Há amores que nascem de um relâmpago e morrem em um suspiro, e outros que, sem alarde nem fogos de artifício, criam raízes profundas na terra do cotidiano.
O matrimônio pertence a este segundo tipo: não é um jardim que cresce sozinho, mas uma semeadura constante que exige mãos, paciência e fé.
Em tempos em que tudo é facilmente descartado, amar até o fim parece quase uma raridade.
Mas o Padre John R. Searle, sábio professor da Pontifícia Universidade Gregoriana, nos convida a olhar o amor sob uma nova luz.
Ele nos lembra que o amor autêntico não é um sentimento passageiro, mas uma decisão perseverante, que só pode respirar onde há confiança.
Um ato de amor

O Pe. Searle ensina que o amor conjugal é mais um ato do que uma emoção. Ele não se sustenta nas borboletas do enamoramento, mas no “sim” renovado a cada manhã: na ternura que retorna após uma discussão, no perdão que cicatriza uma ferida, no gesto silencioso de quem serve sem esperar aplausos. Esse amor, quando se encarna, deixa de ser promessa e se torna presença. Mas, para respirar, precisa de um ar essencial: a confiança mútua.
A confiança no matrimônio
Confiar não é ingenuidade; é acreditar que o outro, mesmo com seus defeitos, deseja o meu bem, que seu amor é lar e abrigo, não campo de batalha. É saber que existe um porto onde posso descansar sem medo de ser traído.
Essa confiança não nasce do nada; cultiva-se como se cultiva uma videira: com tempo, cuidado e delicadeza. E floresce cercada por outros pilares que a nutrem: a admiração, o respeito, o afeto e a ajuda mútua. O amor não vive sozinho.
Alimenta-se de um conjunto de forças invisíveis que sustentam seu equilíbrio interior. Confiar é olhar o outro além dos seus erros, é admirar seu esforço, sua luta diária contra as próprias sombras, sua capacidade de recomeçar. Quando admiramos, fortalecemos a confiança. E quando confiamos, renasce a admiração. É um círculo virtuoso que mantém viva a chama do amor.
Respeito mútuo
Respeitar é reconhecer o espaço sagrado do outro: seu ritmo, suas opiniões, sua história. É não invadir, não impor, não controlar. O respeito protege a confiança como uma muralha invisível — quem respeita, cuida. Os afetos e o carinho são a linguagem silenciosa do amor: uma mão que busca a outra, um olhar que consola, um abraço que não julga.
Cada gesto de ternura é uma palavra que diz:
“Você pode confiar em mim. Eu continuo aqui.”
As rachaduras do amor não aparecem de repente

Tudo começa com um pequeno descuido, um gesto de desconfiança, um segredo desnecessário, uma palavra que fere.
Com ciúmes insistentes. A suspeita, como uma térmita invisível, começa a corroer os alicerces. E, sem perceber, o que antes era casa torna-se campo minado. O Pe. Searle adverte:
“A desconfiança paralisa a entrega: o medo substitui a confiança, e o amor, privado de oxigênio, asfixia-se lentamente.”
Quando a confiança se quebra, a alma do matrimônio treme. O vínculo fica em risco. Mas nem tudo está perdido.
A confiança pode ressuscitar
Requer humildade para pedir perdão, coragem para perdoar e constância para voltar a acreditar. Ela não se reconstrói com palavras, mas com atos: promessas cumpridas, olhares sinceros, fidelidades pequenas.
Cada gesto de verdade coloca um novo tijolo no alicerce. E pouco a pouco, a casa volta a ter teto e calor. O matrimônio que aprende a refazer sua confiança torna-se mais sábio. Compreende que amar não é viver sem feridas, mas escolher continuar amando apesar delas. E entende que a confiança não é um contrato — é uma forma de fé.









