Não achamos as férias realmente revigorantes porque não entendemos o que é o verdadeiro descanso – nem para que ele serve. Essa foi a observação do Papa Francisco durante sua série de audiências gerais sobre os Dez Mandamentos.
Ao falar sobre o terceiro mandamento — “Guardarás o sábado (o dia do Senhor)” — o Papa comentou que esse “parece ser um mandamento fácil de cumprir, mas essa impressão está errada. Descansar de verdade não é simples, porque existe o falso descanso e o verdadeiro descanso. Como podemos reconhecê-los?”
Falso descanso
O Santo Padre falou sobre como a nossa cultura tem sede de férias, e como a “indústria da distração” está florescendo com promessas de prazer e diversão.
“O conceito dominante de vida hoje tem seu centro de gravidade não na atividade e no compromisso, mas na evasão”, afirmou. “Ganha-se para se divertir e se satisfazer. A imagem-modelo é a de uma pessoa bem-sucedida que pode se permitir espaços extensos e variados de prazer.”
No entanto, explicou o Papa, essa mentalidade não traz satisfação, mas sim o oposto. Em vez de encontrarmos descanso no prazer, experimentamos “alienação e fuga da realidade”.
“O ser humano nunca descansou tanto quanto hoje, e ainda assim nunca sentiu tanto vazio como sente atualmente”, sugeriu Francisco.
A resposta para esse paradoxo está justamente no terceiro mandamento, disse ele.
Um motivo para o descanso
“O descanso em nome do Senhor tem um motivo preciso: ‘Porque em seis dias o Senhor fez o céu e a terra, o mar e tudo o que neles há, mas no sétimo dia descansou. Por isso o Senhor abençoou o dia de sábado e o santificou. […] Deus viu tudo o que havia feito, e tudo era muito bom.’”
Assim, o dia de descanso trata da alegria de Deus por aquilo que Ele criou. É o dia da contemplação e da bênção, afirmou o Papa.
O descanso, como Deus nos ordena, é “o momento da contemplação, é o momento do louvor — não da fuga. É o tempo para olhar a realidade e dizer: como a vida é bela!”
“Em contraste com o descanso como fuga da realidade, o Decálogo apresenta o descanso como a bênção da realidade.”
Por isso, para os cristãos, o centro do dia de descanso é a Eucaristia, que significa ação de graças:
“É o dia para dizer a Deus: obrigado, Senhor, pela vida, pela Tua misericórdia, por todos os Teus dons. O domingo não é o dia de apagar os outros dias, mas de recordá-los, abençoá-los e fazer as pazes com a vida.”
“O domingo é o dia de fazer as pazes com a vida, de dizer: a vida é preciosa. Não é fácil, às vezes é dolorosa, mas é preciosa”, continuou.
O bem não se impõe
O Papa convidou todos a se afastarem do foco constante na infelicidade, de “ficar sempre ressaltando motivos para o descontentamento”.
“O bem é amoroso e nunca se impõe. Ele precisa ser escolhido”, afirmou. E a paz também “não pode ser imposta e não é encontrada por acaso”.
“Para se afastar das amarguras do coração, o ser humano precisa fazer as pazes com aquilo de que foge. É necessário reconciliar-se com a própria história, com os fatos que não se aceita, com as partes difíceis da própria existência. […] Na verdade, a paz verdadeira não significa mudar a própria história, mas aceitá-la, aproveitá-la, exatamente como ela é.”
“Quando a vida se torna bela?”, perguntou Francisco. “Quando você começa a pensar bem dela, seja qual for a sua história. Quando o dom de uma dúvida faz caminho: de que tudo é graça, e esse pensamento santo derruba o muro interior da insatisfação, inaugurando o verdadeiro descanso.”
“A vida se torna bela quando o coração se abre à Providência e descobre que o que diz o Salmo é verdadeiro: ‘Só em Deus repousa a minha alma’ (Salmo 62, 2). É linda essa frase do Salmo: Só em Deus repousa a minha alma.”









