Adélia Prado tem 89 anos e quase 50 de carreira literária. Foi educadora, cuidou de sua família, e aos 40 anos publicou seu primeiro livro e teve Carlos Drumond de Andrade como admirador.
Seu primeiro livro, intitulado Bagagem, foi lançado em 1976 e traz 66 poemas, inspirados em salmos, na figura veterotestamentária da Sarça ardente e também no Cântico das Criaturas de São Francisco de Assis. Vamos conhecer alguns trechos.
Orfandade
Nesses versos Adélia recorda a infância e pede a Deus para ter cinco anos. Um pedido incomum, pois, em geral aceitamos crescer e evoluir, mas ela deseja voltar ao clima de natal da infância, às brincadeiras que nomeia e pede a Deus “uma noite para dormir com minha mãe”.
“Me dá minha mãe, alegria sã e medo remediável,
me dá a mão, me cura de ser grande,
ó meu Deus, meu pai,
meu pai.”
Com estas palavras Adélia põe em relação a paternidade de Deus e a boa recordação da mãe. Ela invoca a alegria saudável da mãe como um equilíbrio necessário para a vida e a capacidade de superar ou remediar o medo.
A poetisa pede a Deus a cura de ser grande. Em geral as pessoas pedem a cura dos traumas da infância, mas Adélia vê nesse crescimento uma ruptura traumática. Essa cura que pede está em consonância com o que Jesus diz nos Evangelhos sobre ser o menor no Reino de Deus, ser como crianças, acolher os pequenos, nascer de novo, e Jesus mesmo agradeceu ao Pai por ter revelação o mistério do Reino aos pequeninos (Mt 11,25).
Páscoa
Neste poema Adélia Prado fala sobre a velhice e o fim da vida. De maneira clara coloca os elementos que retratam o cotidiano da pessoa idosa. Fala sobre a saudade de olhar o passado, sobre a realidade de olhar para si e o sentimento de tristeza que traz o chovo com estas palavras:
“Divido o dia em três partes:
a primeira pra olhar retratos,
a segunda pra olhar espelhos,
a última e maior delas, pra chorar”.
Adélia pede a Deus que a ajude na passagem para os dias que ela aspira em que a maternidade é coroada e que é reconhecida como boa avó.
Fé
Dentro do primeiro livro de Adélia Prado está o poema Fé que conta um pouco sobre a visão cristã da vida e da morte. Primeiramente fala da realidade da morte como algo que se pode ver pela janela. Depois fala sobre saborear a vida por meio da figura do homem que come uma banana e acha gostoso.
Diante dessa carne que sente prazer em se alimentar a autora questiona sobre como deve ser a ressurreição da carne. Ela tem a resposta pronta, porque a fé é ter a esperança certa. Segundo ela: “tudo é como aqui, mas sem as ruindades”. Depois ela exclama:
“Que mistério profundo!, ele falou
e falou mais, graças a Deus,
pousando o prato”.
Um homem que transmite o ensinamento, que saboreia a vida, que fala e fala mais, que é uma bênção divina pela qual ela agradece e o prato da alimentação, gesto tão sagrado marca estes versos.









