Na Bíblia, a "lepra" (termo usado para a hanseníase e outras doenças de pele) era vista no Antigo Testamento como impureza ritual, levando à exclusão social (Levítico 13-14) e associada ao pecado, mas no Novo Testamento, Jesus demonstrou compaixão, tocando e curando os "leprosos", quebrando o estigma e restaurando sua dignidade, mostrando que Deus não abandona os doentes.
A hanseníase é uma doença infecciosa e contagiosa, causada por um bacilo denominado Mycobacterium leprae, e atinge principalmente a pele e os nervos. Essa enfermidade não é hereditária e sua evolução depende de características do sistema imunológico da pessoa que foi infectada. A doença atinge o sistema nervoso, provoca manchas na pele e perda da sensibilidade nesses locais. Por muito tempo, essa doença, hoje curável, foi chamada de lepra e as pessoas atingidas por ela, quando recebiam o diagnóstico, eram obrigadas a se manter isoladas da sociedade.
A transmissão da hanseníase acontece nas vias aéreas superiores, ou seja, pode ser por tosse, espirro ou perdigotos da fala. Isso acontece porque as secreções respiratórias, principalmente nasais, carregam um grande número de bactérias.
Acredita-se também que possa haver transmissão pela pele, mas somente através de feridas, como explica a médica Marilda Aparecida Milanez Morgado, coordenadora do Departamento de Hanseníase da Sociedade Brasileira de Dermatologia. “A bactéria não ultrapassa a pele sã. Para que aconteça a contaminação, é necessário haver uma lesão. Há alguns casos relatados em tatuagem, mas a real transmissão ocorre por vias respiratórias”, afirma.
Marilda também ressalta que a hanseníase é uma doença de evolução extremamente lenta, pois o tempo de incubação, ou seja, da contaminação até o surgimento dos sintomas, pode levar até 5 anos. “A partir do momento em que o indivíduo adquirir essa bactéria, ela ficará alojada no organismo e demorará no mínimo 2 anos para a apresentação dos primeiros sintomas”, relata.

Combate mundial à doença
A partir de 1980, uma campanha mundial da Organização das Nações Unidas (ONU), por meio da Organização Mundial da Saúde (OMS), estabeleceu a meta de um doente de hanseníase para cada grupo de 100 mil habitantes. O objetivo é pressionar as autoridades governamentais para a implantação de políticas voltadas para a diminuição dos índices da doença.
O Brasil é o segundo país do mundo com maior incidência da patologia, perdendo apenas para a Índia. Em 2025, boletins epidemiológicos foram publicados para monitorar a tendência da endemia por sexo, raça e escolaridade. O estado de Mato Grosso registrou o maior volume de diagnósticos, com 4.143 casos em 2025. Já a capital paulista, apresentou queda consistente, registrando 100 novos diagnósticos em 2025, uma redução comparada aos anos anteriores. A detecção em menores de 15 anos continua sendo um sinal de alerta para a transmissão ativa em ambientes domiciliares
A coordenadora do Departamento de Hanseníase da Sociedade Brasileira de Dermatologia explica que o Brasil é o único país que até hoje não atingiu a meta estabelecida pela ONU.
“Nós ainda temos 1,27 casos. Até a Índia, que tem o maior número de casos, já tem uma prevalência registrada menor. Então, nós ainda não conseguimos eliminar a doença como um problema de saúde pública”, afirma Marilda.
Marilda esclarece que eliminar a hanseníase como problema de saúde pública não significa dizer que o Brasil está totalmente livre da doença. “Eliminar é baixar a prevalência para menos de um caso para cada 100 mil habitantes. Esta é a meta da OMS, que pretendemos alcançar até 2020”, afirma.

