A santidade não é coisa que nasce pronta, pendurada num oratório. Ela é, antes de tudo, uma construção que começa no meio do povo, no calor das necessidades, e termina no silêncio das salas de mármore do Vaticano que declara o santo.
A gente ouve dizer que o santo já nasce com um brilho diferente, que desde o berço já operava prodígios. Mas a verdade é que o santo é um "fabricado" pela fé e pelo tempo. O povo, na sua sabedoria vai esculpindo a imagem daquele que pode olhar por ele. É o que os estudiosos chamam de "retroprojeção": a gente vê o adulto virtuoso e logo imagina que ele já era um santinho lá no ventre da mãe. Foi assim com personagens bíblicos como Isaac e Samuel. No Brasil, gente como Nhá Chica e o Padre Vitor, pretos mineiros, já começam a ser descritos como iluminados desde a infância. É o povo querendo que o seu herói seja perfeito do começo ao fim.
A pessoa santa
Mas engana-se quem acha que para subir ao altar basta o clamor das gentes. Tem um caminho de pedras, uma burocracia que a Igreja chama de Direito Canônico. É a lei da casa, a regra que organiza a vida de fé. Sem ela, a devoção seria um mato sem fim.
Veja o caso do Frei Galvão, o nosso primeiro santo nascido nestas terras. O processo dele foi um eito de quase cem anos! Foram quatro tentativas, tribunais abertos e fechados, papéis que iam e vinham. Para a Igreja, não basta o povo dizer que é santo; tem que provar as "virtudes heroicas". São as três teologais — fé, esperança e caridade — e as quatro cardeais — prudência, justiça, fortaleza e temperança. É um exame minucioso, como se passassem a vida do sujeito numa peneira fina.
E tem a prova dos nove: o milagre. Para o devoto, santo que não faz milagre é como chuva que não molha a terra. No catolicismo popular, o santo é o mediador, aquele que tem o contato com o Criador para resolver a seca, a doença ou a falta de dinheiro.
Santos da porta ao lado
O Papa Francisco dizia uma coisa que faz a gente pensar: que a santidade não precisa de alarde nem de milagre de capa de jornal. Ele fala dos "santos da porta ao lado", aquela gente comum que enfrenta a fadiga do dia a dia, os sucessos e os fracassos, mas que não perde a ternura.
No fim das contas, o santo é aquele que nos representa naquilo que queremos ser. Se o povo é sofredor, o santo é São Francisco das Chagas. Se o devoto é preto, tem São Benedito. Se a mulher é benzedeira, tem Nhá Chica. O santo é o humano transfigurado, alguém que gastou a sola do sapato no mesmo chão que a gente, mas que aprendeu a caminhar olhando para as estrelas. E assim, de promessa em promessa, de processo em processo, o Brasil vai povoando o céu com os seus melhores filhos.








