Quando o anjo Gabriel saúda Maria no Evangelho de Lucas, ele não a chama pelo nome. Chama-lhe Kecharitomene, um termo grego no particípio perfeito que significa "Tu que foste aperfeiçoada pela graça... e assim permaneces". Não "parcialmente cheia de graça", nem "extremamente popular", mas totalmente plena da graça de Deus.
Se procuramos um exemplo imaculado de como responder às muitas provações da vida, devemos olhar para a Mãe de Deus. Angelo Stagnaro, jornalista do jornal católico americano The National Catholic Register, contabilizou menos de duzentas palavras registadas que Maria pronunciou em sete ocasiões na Bíblia:
Lucas 1, 34 – Na Anunciação, Maria disse ao anjo: "Como se fará isso, pois não conheço homem?" (9 palavras, com as quais fez uma pergunta).
Lucas 1, 38 – "Eis aqui a serva do Senhor", disse Maria, também na Anunciação: "Faça-se em mim segundo a tua palavra". E o anjo retirou-se de junto dela. (10 palavras, com as quais consentiu ser a Mãe de Deus).
Lucas 1, 40 – Durante a Visitação, Maria saudou a sua prima Santa Isabel, mas as suas palavras não foram registadas. (0 palavras).
Lucas 1, 46 – O Magnificat: "A minha alma glorifica ao Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador..." (114 palavras, com as quais louvou a Deus e celebrou humildemente o seu papel na história da salvação).
Lucas 2, 48 – Os pais de Jesus ficaram admirados quando o viram no templo, e a sua mãe disse-lhe: "Filho, por que fizeste assim connosco? Teu pai e eu te procurávamos angustiados". (15 palavras, com as quais fez uma pergunta e expressou honestamente os seus medos, sem se queixar).
João 2, 3 – Quando o vinho acabou em Caná, a mãe de Jesus disse ao seu filho: "Eles não têm vinho". (2 palavras, com as quais se dirigiu a Deus numa necessidade).
João 2, 5 – Ainda em Caná, a mãe de Jesus disse aos serventes: "Fazei tudo o que Ele vos disser". (5 palavras, com as quais nos direciona para o seu Filho).
O que Maria nunca disse
A maior lição destas 155 palavras que a Mãe de Deus pronunciou na Bíblia é a reflexão sobre as coisas que ela não disse.
Ela nunca se queixou. Nunca explicou nada nem se defendeu. Não se assustou com o anjo Gabriel — eu certamente teria ficado, ficaria vermelha e dispararia algo como: "Não sabes que posso ser apedrejada se ficar grávida sem estar casada?".
Maria, porém, "guardava todas estas palavras, meditando-as no seu coração" (Lc 2, 19).
Ultimamente tenho pensado muito nisto, pois estou lidando com um parente distante e a nossa relação é bastante estressante. Muitas vezes sinto que ele me trata injustamente, me acusa falsamente e não me entende. Nesses momentos, sinto-me inclinada a explicar-me excessivamente e a defender-me.
Maria nunca o fez, embora tivesse excelentes razões para se defender. Nunca correu para S. José ou para qualquer outra pessoa a pedir que compreendessem a sua virgindade perpétua. Não se gabou, não proclamou a sua inocência, nem espalhou por aí o que o anjo lhe tinha dito.
A Mãe de Deus quase não fala na Bíblia; e talvez na vida real falasse mesmo pouco. Gosto da ideia de que ela simplesmente não precisava de o fazer. Ela carregava em si a Verdade e, no momento certo, essa Verdade revelou-se.









