Imagine-se diante de uma escultura de mármore clássica: fria, perfeita, imutável. Durante séculos, a filosofia ocidental contemplou a divindade através dessa lente, sob a figura do "Motor Imóvel" de Aristóteles. No entanto, ao abrirmos as páginas de "As Emoções de Deus", a obra do teólogo dominicano Emmanuel Durand, somos convidados a uma jornada fascinante que rompe esse gelo secular. Durand, professor na Universidade de Friburgo, não nos oferece um tratado árido, mas um mosaico vívido onde o absoluto e o sensível se encontram em uma intersecção desconcertante.
O Deus das Escrituras, como bem observa o Cardeal Gianfranco Ravasi em sua análise da obra, é habitado pelo pathos. Não estamos falando de uma divindade indiferente, mas de um ser que registra uma paleta cromática de reações impressionante: desde o "frio violeta" da ira — expressa no hebraico pelo onomatopeico 'af, o bufar do nariz — até o "vermelho ardente" da compaixão visceral, o rahamîm, termo que remete diretamente ao útero materno.
A ponte entre o absoluto e o humano
Uma das perguntas centrais que Durand nos coloca é provocadora: esse Deus emotivo seria apenas uma projeção hipertrofiada de nós mesmos? Um "super-homem" de sentimentos ampliados? Para responder a isso, o autor utiliza uma ferramenta hermenêutica refinada, apoiando-se na trilogia de abordagens que vai da literatura à teologia pura. Ele resgata a força da metáfora, não apenas como um enfeite retórico, mas como uma translação de sentido capaz de criar afinidades criativas entre o que é disparatado.
Nesta exploração intelectual, Durand caminha lado a lado com gigantes como Santo Agostinho e Tomás de Aquino, mas também dialoga com a fenomenologia de Sartre e Paul Ricoeur. O ponto de virada, contudo, é a Encarnação. Para a fé cristã, o coração do mistério reside no fato de que o Filho de Deus assumiu a carne humana e, com ela, toda a sua carga afetiva. As emoções de Jesus Cristo não são simulações; são a epifania de um Deus que se deixa afetar pela sua criatura. É aqui que a "transcendência dourada" da teologia clássica dá lugar a uma "imanência emotiva", onde o desejo e o amor se tornam motores de uma relação viva.
A cruz e a esperança
Ao avançarmos para as camadas mais profundas do livro, encontramos um debate audacioso: a possibilidade de falarmos em uma "esperança" de Deus. Se Deus é a plenitude, por que esperaria? Durand, em diálogo com Hans Urs von Balthasar, sugere que Deus espera — com uma "paixão superior" — a bem-aventurança de suas criaturas. É um conceito que humaniza o olhar sobre o sagrado sem lhe retirar a majestade. A tristeza divina, por exemplo, não é uma fraqueza, mas o sinal de um amor primordial que se desola diante do pecado que desfigura a obra criada.
O que Durand nos entrega, em última análise, é a compreensão de que as emoções divinas são os traços de uma Aliança em movimento. Se a vontade de Deus fosse um rolo compressor sobre a nossa liberdade, ele não conheceria a alegria, a ira ou o lamento. O fato de Deus se emocionar é a prova cabal de que ele leva a nossa liberdade a sério. É uma obra essencial para quem deseja redescobrir que, por trás do silêncio dos séculos, bate um coração que, na feliz expressão de Dante, move o céu "no desejo e no amor sempre clemente".









