Quais serão as grandes orientações que Leão XIV dará ao seu pontificado? Eleito em 8 de maio de 2025, o novo Papa vê, desde sua eleição, seus gestos e palavras examinados e analisados na tentativa de desvendar as linhas mestras que deseja imprimir à Igreja. Descobre-se um pouco mais no livro-entrevista publicado nesta quinta-feira, 18 de setembro, no Peru: Leão XIV, cidadão do mundo, missionário do século XXI, do qual vários trechos foram divulgados. A obra é fruto de três horas de entrevista durante o verão com a jornalista americana Elise Ann Allen, correspondente em Roma do site católico Crux, e o Papa natural de Chicago.
O que se aprende nos trechos já tornados públicos? Leão XIV traça um panorama dos muitos desafios que a Igreja Católica enfrenta, atravessada por correntes divergentes, quatro meses após sua eleição. Suas palavras soam como uma forma de tranquilizar os católicos apegados ao ensinamento da Igreja, por vezes abalados pelo método de seu predecessor, Francisco.
Ordenação de mulheres diáconas
Quanto à possibilidade de ordenar mulheres diáconas, tema debatido por uma assembleia internacional em 2023 e 2024, ele confidencia não ter “intenção de modificar o ensinamento da Igreja sobre o assunto” a curto prazo. Precisa, contudo, que deseja “prosseguir no caminho” de seu predecessor argentino ao “nomear mulheres para cargos de direção em diferentes níveis da vida da Igreja”.
Respondendo à questão “muito sensível” e “polarizadora” da acolhida dos fiéis LGBT+ na Igreja, Leão XIV afirma alinhar-se com a proposta de acolher “todos, todos, todos”, defendida por seu predecessor, mas rejeita qualquer mudança doutrinal, como o reconhecimento do matrimônio homossexual. “Acredito que o ensinamento da Igreja permanecerá tal qual”, declara. “Todos são convidados, mas não convido uma pessoa por causa de sua identidade particular”, ressalta o Papa, explicando que não deseja “incentivar a polarização dentro da Igreja”. Vale lembrar que Francisco multiplicou gestos de abertura em relação às pessoas divorciadas recasadas e aos fiéis LGBT+. No início de setembro, Leão XIV recebeu em audiência privada o padre americano James Martin, um dos principais defensores dos fiéis homossexuais na Igreja Católica. Ainda em setembro, cerca de 1.400 católicos LGBT+ realizaram uma peregrinação no contexto do Jubileu.
Apoio à “família tradicional”
Fiel ao ensinamento do Catecismo da Igreja Católica, o Papa renova também seu apoio à “família tradicional” – “o pai, a mãe e os filhos” – cujo “papel, que às vezes sofreu nas últimas décadas, deve ser novamente reconhecido e reforçado”.
Questionado sobre o combate aos abusos sexuais cometidos por clérigos, Leão XIV afirma que a Igreja deve continuar a acompanhar as vítimas com “uma compaixão autêntica e profunda”. Mas a questão dos abusos e das violências sexuais “não pode se tornar o centro da atenção da Igreja”, insiste o nativo de Chicago durante essa entrevista de quase três horas realizada em inglês, em dois momentos, em julho. Diante dos “casos comprovados de falsas acusações” – ele cita a cifra de 10% de acusações falsas –, é preciso “proteger os padres, ou o acusado, e respeitar seus direitos”, afirma à autora. O bispo de Roma recorda que “a Igreja tem também a missão de anunciar o Evangelho” e que não pode se concentrar “exclusivamente” nos abusos.
A questão sensível da missa tridentina
Leão XIV aborda ainda outra questão “sensível”, confidenciando ter recebido “um certo número de pedidos e cartas” a respeito da missa tridentina – celebração em latim segundo o missal de 1962, anterior à reforma litúrgica do Concílio Vaticano II. Em 2021, o Papa Francisco restringiu drasticamente a possibilidade de celebrar essa liturgia por meio do motu proprio Traditionis Custodes. Essa decisão havia suscitado forte oposição e continua gerando tensões hoje na Igreja Católica.
“É manifestamente muito complicado”, declara Leão XIV. Ele admite que os “abusos” em torno da nova liturgia instituída após o Concílio – a chamada “missa de Paulo VI” – podem ter afastado “pessoas que buscavam uma experiência mais profunda de oração, de contato com o mistério da fé”. Ele também diagnostica que esse tema às vezes se tornou “uma ferramenta política”, um “pretexto para fazer avançar outras questões”. Esse era um dos argumentos de Francisco, que via no recuso do novo rito uma recusa da teologia do Concílio Vaticano II.
Lamenta ainda a recusa de diálogo de alguns sobre esse tema, enxergando aí uma “ideologia”. Assegurando que essa questão está em sua agenda, anuncia que terá “em breve” a oportunidade de dialogar com um grupo de pessoas que defendem o rito tridentino – sem dar mais detalhes sobre sua identidade ou a data de tal encontro. Durante o verão, o Papa recebeu o cardeal Raymond Leo Burke, figura central na luta pela preservação da liturgia tridentina.
Preocupações econômicas
No plano econômico, o ex-missionário manifesta preocupação com o aumento da desigualdade entre os níveis de renda e lamenta ver o bilionário americano Elon Musk prestes a se tornar o primeiro no mundo a possuir 1 trilhão de dólares. “Se isso for a única coisa que tem valor agora, estamos em grande dificuldade”, deplora.









