Ela, que tinha antes lutado contra o nazismo escapando de uma outra condenação à morte, não tinha podido fazer nada contra o regime comunista que tinha tomado o poder. Acusada falsamente de espionagem e conspiração, depois de um breve e indigno processo, se abandona a seu destino. Terminava assim a vida de uma grande mulher, mãe e política. Há um excelente filme que conta a sua vida e pode ser facilmente encontrado.
Entre tantas cartas escritas antes da morte, aquela endereçada a sua filha de 16 anos, Jana, é um testemunho de amor, lucidez e certeza de que a verdade sempre vence. Eis um trecho da carta: "Minha única garotinha Jana, Deus abençoou minha vida como mulher com você. Como seu pai escreveu em uma poesia quando estava em uma prisão alemã: "Deus nos deu você porque ele nos amou. Além do magico, extraordinário amor de seu pai, você foi o maior presente que recebi do destino. "
No entanto, a Providência planejou minha vida de tal forma que eu não pude dar a você tudo aquilo que minha mente e meu coração haviam preparado para você. A razão não é que eu lhe amei pouco; eu lhe amei com a mesma pureza e fervor com que as outras mães amam seus filhos. Mas entendi que minha tarefa aqui no mundo era fazer-lhe o bem cuidando para que a vida fosse melhor e para que todas as crianças pudessem viver bem. E para isso, muitas vezes tivemos que nos separar por um longo tempo. Esta já é a segunda vez que o destino nos separa.
Não fique assustada e triste porque eu não voltarei mais. Aprenda logo, minha filha, a olhar a vida como um assunto sério. A vida é dura, não mima ninguém, e cada vez que lhe golpeia, ela dá dez golpes. Acostume-se logo, mas não deixe que isso lhe desencoraje. Decida lutar. Tenha coragem e objetivos claros e você vencerá a vida. Muito ainda não está claro para sua mente jovem, e não tenho mais tempo para lhe explicar coisas que você ainda gostaria de me perguntar.
Um dia, quando você crescer, você se perguntará e se perguntará por que sua mãe que a amou e para quem você foi o presente maior, conduziu a vida dela de forma tão estranha. Talvez então você encontre a solução certa para este problema, talvez uma melhor do que eu mesma poderia lhe dar hoje. Claro, você só será capaz de encontrar a solução correta e verdadeira sabendo muito, muito mesmo.
Não apenas dos livros, mas das pessoas; aprenda com todos, mesmo com aqueles que parecem sem importância! Viaje pelo mundo com os olhos abertos e ouça não apenas suas próprias dores e interesses, mas também as dores, interesses e anseios dos outros. Nunca pense em nada como não sendo da sua conta. Não, tudo deve interessar a você, e você deve refletir sobre tudo, comparar, compor fenômenos individuais.
O homem não vive sozinho no mundo; nisso há grande felicidade, mas também uma tremenda responsabilidade. Essa obrigação consiste, em primeiro lugar, em não ser e não agir de forma exclusiva, mas antes, se fundir com as necessidades e os objetivos dos outros. Isso não significa ficar perdido na multidão, mas saber que se é parte de tudo, para trazer o melhor de cada um para a comunidade. Se você fizer isso, terá sucesso em contribuir para os objetivos comuns da sociedade humana. Esteja mais ciente do que eu fui de um princípio: abordar tudo na vida de maneira construtiva - cuidado com a negação desnecessária - não estou dizendo toda negação, porque acredito que se deve resistir ao mal. Mas para ser uma pessoa verdadeiramente positiva em todas as circunstâncias, é preciso aprender a distinguir o ouro verdadeiro da bijuteria. É difícil, porque a bijuteria às vezes brilha tão deslumbrantemente... Confesso, minha filha, que muitas vezes na minha vida fiquei deslumbrada com bijuteria. E às vezes até brilhava tão falsamente que se deixava cair ouro puro da mão e se corria atrás do ouro falso. Você sabe que organizar bem a sua escala de valores significa não só conhecer-se bem, ser firme na análise do próprio caráter, mas principalmente conhecer os outros, conhecer o máximo possível do mundo, seu passado, presente, e desenvolvimento futuro. Bem, em suma, saber, entender. Não tapar os ouvidos antes de qualquer coisa e sem motivo - nem mesmo calar os pensamentos e opiniões de quem pisou em meus pés, ou mesmo me feriu profundamente. Examine, pense, critique, sim, principalmente critique a si mesma, não tenha vergonha de admitir uma verdade que você passou a perceber, mesmo que tenha proclamado o contrário há pouco; não se torne obstinada com suas opiniões, mas quando você chegar a considerar algo certo, seja então tão determinada a lutar e morrer por isso. Como disse Wolker, a morte não é ruim. Apenas evite morrer gradativamente, que é o que acontece quando alguém repentinamente se encontra separado da vida real dos outros.
Você tem que criar suas raízes onde o destino determinou que você vivesse. Você tem que encontrar seu próprio caminho. Procure por si mesma, não deixe que nada a afaste, nem mesmo a memória de sua mãe e de seu pai. Se você realmente os ama, não os magoará ao vê-los de forma crítica - apenas não siga por uma estrada que é errada, desonesta e que não se harmoniza com a vida. Muitas vezes mudei de ideia, reorganizei muitos valores, mas, o que ficou como um valor essencial, sem o qual não posso imaginar minha vida, é a liberdade de minha consciência. Gostaria que você, minha garotinha, pensasse se eu estava certa.
Jana recebeu as cartas que a mãe lhe tinha escrito, muitos anos mais tarde
O testemunho de Milada é como o do velho Eleazar que diante das atrocidades cometidas pelos invasores se recusa a qualquer tipo de cumplicidade (IIMc, 6,23-28): «Eleazar, tomando uma nobre resolução [...] preferiu ser conduzido à morte. “Não é próprio da nossa idade – respondeu ele – usar de tal fingimento, para não acontecer que muitos jovens suspeitem de que Eleazar, aos noventa anos, tenha passado aos costumes estrangeiros. Eles mesmos, após o meu gesto hipócrita, e por um pouco de vida, se deixariam arrastar por causa de mim [...]. E mesmo se eu me livrasse agora dos castigos dos homens, não poderia escapar, nem vivo nem morto, das mãos do Todo-poderoso. Sendo assim, se eu morrer agora, corajosamente, [...] terei deixado aos jovens um nobre exemplo de zelo generoso, segundo o qual é preciso dar a vida pelas santas e veneráveis leis.” Ditas essas palavras, dirigiu-se diretamente ao suplício.»










