (entre os quais eu mesmo) criticam a transformação de uma festa religiosa numa festa de consumo. A abjeta troca do anúncio maravilhoso de um Deus que se fez homem para sofrer conosco e por nós, por um fictício bom velhinho com ridículas roupas vermelhas e presentes materiais que nunca chegariam aos pés do sentido da vida doado pelo Deus feito homem.

Marxistas e cristãos, obviamente, irão discordar totalmente nas motivações para a crítica, mas se encontrarão na condenação a esse comportamento… Mas, como resistir aos olhos deslumbrados e às risadas felizes das crianças diante de seus presentes? Creio que marxistas e católicos estão cheios de razão. Mas sempre me pareceu faltar alguma coisa nestas críticas. Algo como um delicado sopro de verdade e a fraca luz de uma vela que pudessem refrescar e iluminar nosso caminho neste mundo, algo que nos ajudasse a nos comover com a alegria dos pequenos de modo que a obrigatória distinção entre Papai Noel e Cristo não se tornasse um exercício moralista, mas sim o natural desenvolvimento do entendimento do que são o mundo e a vida.

Defendendo Papai Noel

Com o passar dos anos, descobri o que me parecia faltar. Papai Noel não é só a degradação consumista do espírito natalino. Ele é a confirmação que nossa cultura, por mais consumista e interesseira que seja, não consegue apagar em nosso coração o desejo de gratuidade e bondade sem limites. No mundo real, só a lógica do próprio interesse, do poder e da ganância parecem mover os atos humanos. Mas, com Papai Noel, o desejo de bondade e de gratuidade retorna a nosso coração e nosso horizonte, mesmo que vindo das terras da fantasia, da irrealidade.

No fundo, sonhamos com velhos bons e sábios, cuja felicidade venha não de seus êxitos, sua fortuna ou seus poderes, mas de sua capacidade de levar alegria a todos nós. Por mais que nos digam que isso é tolice, continuamos a ansiar por encontrar pessoas boas e sermos, nós mesmos, também bons.

Sim, Papa Noel é realmente uma figura com conotações claramente consumistas. Sim, é verdade que – no imaginário de nossas crianças – ele pode tomar o lugar do Menino Jesus. Mas também é verdade que ele representa o desejo mais puro de bondade e dom de si que existe em nosso coração. O verdadeiro segredo de Papai Noel é que esse desejo pode se realizar – melhor, já se realizou na história do mundo e continua se realizando cotidianamente em nossa vida. Mas, para que isso aconteça, precisamos reconhecer nosso desejo infinito de gratuidade e de bondade, precisamos tirá-lo da fantasia imaginária do “bom velhinho” inexistente para encontrá-lo no Deus que existe.

Quando fazemos essa transição, a mercantilização e o consumismo deixam de ser as palavras mais fortes – e o Papai Noel ganha, inclusive para as crianças, o justo papel de um símbolo de algo maior, que elas algumas vezes conseguem nomear, outras vezes não, mas que com certeza encontrarão ao longo de suas vidas.

E se Papai Noel for um fdp?

Na década de 1980, uma banda de rock punk paulista, os Ratos de Porão, cantava que “Papai Noel fdp rejeita os miseráveis […] presenteia os ricos e cospe nos pobres”. A linguagem grosseira chocava muita gente, aliás, era usada exatamente com esta intenção, mas também este outro lado da moeda exige uma reflexão. O tempo de Natal também é uma daquelas ocasiões nas quais a dor pelas nossas injustiças sociais deveria ser mais evidente para todos nós, uma época de um retomado compromisso de transformação social.

Não se trata aqui de apenas participar de obras assistenciais para dar presentes e ceias aos necessitados, nesse período. Isso é bom, mas insuficiente… Também não se trata de um novo moralismo, agora de cunho político. A questão não é o que fazemos em dezembro ou qual discurso ideológico abraçamos ao longo do ano. Deus é infinitamente bom para conosco, para com cada ser humano… Mas delegou-nos a função de sermos bons para com nossos irmãos mais necessitados.

Quando não procuramos amar gratuitamente nosso irmão mais necessitado, quando ao longo da vida não nos comprometemos com o bem desse irmão (inclusive nos aspectos políticos), não conseguimos também descobrir o amor gratuito de Deus para conosco.

Não se trata de querer, nesta época, fazer o que não se fez ao longo do ano, isto pode dar a muitos que sofrem um consolo bem-vindo, mas ainda longe do compromisso evangélico ao qual somos convidados. Papai Noel parecerá um “velhinho fdp” sempre que aquela bondade que vemos nele parecer uma ilusão impossível ao longo do ano. Papai Noel será um símbolo alegre e simpático sempre que ele recordar uma bondade que, mesmo de forma imperfeita, experimentamos e praticamos no cotidiano.

Tags:
Igreja
Top 10
Ver mais
Boletim
Receba Aleteia todo dia