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A santa que detém a chave para nossa resposta à IA

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Daniel R. Esparza - publicado em 09/07/25
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Delegar o trabalho da atenção emocional a um sistema não consciente pode corroer justamente a habilidade que mais precisamos preservar em um mundo fragmentado.

Para Edith Stein (1891–1942), filósofa, convertida ao catolicismo e, posteriormente, freira carmelita, a empatia não é apenas uma emoção ou um exercício mental de se colocar no lugar do outro. Em sua obra inicial Sobre o Problema da Empatia (1917), Stein apresenta a empatia como um tipo único de experiência — algo que não é nem imaginação, nem inferência. É, em suas palavras, um ato direto e intencional da consciência, no qual somos atraídos para a vida emocional do outro sem jamais perder de vista sua identidade distinta.

Stein observou que, ao empatizar, não copiamos nem absorvemos os sentimentos de outra pessoa. Em vez disso, os percebemos com imediatismo. Vemos a tristeza no rosto de um amigo e, naquele exato momento, encontramos essa emoção — não como algo que já sentimos antes, mas como algo que está presente, novo, no outro.

É uma experiência em primeira pessoa da vida interior de outra pessoa. Crucialmente, a empatia não apaga as fronteiras entre o eu e o outro. Ela nos permite permanecer nós mesmos, ao mesmo tempo em que realmente entramos, com cuidado e respeito, na experiência vivida do outro. Esse equilíbrio — de proximidade sem apropriação — faz da empatia não apenas um ato emocional, mas um ato ético.

Mais tarde, ao processarmos o que vivenciamos, integramos nossa percepção emocional à reflexão racional. Começamos a articular e compreender a natureza do que o outro está passando. Para Stein, essa fusão de afeto e intelecto forma o coração da intersubjetividade — o fundamento de uma comunidade verdadeira.

Empatia e (ou vs?) IA

Em uma era cada vez mais moldada pela inteligência artificial, os insights de Stein carregam tanto beleza quanto advertência.

Os sistemas de IA atuais podem produzir o que parecem ser respostas empáticas. Chatbots podem oferecer palavras de consolo, algoritmos podem detectar tristeza na voz ou hesitação em um texto. Essas respostas podem soar convincentemente humanas. Mas o que lhes falta, insistiria Stein, é a presença.

A linguagem emocional da IA, por mais refinada que seja, não está enraizada em um engajamento real e vivido com a experiência do outro. É imitação sem consciência.

Dito isso, a inteligência artificial ainda pode servir à empatia — mas não substituí-la. Ferramentas de IA podem sugerir formas mais gentis de expressar verdades difíceis, ajudando pessoas reais a se comunicarem com mais compaixão. Quando usada dessa forma — como assistente, não substituta — a IA pode amplificar e até aperfeiçoar nossa capacidade de atenção e cuidado.

Ainda assim, a linha entre apoio e substituição é tênue — e fácil de cruzar.

Existe um risco real de que, à medida que nos acostumamos com máquinas simulando presença emocional, percamos o hábito do engajamento empático verdadeiro. Delegar o trabalho da atenção emocional a um sistema não consciente pode corroer justamente a habilidade que mais precisamos preservar em um mundo fraturado: a capacidade de ver e responder à dor do outro não como dado, mas como presença.

A visão de empatia de Edith Stein é ao mesmo tempo exigente e libertadora. Ela nos convida não a sentir pelos outros de forma abstrata, mas a acompanhá-los (e ser acompanhados) na realidade — a encontrá-los como são, com a mente desperta e o coração atento.

A empatia, nesse sentido, nunca é meramente eficiente ou funcional. Ela é sempre um ato de amor. Em um tempo de máquinas brilhantes e respostas rápidas, seu pensamento nos lembra que nada pode substituir a profundidade de um verdadeiro encontro humano.

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