separateurCreated with Sketch.

[LIVE] Leão XIV na Turquia: uma primeira grande prova no mundo ortodoxo

whatsappfacebooktwitter-xemailnative
Hugues Lefèvre - publicado em 27/11/25
whatsappfacebooktwitter-xemailnative
O Papa Leão XIV na Turquia para comemorar o Concílio de Niceia juntamente com outros líderes cristãos. Para ele, será uma primeira grande prova no campo do ecumenismo.

Na próxima sexta-feira, o Papa Leão XIV estará diante do lago Iznik, a 150 quilômetros ao sudeste de Istambul. Junto com cerca de vinte líderes cristãos — a lista dos participantes ainda não foi divulgada —, ele recitará o Credo, a primeira confissão cristã, elaborada provavelmente ali mesmo há 1.700 anos, durante o Concílio de Niceia.

Naquela época, o imperador Constantino reuniu 318 bispos para resolver disputas que ameaçavam a unidade da Igreja e, portanto, do Império. Dezessete séculos depois, o mundo cristão, que reúne mais de 2,3 bilhões de fiéis — quase um terço da humanidade —, reúne-se para recordar esse primeiro concílio ecumênico decisivo.

O Papa Francisco havia manifestado o desejo de participar, mas será seu sucessor, Leão XIV, quem aceitará o convite do patriarca ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu.

Eleito chefe da Igreja Católica em 8 de maio passado, Robert Francis Prevost não traz em seu histórico uma grande experiência em ecumenismo. No entanto, uma carta publicada no domingo por ocasião de sua viagem à Turquia mostra sua intenção de fazer de Niceia “a base e o critério de referência” para avançar rumo à unidade dos cristãos. Ele não pretende retornar ao período anterior às divisões cristãs, nem cristalizá-las. Mas defende um “ecumenismo orientado para o futuro, de reconciliação no caminho do diálogo, da troca de nossos dons e de nossos patrimônios espirituais”.

Embora a oração diante do lago Iznik manifeste a unidade entre os cristãos, ela será marcada pela ausência de algumas Igrejas, a começar pelo Patriarcado de Moscou. Segundo nossas informações, o Patriarcado Ecumênico de Constantinopla decidiu, em nome do mundo ortodoxo, convidar apenas as Igrejas da pentarquia. Esse nome designa a organização eclesiástica dos primeiros séculos, com o Patriarcado de Roma no Ocidente e os Patriarcados de Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Jerusalém no Oriente.

Assim, Moscou não estaria na lista de convidados, enquanto outras Igrejas mais recentes — e não ortodoxas — foram convidadas, como as Igrejas surgidas da Reforma. “O Patriarcado de Moscou rompeu a comunhão com o Patriarcado Ecumênico e com o de Alexandria. Essa situação faz com que Moscou se recuse a participar de iniciativas impulsionadas pelo Patriarcado Ecumênico”, explica o arcebispo Job Getcha, metropolita de Pisídia, sediado em Antália.

Diante dessa situação, Roma mantém distância. No Vaticano, destaca-se que o evento ocorre no território canônico da Igreja de Constantinopla e que é lógico que o Patriarcado Ecumênico se encarregue dos convites relacionados ao mundo ortodoxo.

Mas poderia a participação de Leão XIV nessa comemoração enfraquecer ainda mais a relação entre Roma e Moscou? Essa relação havia experimentado uma reaproximação espetacular em fevereiro de 2016, quando, quase mil anos após o Grande Cisma de 1054, um chefe da Igreja Católica encontrou-se pela primeira vez com um patriarca ortodoxo de Moscou, em Cuba. Mas esse avanço promovido pelo Papa Francisco sofreu um súbito esfriamento com a invasão da Ucrânia pelas tropas russas, em fevereiro de 2022, ação abençoada pelo patriarca Cirilo.

“O patriarca não pode se tornar o coroinha de Putin”, advertiu o Papa Francisco. Por sua vez, o cardeal Koch, prefeito do Dicastério para a Unidade dos Cristãos, qualificou de “heresia” as justificativas “pseudorreligiosas” da guerra apresentadas pelo patriarca. Palavras que suscitaram a ira de Moscou.

No entanto, as relações entre Roma e Moscou não estão totalmente paralisadas. Em 14 de setembro passado, o metropolita Antônio, número dois do Patriarcado de Moscou, participou de uma celebração ecumênica dedicada à memória dos mártires cristãos na basílica de São Paulo Extramuros. Assim, considera-se em Roma que as comemorações de Niceia não terão impacto significativo nas relações com Moscou.


“Leão XIV possui uma clareza teológica que agrada muito aos ortodoxos”


Esta foto, tirada e divulgada em 19 de maio de 2025 pela Vatican Media, mostra o Papa Leão XIV cumprimentando Bartolomeu I, patriarca ecumênico de Constantinopla, durante um encontro com uma delegação ecumênica e inter-religiosa no Vaticano.

Além disso, o Papa Leão XIV poderia também desejar tranquilizar as Igrejas orientais quanto à sua vontade de prosseguir o diálogo teológico. Para alguns observadores, o Papa Francisco havia demonstrado, por vezes, ceticismo quanto à utilidade desse diálogo, já que o argentino se sentia especialmente ligado aos encontros e celebrações fraternas.

O final do pontificado do Papa Francisco também foi marcado pela agitação provocada na ortodoxia pela publicação da declaração Fiducia supplicans, que autoriza certas bênçãos para casais do mesmo sexo. Em março de 2024, a Igreja Copta Ortodoxa anunciou a suspensão de seu diálogo teológico com Roma. Segundo nossas informações, esse diálogo pode ser retomado no início de 2026. Para o arcebispo ortodoxo Job Getcha, não há ruptura entre Leão XIV e Francisco. “Mas, quanto ao estilo, o novo papa tem formação em direito canônico. Todas as suas declarações, homilias e mensagens são ponderadas e inequívocas. Ele tem uma clareza teológica que agrada muito aos ortodoxos”, afirma.

A reunião de Niceia será, portanto, a primeira grande prova ecumênica do Papa Leão XIV, uma oportunidade de revelar sua personalidade e seu método. No dia seguinte à comemoração diante do lago Iznik, o novo papa se reunirá a portas fechadas com os líderes das Igrejas cristãs na igreja siríaca ortodoxa de Mar Ephrem, em Istambul. Cada líder poderá falar por alguns minutos, sem uma pauta vinculante.

Esse encontro não resolverá as disputas teológicas entre as Igrejas nem permitirá chegar a um acordo sobre a data da Páscoa. Mas a continuidade de uma “sinodalidade ecumênica”, inaugurada pelo Papa Francisco, poderá permitir a Leão XIV lançar as bases de uma relação construtiva com seus irmãos cristãos.

Newsletter
Você gostou deste artigo? Você gostaria de ler mais artigos como este?

Receba a Aleteia em sua caixa de entrada. É grátis!

Aleteia vive graças às suas doações.

Ajude-nos a continuar nossa missão de compartilhar informações cristãs e belas histórias, apoiando-nos.