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Duas canções que dialogam sobre falar com Deus 

ROBERTO CARLOS
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Paulo Teixeira - publicado em 27/08/25
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Saiba a história e o que está por trás dessas duas músicas

Gilberto Gil compôs em 1979 a música Se eu quiser falar com Deus. A composição esmerada foi oferecida à voz de Roberto Carlos, que preferiu não gravar por não estar totalmente de acordo com todos os versos da música; Depois foi direcionada para o último disco de Elis Regina, mas acabou sendo preterida antes do lançamento e veio a público com a voz do compositor em 1981.  

No ano passado Gilberto Gil gravou uma nova versão em voz e violão que chamou muita a atenção pela profundidade da letra e o tom intimista da canção. 

Gilberto Gil tem uma visão de fé a partir de suas raízes culturais baianas que englobam também elementos de religiões e tradições não cristãs; já Roberto Carlos é um católico fiel e dogmático. Mais de 20 anos depois de ter recusado a canção de Gil, ele gravou Quando eu quero falar com Deus, expondo sua visão religiosa. 

Se eu quiser falar com Deus, pela música

A canção de Gilberto Gil fala da oração em termos humanos e dramáticos. A comunicação com Deus é um percurso exigente que requer o abandono de si e o encontro com a dor. A relação entre o divino e o ser humano é marcada por duras palavras e sentimentos profundos.  

Pode parecer estranho, mas o caminho de místicos como Santa Teresa d’ Ávila e São João da Cruz também são marcados por esse universo emocional de dureza. Isso é reflexo da mística de Jesus nos Evangelhos. Por exemplo, no evangelho de Mateus Jesus foi levado para o deserto para ser tentado pelo diabo; na Carta de São Paulo aos Filipenses se fala do esvaziamento de Jesus que assumiu a condição semelhante à de um escravo. As palavras de esvaziamento, submissão e até mesmo de tristeza da canção refletem essa condição que faz parte do caminho da mística cristã.  

Muitos consideram essa canção como uma composição que desfaz da religião, sobretudo pelo final em que repete a palavra nada. De fato, o último verso diz: “Tenho que dizer adeus, dar as costas, caminhar decidido, pela estrada que ao findar vai dar em nada (repetido 9 vezes) do que eu pensava encontrar”. Certamente Gilberto Gil não compôs uma música para os fiéis católicos e nem retratou o caminho dos místicos nela, mas esse nada não é o vazio. O fato é que o caminho da oração não desemboca no que a pessoa pensa encontrar, esse caminho conduz a Deus que não é o que a gente pensa, é muito mais. Deus é totalmente outro, é o transcendente, ele é aquele que está mais além e dentro de nós mesmos.  

A canção Quando eu quero falar com Deus

Roberto Carlos gravou em 1995 Quando eu quero falar com Deus, respondendo à canção de Gil. Na visão de Roberto a oração também é marcada por sentimentos profundamente humanos como alívio, desabafo e choro. Também expressa a simplicidade da relação com Deus dizendo que “apenas falo... às vezes me calo”.  

Roberto usa a figura da “folha que cai e é levada pelo vento” e conta com a atenção de Deus. Afirma a presença de Deus em toda parte e “dentro de nós”. 

Em contraposição ao nada de Gilberto Gil, a música de Roberto Carlos fala de uma presença marcada pela paz e alegria. A experiência mística da canção de Roberto está ligada à iluminação e fala de um caminho “que a Ele conduz”.  

Nos Evangelhos temos também Jesus que expressa sua oração com palavras de alergia e gratidão que o Evangelista Lucas emoldura com a expressão “Jesus exultou no espírito”. Os mestres da vida espiritual também indicam a paz como sinal da presença de Deus e alguns santos viveram como um dom a alegria, como São Felipe Neri e Santa Juliana de Norwich.  

As principais diferenças entre as duas composições se dão pelo fato de que na de Gil “tenho que calar a voz”, na de Roberto “falo... às vezes calo”; “Tenho que encontrar a paz”, na de Gil e na de Roberto a paz é presente e abundante repetida diversas vezes nos versos “quanta paz, quanta luz”; na primeira se fala em “parecer tristonho”, já na segunda “ilumina o meu rosto e me alegra em minha oração”. 

São duas visões diferentes. Um fato é que a oração é um gesto tão nobre e profundo de encontro da pessoa com Deus que ambas canções não podem conter na totalidade e expressam sentimentos religiosos, como em espelhos opacos.  

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