Qualquer atividade profissional, incluindo uma em um espaço aberto ou em uma linha de produção, pode exigir uma "beleza de gesto" ou uma medida refinada na execução das tarefas que possa despertar admiração, para o benefício de todos
A beleza salvará o mundo são as palavras que se tornaram famosas e que Dostoiévski coloca na boca do Príncipe Myshkin. Não está claro se devemos interpretá-lo como uma profecia ou como a provocação de um homem "ingênuo" e puro (o Idiota). O fato é que a beleza raramente é discutida no mundo do trabalho. Em um artigo recente de Ecos com o título explícito: “Fazer ‘bom trabalho’: uma exigência profissional esquecida”, Jean-Philippe Bouilloud, professor da ESCP, pretende desafiar essa relutância. Em seu livro Para poder fazer um bom trabalho, ele lembra que A Antiguidade e a Idade Média não conheciam a diferença entre arte e artesanato: essa diferença só apareceu durante o Renascimento.
O princípio do trabalho
Mais tarde, ao privilegiar produtos idênticos fabricados em massa em vez do objeto único que emergia das mãos do artesão, a Revolução Industrial marginalizou a preocupação com a beleza em favor da eficiência. Hoje, Jean-Philippe Bouilloud fala de umasofrimento estéticoentre os funcionários: eles não têm tempo para concluir adequadamente o que fazem, porque os prazos prevalecem, suas produções são despersonalizadas em favor de padrões restritivos, a racionalização devora a elegância... Como podemos renovar o caminho para a beleza no trabalho?
O trabalho é antes de tudo um gesto: o de cuidar para uma enfermeira, o de fabricar para um carpinteiro, o de falar bem para um vendedor... Cada um deles realiza um gesto que lhe é único e não se limita a aplicar uma técnica. O seu gesto é a expressão do seu corpo, pode ser suave ou abrupto, habilidoso ou incerto, elegante ou desagradável, fluido ou laborioso. Alguns gestos são uma verdadeira coreografia, como o do pescador quando lança a sua rede ou o do oleiro que modela habilmente o seu barro: é belo e muito difícil. Em inglês, a palavra "performance" designa um espetáculo: desde que bem executado, qualquer gesto desperta admiração. Nos escritórios, estes movimentos corporais fundamentais são amplamente evacuados, mas não completamente. Primeiro, a ergonomia dos espaços de trabalho e o design dos objetos solicitam os corpos de quem os utiliza. Não esqueçamos, portanto, que toda atividade procede de um gesto, pelo menos mental, como no caso do gestor empresarial que pondera os prós e os contras antes de tomar uma decisão, ou do contador que organiza receitas e despesas de acordo com um método rigoroso. De fato, todo esforço mental é, antes de tudo, um gesto do cérebro, que na maioria das vezes se traduz em atitudes, posturas e movimentos corporais que nunca são totalmente alheios à estética.
A obra-prima
Além de uma produção simplesmente correta, um objeto perfeitamente bem-sucedido expressa uma alma extra. É bem sabido que, para se tornar mestres,os companheiros do Dever devem realizar uma obra de arte,quintessência do seu conhecimento/saber-fazer, ao qual a dimensão estética está intimamente ligada: para eles, a qualidade integra a beleza. A palavra qualidade era inicialmente um termo filosófico e estético que designava cuidado, beleza, excelência, "trabalho bonito", antes de se tornar um conceito industrial e gerencial. Iniciado em grande parte pelo movimento Bauhaus, o design está na encruzilhada entre a indústria e as artes aplicadas: trata-se de unir funcionalidade e estética em um esforço para democratizar a beleza. Além disso, muitos setores hoje integram a dimensão estética por meio do design, da experiência do usuário, do artesanato de luxo, da gastronomia, da alta tecnologia...
Beleza e ética
Jean-Philippe Bouilloud observa, com razão, que a beleza não é apenas estética, mas também ética: a beleza agrega valor a um objeto, sua precisão é um equilíbrio entre "nem demais nem de menos", entre a falta de acabamento e o excesso decorativo, uma justa medida feita de funcionalidade e simplicidade. Ora, é precisamente isso que define a virtude da casa de Aristóteles: uma medida justa. Os gregos viam no ato heroico virtuoso (coragem diante da morte) um ato tão bom e equilibrado que se torna belo. Aqui, ocorre o oposto: a beleza da obra revela a dignidade de seu autor, confere-lhe legitimidade, confirma-o em sua responsabilidade.
A grandeza do coletivo
A beleza no ambiente de trabalho não é um luxo; é até mesmo uma necessidade vital. Um belo projeto, um belo desafio, um belo evento, um belo sucesso são todos eventos fundadores para uma comunidade profissional que rejeita a mediocridade e a insignificância. Porque a beleza eleva a alma, serve a algo maior do que nós mesmos, toca na gratuidade, isto é, no melhor que o homem pode dar. Ao contrário do que muitas vezes se acredita, não é puramente subjetiva; ela gera reconhecimento coletivo. Ela cria um orgulho de pertencimento ao disseminar aquele sentimento raro: a admiração.









