O tempo é bicho que não para. Ele vai passando, silencioso como um rio de planície, e quando a gente se dá conta, a barba branqueou e a perna já não tem aquela pressa de antigamente. Mas olha só que coisa bonita: para quem sabe olhar o horizonte, o entardecer não é o ensaio da escuridão, mas o preparo para um novo sol. Ser idoso não é ser velho. É sobre esse "aperto de mão" com a maturidade que trata o novo livro do Cardeal Angelo Scola, À Espera de um Novo Começo, que chegou às prateleiras com um prefácio assinado por ninguém menos que o Papa Francisco.
Livro de um idoso
Vejam vocês que a obra não é um manual de medicina, nem um lamento de quem sente saudade do que passou. É uma conversa de pé de ouvido. Scola, que já foi Patriarca de Veneza e Arcebispo de Milão — sujeito que carregou o peso de batinas importantes —, agora, aos 84 anos, resolveu falar do que sobra quando o barulho do mundo diminui. E o Papa, com aquele jeito de avô que conhece os atalhos da vida e sabendo que a sua vida estava se concluindo, deu a benção no texto, chamando a velhice de "tempo de despojamento".
O Papa idoso
Francisco escreveu com a simplicidade de quem sabe que a árvore só fica de pé se a raiz for funda. Para o Pontífice, o idoso não é "sobra" de sociedade descartável; é raiz que segura o tronco das gerações mais novas. No prefácio, ele nos lembra que envelhecer é uma arte de ir tirando o excesso, como quem limpa o terreno para a semeadura. É o que ele chama de "pedagogia do tempo": a vida vai tirando as certezas arrogantes da juventude para nos dar, em troca, a clareza do que realmente importa.
O Cardeal Scola entra nessa prosa com a honestidade de quem está diante do espelho. Ele não esconde as fragilidades, o cansaço que bate na porta ou a memória que, às vezes, quer brincar de esconde-esconde. Mas o pulo do gato está no título: a espera de um novo começo. Para esses dois velhos sábios da Igreja, a morte não é um muro de arrimo onde tudo termina em seco. O Papa Francisco já recomeçou e o Cardeal Scola vive ainda sua velhice.
No texto, Scola reflete que a velhice nos ensina a gratidão. A gente passa a agradecer pelo pão, pelo orvalho, pela visita de um amigo. É o "despojamento" que o Papa tanto fala: quando a gente perde a força do braço, ganha a força da alma. O livro é um convite para que a gente pare de brigar com o relógio e aprenda a caminhar no passo que o coração aguenta, sem medo das rugas, que, afinal de contas, são apenas os mapas das estradas que a gente já percorreu.
No fim das contas, a mensagem que fica dessa tabelinha entre Scola e Francisco é um alento para todos nós, jovens de ontem e de amanhã. A vida é um mistério que se renova. O outono pode até derrubar a folha, mas é no chão que ela vira adubo para a flor que vem vindo.



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