Na bela homilia do Papa Leão XIV na Missa da Ceia do Senhor, que celebrou esta noite na sua catedral, São João de Latrão, ele disse que as ações de Jesus purificam não apenas a nossa imagem de Deus, mas também a nossa imagem de humanidade.
Leão XIV escolheu lavar os pés de 12 sacerdotes da sua diocese. Ele ordenou onze deles em 31 de maio de 2025, e o décimo segundo, Padre Renzo Chiesa, é diretor espiritual de futuros sacerdotes no Pontifício Seminário Romano.
"Deixar-nos servir pelo Senhor é, portanto, a condição necessária para servir como Ele serviu", disse o Papa.
“Ao lavar nossos corpos, Jesus purifica nossas almas.”
Queridos irmãos e irmãs,
A liturgia solene desta noite marca nossa entrada no Santo Tríduo Pascal da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor. Cruzamos este limiar não como meros espectadores, nem por hábito, mas como aqueles que foram pessoalmente convidados por Jesus como participantes da Ceia, na qual o pão e o vinho se tornam para nós o sacramento da salvação. De fato, participamos de um banquete no qual Cristo, “tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1). Seu amor se torna gesto e alimento para todos, revelando a justiça de Deus. Neste mundo, e particularmente naqueles lugares onde o mal abunda, Jesus ama definitivamente — para sempre e com todo o seu ser. Durante a Última Ceia, Ele lava os pés dos seus apóstolos, dizendo: “Dei-vos o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também” (Jo 13,15). O gesto do Senhor é inseparável da mesa para a qual Ele nos convidou. Este gesto é um exemplo concreto que brota do sacramento: ao mesmo tempo que revela o significado do mistério eucarístico, confia-nos também uma tarefa – uma missão que somos chamados a assumir como alimento para as nossas vidas. João Evangelista escolhe a palavra grega upódeigma para descrever o evento que testemunhou: significa “aquilo que se mostra diante dos vossos olhos”. O que o Senhor nos mostra – tomando a água, a bacia e a toalha – é muito mais do que um exemplo moral. Ele nos confia o seu próprio modo de vida. O lava-pés é um gesto que encapsula a revelação de Deus: um sinal exemplar do Verbo encarnado, a sua memória inconfundível. Ao assumir a condição de servo, o Filho revela a glória do Pai, subvertendo os padrões mundanos que tantas vezes distorcem nossa consciência.
Junto com o espanto silencioso de seus discípulos, nem mesmo o orgulho humano pode permanecer cego ao que está acontecendo. Como Pedro, que a princípio resistiu à iniciativa de Jesus, nós também devemos “aprender repetidamente que a grandeza de Deus é diferente da nossa ideia de grandeza… porque sistematicamente desejamos um Deus de sucesso e não da Paixão” (Homilia na Missa da Ceia do Senhor, 20 de março de 2008). Essas palavras do Papa Bento XVI reconhecem francamente que somos sempre tentados a buscar um Deus que nos “serve”, que nos concede a vitória, que se mostra útil como riqueza ou poder. Contudo, não percebemos que Deus de fato nos serve por meio do gesto gratuito e humilde de lavar os pés. Esta é a verdadeira onipotência de Deus. Desta forma, realiza-se o seu desejo de se dedicar àqueles cuja própria existência depende do seu dom. Por amor, o Senhor se ajoelha para lavar cada um de nós, e seu dom divino nos transforma.
De fato, por meio desse ato, Jesus purifica não apenas nossa imagem de Deus — da idolatria e da blasfêmia que a distorceram — mas também nossa imagem de humanidade. Pois tendemos a nos considerar poderosos quando dominamos, vitoriosos quando destruímos nossos iguais, grandes quando somos temidos. Em contraste, como verdadeiro Deus e verdadeiro homem, Cristo nos oferece o exemplo de abnegação, serviço e amor. Precisamos de seu exemplo para aprender a amar, não porque sejamos incapazes disso, mas precisamente para ensinar a nós mesmos e uns aos outros o que é o verdadeiro amor. Aprender a agir como Jesus — o sinal vivo que Deus colocou na história do mundo — é uma obra para a vida toda.
Ele é a verdadeira medida, o “Mestre e Senhor” (Jo 13,13) que remove toda máscara divina e humana. Ele oferece seu exemplo não quando todos estão contentes e devotados a ele, mas na noite em que foi traído, na escuridão da incompreensão e da violência. Dessa forma, fica claro que o amor do Senhor precede nossa própria bondade ou pureza; ele nos ama primeiro e, nesse amor, nos perdoa e nos restaura. Seu amor não é uma recompensa por aceitarmos sua misericórdia; em vez disso, ele nos ama e, portanto, nos purifica, capacitando-nos a corresponder ao seu amor.
Aprendamos, então, com Jesus essa reciprocidade.