A cura ao alcance
A hanseníase tem cura, o tratamento é gratuito e não necessita de internação. A terapeuta ocupacional da Universidade de São Paulo, Fernanda Sevenca*, orienta que quanto mais cedo a doença começar a ser combatida, mais simples será o tratamento. “Ele varia de seis meses para palsibacilar (pacientes com cinco ou menos lesões na pele) a um ano para multibacilar (forma mais grave da doença)”. O tratamento é feito via oral, com a utilização de um coquetel de medicamentos chamado de poliquimioterapia (PQT). Fernanda explica que os remédios utilizados podem causar algum tipo de efeito colateral. Caso isso ocorra, é recomendado que o paciente procure um médico. “É importante sempre se salientar que a poliquimioterapia é um remédio indicado desde a década de 1980 pela Organização Mundial de Saúde. Podem ocorrer efeitos colaterais, mas eles são raros, como por exemplo, a anemia. Um efeito que é normal é o avermelhamento da urina, causado por um dos componentes da medicação. Mas, se o paciente sentir algo diferente, deve ir ao posto de saúde”.
Preconceito acentua a disseminação
Hanseníase. A doença da mancha. O mal dos Lázaros. Ou lepra, como ainda é chamada no mundo. O Brasil foi o único país que autorizou a alteração de nome, em 1976, quando se deixou de usar lepra nos documentos oficiais. Mas, a mudança de nome não eliminou o preconceito, como explica o psicólogo Fioravante Guariento. “Quando se fala em hanseníase, as pessoas não acolhem essa palavra como uma doença normal e natural. Muitas vezes, não conhecem nem sabem sobre a doença, mas o nome assusta e já causa esse estigma. A palavra pesa e faz com que as pessoas reajam de um jeito preconceituoso”, lamenta.
Autor do livro Sozinho, mas jamais em solidão, o psicólogo Fiore também afirma que uma das origens desse preconceito é a imagem bíblica da lepra como um castigo divino, na qual está embutida a ideia de que o leproso é o excluído, é um pecador: “Nos tempos bíblicos, a lepra era uma doença para a qual não havia cura, então as pessoas eram excluídas, pois havia medo do contato. E isso, em termos bíblicos, de uma forma simbólica, era tratado como um castigo por conseqüência de um pecado. E esse estigma ainda continua. As pessoas têm essa mentalidade de preconceito, rejeição e medo que nós ainda carregamos”. A forte carga de preconceito da sociedade brasileira com relação à hanseníase dificulta a divulgação de informações sobre a prevenção e o tratamento da doença, impedindo a sua erradicação. Devido a esse estigma, o doente tenta esconder a hanseníase a todo custo e se recusa a buscar o tratamento para a doença, ocasionando a contaminação de outras pessoas.
Conhecendo a história do doente
Para solucionar esse problema, profissionais das mais diversas áreas da saúde se unem para dar mais visibilidade à doença. Um dos estudos elaborados com essa finalidade é a pesquisa “Qualificar a demanda e conhecer as trajetórias das pessoas com hanseníase: contribuições para as políticas públicas de saúde”, realizada pelo Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional da Universidade de São Paulo (USP) e coordenado por Mariângela Trindade.
O estudo foi realizado ao longo dos últimos três anos no Hospital das Clínicas (HC), onde se encontra um ambulatório dermatológico que é referência nacional no tratamento da hanseníase. Anualmente, cerca de 1.200 pessoas são atendidas pelo ambulatório de hanseníase do HC. O objetivo da pesquisa era gerar uma compreensão plena da complexidade do tratamento destas pessoas com hanseníase. Na primeira etapa do estudo, os profissionais realizaram um levantamento dos dados encontrados em pesquisas nacionais e internacionais sobre o assunto. Em seguida, outra pesquisa foi feita para conhecer as características dos pacientes atendidos no ambulatório.
De acordo com Fernanda Sevenca, integrante do projeto, o estudo contou com a participação de 300 pacientes que são atendidos pelo hospital, com um equilíbrio entre homens e mulheres. Dentre os resultados obtidos, o que mais se destaca é que há um grande número de pacientes do interior de São Paulo e de outros estados, e que a maioria destes indivíduos tem baixa renda familiar. “Um dado que achamos muito importante foi que 60% das pessoas afetadas pela hanseníase não tem o ensino fundamental completo. Outro dado que achamos bem relevante foi que nós tivemos cerca de 50% das pessoas que demoraram mais de 6 meses para conseguir um diagnóstico, 12% demoraram mais de 3 anos e 6%, mais de 5 anos para receber o diagnóstico”, explica Fernanda.









