Em um quarto de hospital em Ashdod, Israel, Suhail Abo Dawood, de 22 anos, sorri apesar da dor. Poucos dias atrás, ele foi atingido em um ataque israelense que acertou a paróquia da Sagrada Família em Gaza, onde ele e outros cristãos haviam buscado refúgio. Agora, recuperando-se de várias cirurgias após estilhaços atravessarem seu corpo, Suhail se agarra não à amargura, mas a algo mais radical: o amor.
“A paz vai voltar a Gaza”, disse ele ao L’Osservatore Romano, o jornal semi-oficial da Santa Sé, onde ele ocasionalmente contribui. “Porque o amor é mais forte que a guerra.”
As palavras de Suhail não são um otimismo ingênuo. Elas foram forjadas no sofrimento. Na manhã de quinta-feira, quando mísseis atingiram o complexo da única paróquia católica de Gaza, Suhail estava dentro. É um lugar que ele considera seu lar — onde a fé, a família e a comunidade o ajudam a entender um mundo que desmorona ao seu redor.
A violência destruiu esse frágil santuário. Mas, em meio aos escombros, Suhail sobreviveu. Ele foi retirado da Faixa de Gaza naquela mesma noite e levado a um hospital em Ashdod, em uma transferência rara, possível graças à intervenção de líderes católicos de ambos os lados da fronteira, segundo informou o Vatican News.
O padre Gabriel Romanelli, pároco da Sagrada Família, esteve em contato com a mãe de Suhail, Randa. “Rezamos para que ele sobrevivesse”, disse ela. “E ele sobreviveu. Deus o devolveu para nós”, relatou o Vatican News.
Embora ainda estivesse fraco, Suhail fez questão de receber o repórter do Vaticano que o visitou. “Sempre dissemos que nos encontraríamos em Roma ou em Gaza quando a paz chegasse”, brincou. “Nunca imaginei que seria aqui, em um quarto de hospital.”
Suhail é estudante de literatura, escritor talentoso e uma voz católica respeitada na Terra Santa. Seu artigo mais recente para o L’Osservatore Romano, escrito poucos dias antes do ataque, é sobre avós. Ele reflete sobre a vida dentro do complexo da paróquia — onde várias famílias vivem em comunidade há mais de 330 dias desde o início da guerra.
“Compartilhamos quase tudo”, escreveu ele, “inclusive a comida que a Igreja nos dá.” Ele destacou, em especial, o vínculo entre as crianças e os idosos.
“Três semanas atrás, uma avó chamada Magy morreu de uma doença repentina”, relatou. “Ela foi forte durante 10 meses de guerra. Sua morte nos surpreendeu e nos entristeceu.” Ele a recorda como uma mulher honesta, leal e profundamente devota — que nunca faltava à Missa e sempre segurava o terço nas mãos.
“Aqui vemos frequentemente crianças e idosos rezando juntos, brincando, sorrindo. Essas relações entre gerações continuam fortes — aqui em nossa paróquia e em todo o Oriente Médio.”
Esse senso de comunhão, mesmo em meio à crise, é o que anima a escrita de Suhail.









