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Mônaco, laboratório de piedade popular

Lors de la fête de sainte Dévote, à Monaco, le 26 janvier 2013.

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Camille Dalmas - publicado em 27/03/26 - atualizado em 27/03/26
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Apesar de sua população muito cosmopolita, o Principado de Mônaco é muito apegado às suas tradições, enraizadas na identidade católica do pequeno Estado. O suficiente para torná-lo um “laboratório” da piedade popular tão cara ao papa Francisco e plenamente assumida por Leão XIV?

Todo dia 27 de janeiro, o Principado entra em festa por Santa Devota, padroeira do Principado desde o século XVII. “Santa Devota é considerada pelos monegascos como a segunda festa nacional”, explica Jean-Michel Manzone, secretário do Comitê Nacional das Tradições Monegascas, o organismo estatal que valoriza a identidade cultural e linguística do principado. As festividades da “Santa” começam já na manhã de 26 de janeiro com a missa em língua monegasca na igreja de Santa Devota, que abriga as relíquias da mártir corsa do século IV. Falado por apenas um punhado de pessoas, o monegasco ainda é ensinado no currículo obrigatório dos alunos do Principado até o equivalente ao ensino fundamental II.

Esse dialeto próximo do genovês, do corso e do provençal deve muito à Igreja Católica local, que o defendeu e promoveu: o cônego Georges Franzi (1914-1997) redigiu os primeiros manuais escolares em monegasco, e o padre Louis Frolla (1904-1978) escreveu o primeiro dicionário franco-monegasco. E Santa Devota ocupa um lugar único na literatura monegasca, já que o primeiro livro na língua local, publicado pelo poeta Louis Notari em 1927, é A legenda de Santa Devota – A lenda de Santa Devota. “Todos os monegascos conhecem Santa Devota, pois na escola aprendem a história de Mônaco, da qual ela faz parte. Ela não é apenas a santa padroeira, faz parte da história e da identidade cultural”, explica Jean-Michel Manzone.

Uma barca que se incendeia

Um momento marcante das festividades de Santa Devota é quando o príncipe incendeia uma barca, gesto que recorda a tentativa – lendária – de roubo das relíquias da santa por bandidos no século XI. “É uma manifestação que atrai todos os anos um grande número de monegascos, mas também estrangeiros”, destaca Jean-Michel Manzone. Sua esposa Claude Manzone, presidente do Comitê, explica que a tradição local diz que os monegascos tentam recuperar os pregos da barca, aos quais o fervor e a fé populares atribuem um “poder protetor para o ano que vem”.

No dia seguinte, dia de Santa Devota, é feriado, e uma missa pontifical é celebrada na catedral, seguida por uma procissão das relíquias pela cidade. Nos últimos anos, altos representantes da Cúria Romana e do colégio cardinalício foram convidados de honra nessas festividades: o cardeal Pierbattista Pizzaballa, patriarca latino de Jerusalém em 2026, dom Paul Richard Gallagher, figura-chave da diplomacia pontifícia, em 2025, e o cardeal François-Xavier Bustillo, bispo de Ajaccio, em 2024.

Numerosas festas religiosas

Mas Santa Devota não é a única manifestação de fé popular no Principado. Em Mônaco, nove dos doze feriados são de origem religiosa: a segunda-feira de Páscoa, a Ascensão, a segunda-feira de Pentecostes, Corpus Christi, a Assunção, Todos os Santos, a Imaculada Conceição e o Natal. A Imaculada Conceição – à qual é dedicada a catedral de Mônaco – é ainda uma “dupla festa” para os monegascos, pois a Virgem também é homenageada pela proteção que concedeu à cidade durante a peste de 1631, destaca Jean-Michel Manzone. A festa é marcada por uma “procissão do voto”, lembrando aquela feita pelo príncipe Honoré II e pela população monegasca para agradecer à sua protetora.

A essas datas oficiais, é preciso acrescentar muitas outras festividades não feriadas que dão origem a importantes manifestações populares. É o caso da Semana Santa e de sua impressionante Via Crucis na Sexta-feira Santa; de São João com suas fogueiras em 24 de junho; de São Romano, outro santo cujas relíquias se encontram em Mônaco, em 9 de agosto; de Santa Cecília, que é a festa da música em Mônaco; ou ainda de São Nicolau em 6 de dezembro, padroeiro do Comitê das Tradições e que é homenageado há muito tempo pelos monegascos. Por fim, no Natal, um “caminho dos presépios” é organizado no Principado. “Todo mundo participa, até os comerciantes. Isso pode surpreender os turistas, mas aqui não é proibido fazer presépios!”, diverte-se Jean-Michel Manzone, fazendo referência às polêmicas existentes na vizinha França. “Essas tradições são importantes em Mônaco, observa o secretário do Comitê, porque somos uma população plural. Irlandeses, alemães, russos… cada comunidade tem seus hábitos, seus círculos, suas atividades; eles não participam de todos os nossos eventos, mas frequentemente os vemos se unir em algumas grandes cerimônias religiosas, para Santa Devota, para o Natal…”

A arquiconfraria da Misericórdia

Todas essas cerimônias são coordenadas pelo Comitê Nacional das Tradições Monegascas, com a participação ativa da arquiconfraria da Misericórdia. As origens da confraria local são muito antigas: remontam ao século XV, sob a influência de Gênova, onde surgiram nesse período os primeiros “penitentes”. Engajada junto aos mais pobres, a confraria ganhou reconhecimento em 1631 durante a peste. Foi dividida por um tempo em duas confrarias de penitentes negros e brancos, que acabaram sendo reunidas em 1813: “seus membros usam agora um hábito branco e um capuz negro”, destaca Claude Passet, membro da Arquiconfraria. Desde então, a organização, patrocinada pela diocese e que conta com 120 membros, dos quais metade são ativos, continua a desempenhar um papel na solidariedade em Mônaco e ocupa um lugar importante nas diversas festas.

A importância das tradições religiosas populares foi particularmente destacada no final do pontificado de Francisco. Ele via a religião popular como uma forma de antídoto contra uma religiosidade elitista. Ele tirava essa concepção do Documento final de Aparecida (2007), no qual a religiosidade popular era descrita como o “tesouro da Igreja Católica na América Latina”. Leão XIV, ex-missionário no Peru, certamente se familiarizou com esse texto, redigido pelo então cardeal Bergoglio, e que se tornou uma bússola pastoral para as dioceses da América do Sul. A última encíclica de Francisco, Dilexit Nos (2024), foi dedicada à piedade popular ao Sagrado Coração de Jesus, e sua última viagem internacional, em 15 de dezembro de 2024, foi por ocasião do congresso sobre a religiosidade popular – do qual o cardeal Robert Francis Prevost participou.

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