separateurCreated with Sketch.

Padroeira da Venezuela traz um mistério que cabe na palma da mão

Venezuelanos têm como padroeira Nossa Senhora de Coromoto

Nossa Senhora de Coromoto, padroeira da Venezuela

whatsappfacebooktwitter-xemailnative
Paulo Teixeira - publicado em 06/01/26
whatsappfacebooktwitter-xemailnative
Papa Leão recordou a padroeira do país ao se solidarizar com a situação dramática em que vivem os venezuelanos

O venezuelano carrega no peito uma história que parece flutuar entre o mito e a prova física. É a história de quase quatro séculos de Nossa Senhora que escolhe a selva como seu altar e um cacique como mensageiro.

Para entender a força de Nossa Senhora de Coromoto, é preciso mergulhar nas águas do Rio Tucupido, em 1651. Ali, o cacique dos índios Coromotos, um homem que via seu mundo ser transformado pela chegada dos espanhóis, deparou-se com o extraordinário. Nossa Senhora apareceu ao indígena indicando o caminho do Batismo, ao mesmo tempo em que pedia, sobretudo, a união de dois mundos que sangravam.

O cenário da aparição é a selva bruta, onde o tempo parece não ter pressa e o silêncio só é interrompido pelo farfalhar das folhas e o correr das águas. O Cacique dos Coromotos busca apenas o repouso de uma longa jornada. Ele está acompanhado do que tem de mais sagrado: sua mulher e seus filhos. Mas o destino, esse mestre do imponderável, reservava para aquele momento um encontro que atravessaria os séculos.

De repente, a imagem que desafia a lógica. Sobre as águas cristalinas de uma correnteza, surge uma figura de beleza incomparável. Não é uma miragem provocada pelo cansaço. É uma Senhora majestosa, carregando nos braços um Menino, caminhando onde o pé humano deveria afundar. O Cacique e sua família estacam. O olhar é de espanto; o coração bate no compasso do mistério.

A senhora, não apenas aparece; ela sorri. Um sorriso carregado de um amor que não exige explicações. E então, o som que rompe a barreira do desconhecido: ela fala. E fala na própria língua do Cacique.

A mensagem é curta, direta, mas carrega um peso eterno. Ela diz que foi até ali buscar a água. Mas não a água que mata a sede do corpo. Ela pede que aquela água seja colocada sobre a cabeça, recordando o ritual do batismo, para que eles pudessem, enfim, alcançar os céus.

Em novembro daquele ano, Juan Sánchez, um espanhol que seguia em direção a El Tocuyo, ouviu a história do cacique dos Coromotos e os levou até à Vila do Espírito Santo de Guanaguanare. As autoridades, movidas pelo relato, designam-no como o protetor daquele povo. Assim, Sánchez com a esposa e outros dois colonizadores se tornaram os evangelizadores dos indígenas que aderiam à fé e recebiam o batismo.

O cacique, contudo, não queria se deixar convencer e tenta expulsar a Bela Senhora de sua cabana, quando a imagem se materializou em sua mão. Não era uma estátua de gesso, nem uma pintura em tela. Era um fragmento minúsculo, um pergaminho de pouco mais de dois centímetros, gravado com uma nitidez que a ciência, séculos depois, ainda tenta decifrar.

"Ela não veio para ser contemplada à distância; ela veio para ficar literalmente na palma da mão de quem a buscou", dizem os fiéis no Santuário Nacional de Guanare.

Ao observar a pequena relíquia, se deixa de lado a história para contemplar o mistério. Em 2009, uma restauração profunda revelou detalhes que arrepiam os céticos. Nos olhos da pequena Virgem, que mede menos que uma unha humana, há a presença de íris, pupilas e o que parecem ser reflexos de figuras humanas um fenômeno que remete à famosa Virgem de Guadalupe, no México. Como uma imagem tão pequena, desenhada por "mãos não humanas", poderia conter tamanha precisão técnica?

A Virgem de Coromoto é, para a Venezuela, um símbolo de resistência e identidade. Em 1944, o Papa Pio XII a declarou Padroeira do país. Em 2011, ela foi oficialmente proclamada Padroeira da Arquidiocese de Caracas. Para o povo que enfrenta filas, escassez e incertezas, ela é a "indígena", a mãe que fala a língua da terra e que não abandonou seus filhos quando a selva se tornou cidade.

Hoje, as celebrações de setembro transformam o país. Em um país que atravessa tempestades, a pequena relíquia deixada na mão de um cacique serve como lembrete de que o sagrado escolhe os caminhos mais improváveis para se fazer presente.

A história de Coromoto nos ensina que o divino não precisa de monumentos faraônicos para se manifestar; basta o espaço de um punho fechado para mudar o destino de uma nação inteira.

Newsletter
Você gostou deste artigo? Você gostaria de ler mais artigos como este?

Receba a Aleteia em sua caixa de entrada. É grátis!