Vamos imaginar pelas ladeiras de Caracas, um homem de bigode aparado, terno preto impecável e um chapéu que parece equilibrar todo o peso da esperança venezuelana. Ele não é um político de voz rouca, nem um craque de futebol. É José Gregorio Hernández, o "Médico dos Pobres", que foi canonizado em 2025.
São José Gregorio não foi homem de milagres espalhafatosos em vida. Sua santidade era feita de miudezas: o estetoscópio aquecido na palma da mão para não gelar o peito do doente, a receita escrita com letra clara e, muitas vezes, o dinheiro do próprio bolso deixado discretamente sobre a mesa para que o paciente pudesse comprar o remédio. Ele entendia que a fome é a primeira doença que um médico precisa curar.
Vida do médico
Nascido nos Andes venezuelanos, em Isnotú, José Gregorio era o que hoje chamaríamos de um "intelectual de primeira grandeza". Estudou em Paris, trouxe o microscópio para a Venezuela e fundou laboratórios. Mas a ciência, para ele, não era uma torre de marfim. Era ferramenta de caridade. Enquanto a medicina da época olhava para os livros, ele olhava para os olhos marejados das mães de La Pastora.
Dizia-se que ele atendia a todos com o mesmo rigor: o rico pagava o que era justo; o pobre recebia, além da consulta, o carinho. E foi justamente nessa dedicação que o destino lhe pregou a última peça. Em 1919, ao sair apressado de uma farmácia com remédios para uma senhora idosa, foi atropelado por um dos poucos automóveis que circulavam na capital. Morreu como viveu: a caminho de servir.
O milagre da Menina Yaxury
O milagre que destravou as portas do céu para a ciência da Igreja aconteceu com a pequena Yaxury Solórzano. Em 2017, a menina foi baleada na cabeça durante um assalto. Os médicos deram o veredito sombrio: se sobrevivesse, ficaria em estado vegetativo. A mãe, porém, rezou para o "Doutor".
Dias depois, Yaxury saiu do hospital caminhando, sem sequelas, para o espanto da junta médica. O Vaticano, que não se deixa levar por qualquer vento de devoção, analisou cada tomografia. O veredito de 2025 foi o decreto final: a ciência não explica como aquela bala não destruiu a vida da menina. A fé, por outro lado, explica com um sorriso.
O santo da unidade
A canonização de São José Gregorio chega em um momento em que a Venezuela mais precisa de pontes. Ele é a única figura que consegue sentar à mesma mesa o governo e a oposição, o operário e o empresário. Todos se curvam diante do homem que trocou o luxo da Europa pela poeira dos bairros pobres.
O Papa Francisco, ao assinar o decreto de canonização, em fevereiro do ano passado, deu um abraço em um povo que sofre; e o papa Leão XIV, ao presidir a cerimônia de canonização prosseguiu o abraço apertado de Francisco.
São José Gregorio Hernández agora é oficialmente o primeiro santo homem da Venezuela.
A fé não precisa de enfeites. Ela se faz no chão da fábrica, no leito do hospital e na dignidade de quem sabe que, mesmo no escuro, existe uma luz que não apaga.










