Embora as respostas “não sejam ruins”, o irmão Tanguy Marie Pouliquen, sacerdote da Comunidade das Beatitudes e professor de ética no Instituto Católico de Toulouse, alerta para um modelo de negócio pouco disfarçado e para uma IA que “imita uma postura de acolhimento”, mas permanece uma relação desencarnada, sem nada em comum com o verdadeiro acompanhamento espiritual.
Um “padre” artificial chamado Paul
Ele se chama Paul, é um padre criado por inteligência artificial e, segundo o site da empresa Yiaho — editada pela French Media Corp, sediada em Bastia —, “reproduz a orientação e o ensinamento que se poderia esperar de um padre real”.
O objetivo declarado seria oferecer aos fiéis católicos “acesso inédito a conselhos espirituais e apoio religioso, em qualquer hora e lugar”.
A plataforma, no entanto, está longe de ter vocação espiritual: com 17 milhões de visitantes únicos desde sua criação em 2021, o site reúne chatbots que se apresentam como “jardineiro”, “cozinheiro”, “coach de vida”, “psicólogo”, “advogado”, “notário”, “vidente”, “imã”, “rabino” e “padre”. A proposta é responder a qualquer tipo de pergunta, em qualquer área.
Não é a primeira vez que um “padre IA” aparece. Em abril de 2024, a ONG americana Catholic Answers, ligada à Diocese de San Diego, lançou o “Father Justin”, um chatbot que simulava uma conversa com um sacerdote. A experiência durou poucos dias: após muitas reclamações por respostas inadequadas e tentativas de “ouvir confissões”, o “Padre Justin” foi rebaixado a “teólogo leigo”.
Respostas “corretas”, mas limitadas
O padre digital da Yiaho convida o usuário a desabafar e promete oferecer “conselhos espirituais e apoio religioso”.
O irmão Tanguy Marie Pouliquen testou o chatbot:
“Entrei no jogo, fiz perguntas, simulei ser uma pessoa perdida, disse que não estava bem e perguntei o que poderia fazer concretamente”, contou.
“As respostas não são ruins. São corretas, até um pouco profundas, e se baseiam muito no Antigo e no Novo Testamento.”
Mas há um limite evidente: “A IA nunca faz perguntas ao interlocutor, então não há diálogo verdadeiro — e ela também não está atualizada.”
Por exemplo, para o chatbot, o papa Leão XIV não existe.

Um modelo de negócio disfarçado
O acesso aos chatbots é gratuito, mas logo o usuário percebe como a plataforma se financia.
Após algumas mensagens, uma janela pop-up oferece tirar cartas de tarô. Para continuar, o usuário deve fornecer e-mail e dados de pagamento.
“O ambiente do site é problemático”, observa o sacerdote. “Há ofertas de assinaturas de vídeos nada cristãs, jogos, adivinhação…”
O perigo, diz ele, é que pessoas fragilizadas e vulneráveis possam ser facilmente enganadas.
“Se alguém realmente perdido buscar ajuda, respostas automáticas, sem relação com o que vive de fato, não ajudarão em seu discernimento”, adverte o padre.
A diferença entre IA e acompanhamento espiritual
Conversar com um padre de IA não tem nada a ver com um verdadeiro acompanhamento espiritual.
“O acompanhamento espiritual acolhe a pessoa inteira — com suas emoções, estados de alma, dúvidas e alegrias”, recorda o irmão Pouliquen.
“Como uma IA, sem emoções, poderia acolher alguém de verdade?”
Um chatbot não distingue entre ouvir e escutar.
“Ouvir não é escutar. Escutar é acolher o outro de forma profunda e incondicional, com empatia e compaixão.”
A verdadeira escuta exige presença, olhar, afeto e pathos — elementos impossíveis para uma máquina.
“Não há como sentir-se realmente acolhido por uma IA”, insiste o religioso.
“Ela não acompanha o caminho da pessoa, não a ajuda a discernir o seu bem, nem a crescer interiormente ou a entrar em relações mais amplas.”
Mesmo que a IA imite uma postura de acolhimento, faltam-lhe os elementos essenciais para que alguém se sinta realmente ouvido e acolhido espiritualmente.
Um chamado à vigilância
Para o padre — o verdadeiro —, o maior perigo é instaurar uma relação desencarnada:
“E tudo o que é desencarnado, desencarna. O ser humano foi feito para relações vivas e vivificantes!”
Ele alerta para a responsabilidade do usuário diante da tela:
“Somos responsáveis pela nossa atitude diante do ecrã, porque a tela sempre cria uma barreira. Às vezes acreditamos no seu poder e esperamos que ela responda a tudo, até a questões espirituais. Essa crença pode gerar dependência, desânimo e alienação.”
O religioso cita o teólogo Paolo Benanti, especialista em ética das tecnologias, ao falar do risco de uma “humanidade diminuída e de uma mecanicidade crescente”.








