Pouco mais de um ano após a abertura da Porta Santa pelo papa Francisco, em 24 de dezembro de 2024, seu sucessor, Leão XIV, recolheu-se em oração neste 6 de janeiro, ajoelhado no limiar, antes de fechar, uma a uma, as duas pesadas folhas atravessadas por milhões de peregrinos em 2025.
Alguns instantes depois de fechar essa porta de bronze durante um rito celebrado no átrio, na presença do presidente italiano Sergio Mattarella e de numerosos cardeais reunidos em Roma para o consistório extraordinário, o Papa celebrou a missa no altar da Confissão. Embora a porta seja selada pelo interior da basílica com um muro de tijolos, no qual será encerrado o cofre que contém suas chaves, o Papa exortou os fiéis a permanecerem animados pela “esperança”, tema do ano jubilar que acaba de se concluir.
Nos relatos bíblicos, “alegria e perturbação, resistência e obediência, medo e desejo” se misturam diante das manifestações da presença de Deus, explicou Leão XIV em sua homilia da missa da Epifania. Ele destacou a perturbação vivida em Jerusalém pelos sacerdotes e escribas, observando que “aqueles mesmos que estudam as Escrituras e pensam ter todas as respostas parecem ter perdido a capacidade de fazer perguntas e de cultivar desejos”. “A cidade se assusta com aqueles que vêm de longe, animados pela esperança, a ponto de perceber uma ameaça naquilo que deveria, ao contrário, proporcionar-lhe muita alegria”, observou o Papa. E explicou que essa reação deve interpelar a Igreja de hoje, chamada a permanecer atenta à “busca espiritual de nossos contemporâneos”.

As igrejas e os santuários “devem difundir o perfume da vida”
Leão XIV recordou que, ao longo deste ano jubilar, a Porta Santa da basílica de São Pedro “viu passar inúmeros homens e mulheres, peregrinos da esperança, a caminho da Cidade de portas sempre abertas, a nova Jerusalém”. Segundo os organizadores do jubileu, mais de 33 milhões de fiéis vieram a Roma nesses últimos doze meses. Ele viu nesses peregrinos os reis magos de hoje, isto é, “pessoas que aceitam o desafio de arriscar cada uma a sua própria viagem e que, em um mundo atormentado como o nosso, repelente e perigoso sob muitos aspectos, sentem a necessidade de ir, de procurar”.
Diante de “uma economia distorcida” que “tenta tirar proveito de tudo”, o legado do Jubileu deve conduzir a “fugir desse tipo de eficiência que reduz tudo a um produto e o ser humano a um consumidor”.
Ao situar a fé cristã como expressão de uma vida em movimento, o Papa sublinhou que “o Evangelho compromete a Igreja a não temer esse dinamismo, mas a compreendê-lo bem e orientá-lo para Deus que o inspira”. Deus não é um “ídolo” estático, mas um ser “vivo e vivificante, como essa Criança […] que os Magos adoraram”. Nessa perspectiva, os lugares santos, as igrejas e os santuários “devem difundir o perfume da vida, a marca indelével de que um outro mundo começou”, insistiu o pontífice. “Há vida em nossa Igreja? Há espaço para o que nasce? Amamos e anunciamos um Deus que coloca novamente a caminho?”, perguntou Leão XIV, exortando a não agir como Herodes, que se cegou no “controle” e no desejo de não perder seu “trono”.
Deus “está decidido a nos resgatar de antigas e novas servidões”, afirmou, assegurando que o Reino de Deus “já germina em toda parte no mundo”, muitas vezes sem fazer barulho, mobilizando “jovens e idosos, pobres e ricos, homens e mulheres, santos e pecadores em suas obras de misericórdia, nas maravilhas de sua justiça”.
Resistir às “bajulações dos poderosos”
O Papa destacou que essas “epifanias de hoje” exigem afastar-se dos “novos Herodes” e dos “medos sempre prontos a se transformar em agressividade”, que se expressam nos “numerosos conflitos pelos quais os homens podem resistir e até agredir a novidade que Deus reserva a todos”. “Amar a paz, buscar a paz, é proteger aquilo que é santo e que, precisamente por isso, está nascendo: pequeno, delicado, frágil como uma criança”, insistiu o pontífice.
Diante de “uma economia distorcida” que “tenta tirar proveito de tudo”, o legado do Jubileu deve levar a “fugir desse tipo de eficiência que reduz tudo a um produto e o ser humano a um consumidor”. “A Criança que os Magos adoram é um bem sem preço e sem medida. Ela é a Epifania da gratuidade”, enfatizou o Papa, reiterando que “ninguém pode nos vender isso”. “Se não reduzirmos nossas igrejas a monumentos, se nossas comunidades forem lares, se resistirmos juntos às bajulações dos poderosos, então seremos a geração da aurora”, prometeu Leão XIV.
Como é de costume após o Evangelho da Epifania, um diácono proclamou as grandes datas “móveis” do ano litúrgico católico, como a Quarta-feira de Cinzas (18 de fevereiro), a Páscoa (5 de abril), a Ascensão (14 de maio), Pentecostes (24 de maio), a Santíssima Trindade (4 de junho) e o primeiro domingo do Advento (29 de novembro).










