Quaresma 2026
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Em meio às celebrações dos centenários franciscanos, Frei Gustavo Jonas reflete sobre como os escritos de São Francisco de Assis, redigidos há oito séculos, oferecem respostas surpreendentemente atuais para os conflitos e divisões do mundo contemporâneo.
Frei Gustavo, estamos vivendo um ciclo de centenários franciscanos. Como a Regra de São Francisco se insere nesse contexto e qual sua importância histórica?
A Regra é o documento que dá identidade e forma de vida aos seguidores de Francisco. No ano de 2023, celebramos os 800 anos da chamada "Regra Bulada", aprovada pelo Papa Honório III em 1223. Ela não é apenas um conjunto de leis, mas a cristalização de uma experiência de vida baseada no Evangelho. Francisco queria que seus irmãos vivessem sem nada de próprio, em obediência e castidade, mas, acima de tudo, em fraternidade.
O senhor relaciona a Regra diretamente com a "Mística da Paz". Como essa conexão se dá na prática franciscana?
Para Francisco, a paz não é apenas a ausência de guerra, mas uma atitude interior que transborda para o exterior. Na Regra, ele exorta os frades a não discutirem e a não julgarem os outros. A paz nasce da "minoridade": quando eu me coloco abaixo do outro, não há motivo para conflito. Ele dizia que, ao entrar em uma casa, a primeira saudação deve ser "O Senhor te dê a paz". É uma mística que exige despojamento de si mesmo para acolher o diferente.
O que o "espírito da Regra" de São Francisco tem a dizer para o homem do século XXI?
O legado mais urgente é a capacidade de diálogo. Francisco viveu em um tempo de Cruzadas, de ódio religioso e social, e ele escolheu o caminho do desarmamento. Ele foi ao encontro do Sultão não para converter pela força, mas para estabelecer uma ponte. A Regra nos ensina que o outro não é um inimigo a ser vencido, mas um irmão a ser abraçado. Se aplicarmos essa mística hoje, nas redes sociais e nas famílias, transformamos a cultura do cancelamento na cultura do encontro.
Como a Regra dialoga com a ecologia integral proposta pelo Papa Francisco?
A espiritualidade franciscana não separa o amor a Deus do amor às criaturas. O Cântico das Criaturas, escrito por Francisco ao final da vida, é o desdobramento natural da Regra. Se eu sou irmão de todos, sou também irmão do sol, da lua e da "Irmã Terra". A paz franciscana é cósmica. Quando exploramos a natureza de forma gananciosa, estamos quebrando a regra fundamental da fraternidade universal. A ecologia integral é, no fundo, a atualização da mística de Assis.
Para encerrar, como um leigo pode viver o "espírito da Regra"?
Através da simplicidade e da retidão de coração. Não precisamos usar o hábito para sermos instrumentos de paz. Viver a Regra hoje é buscar uma vida menos consumista, mais solidária e atenta aos que sofrem nas periferias. É fazer de cada dia um exercício de reconciliação, começando pelas pequenas coisas.









