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Irmã Petra: advogada e religiosa que fez do cárcere a sua missão

Irmã Petra Silvia Pfaller, coordenadora nacional da Pastoral Carcerária (PCr)

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Paulo Teixeira - Cibele Battistini - publicado em 27/01/26
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A missão da Pastoral Carcerária foca no papel do perdão como ferramenta de transformação social. Vamos conhecer o testemunho da Irmã Petra Silvia Pfaller, coordenadora nacional da pastoral.

Meu nome é Petra Silvia Pfaller, sou religiosa, missionária, advogada de formação e, atualmente, coordeno a Pastoral Carcerária Nacional. Há mais de 35 anos vivo no Brasil, país que acolhi como minha casa e onde escolhi caminhar ao lado dos mais pobres, especialmente das pessoas privadas de liberdade e de suas famílias.

Atuar na Pastoral Carcerária, para mim, não é apenas um serviço ou uma ação social. É uma experiência profundamente evangélica. Vivemos em uma sociedade marcada por um sistema de justiça punitivo, seletivo e excludente, e, diante disso, sinto que a Igreja é chamada a exercer uma missão profética, que muitas vezes confronta o senso comum. Nosso trabalho não pode se confundir com vingança institucionalizada. A verdadeira justiça, acredito profundamente, passa pela reparação, pela reconciliação e pelo reconhecimento da dignidade inalienável de cada ser humano.

O perdão

O ponto de partida da nossa missão é a convicção de que o erro não define a pessoa. O perdão está na raiz da nossa fé cristã. Costumo dizer que, se não levamos o perdão a sério, estamos rasgando a Bíblia. Jesus nos mostrou isso de forma muito clara na cruz, quando ofereceu a salvação a um ladrão arrependido, e não a um mestre da lei. Nós rezamos o Pai-Nosso três, quatro, cinco vezes ao dia, e nele o perdão é central. Se não o vivenciarmos, nossa fé perde o sentido.

Essa compreensão entra em choque com a mentalidade dominante no nosso país, onde predomina uma justiça de vingança, que acredita que o encarceramento em condições desumanas é a única resposta possível ao crime. Como Pastoral Carcerária, somos constantemente chamadas e chamados a questionar essa lógica.

Um grande desafio

Viver o perdão não é fácil. Ele encontra barreiras profundas no preconceito e no estigma, sobretudo quando a pessoa sai do sistema prisional. Já vivenciei situações em que comunidades paroquiais resistiram em acolher egressos do cárcere. Isso me faz perceber que a conversão necessária precisa começar dentro da própria Igreja.

Nossa missão é não largar a mão de ninguém. Precisamos combater a ideia de que o crime se transforma numa pena perpétua para toda a vida social da pessoa. O perdão e a justiça restaurativa exigem escuta: escutar a dor da vítima, mas também a história de vida de quem cometeu o delito. Não podemos escolher quem merece atenção.

Costumo dizer que tenho a impressão de que não sou eu que levo esperança para o cárcere, mas que aprendo o que é esperança lá dentro. Aprendo com a resistência, com a fé e com o desejo de recomeço que encontro atrás das grades.

Uma nova esperança

Minha própria trajetória — uma mulher alemã que veio para o Brasil e aqui se comprometeu com as causas dos mais vulneráveis — mostra que a formação jurídica e a vocação missionária podem caminhar juntas. Acredito numa justiça que recupera, em vez de excluir. A Pastoral Carcerária é essa voz que clama por dignidade dentro dos muros das prisões e por acolhimento fora deles. Para nós, o perdão é também um ato político e espiritual de resistência.

Jubileu dos Reclusos nos deixa um convite muito claro: a verdadeira conversão cristã se manifesta na forma como lidamos com nossos conflitos e na nossa capacidade de oferecer uma segunda oportunidade a quem errou. Quando testemunhamos que vítimas e agressores podem se reconciliar, reafirmamos algo essencial: o perdão é, em última instância, o único caminho para uma sociedade verdadeiramente em paz.

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