Durante o encontro do Conselho Permanente, a Comissão Episcopal para a Juventude, sob a liderança de dom Vilson Basso, bispo de Imperatriz (MA), colocou sobre a mesa dos prelados os dados da “Pesquisa Nacional Evangelização da Juventude no Brasil – 2025”. O diagnóstico, sintetizado em um robusto relatório de 140 páginas e apresentado pela doutora Patrícia Espíndola Teixeira — coordenadora do Observatório Juventudes da PUC-RS —, funciona como uma radiografia profunda de quem são e como pensam os jovens que povoam os bancos das igrejas no país.
Para traçar esse perfil, o grupo de pesquisa ouviu 11.498 jovens ligados ao universo religioso entre os meses de abril e junho de 2025. A maioria dos respondentes é composta por mulheres (55,6%) e o principal recorte etário concentra-se na faixa dos 18 aos 24 anos (64,8%), seguida por adultos jovens de 25 a 29 anos (32,5%) e uma pequena parcela de adolescentes entre 12 e 17 anos (2,7%). Os números revelam um grupo demográfico fiel, mas que carrega as marcas psicológicas de uma era hiperconectada.
Os jovens, as telas e a fé
O capítulo que mais despertou a atenção dos bispos diz respeito à saúde mental, onde o levantamento identificou o que classificou como “sofrimento expressivo”. Metade dos jovens ouvidos (50%) admitiu abertamente não se sentir bem de forma plena em seu cotidiano. O grande vilão moderno, a exposição permanente às telas, foi associado diretamente por 37,6% dos entrevistados a dificuldades agudas de concentração, crises de ansiedade e privação crônica do sono. Além disso, 36,7% relataram sentir insegurança na maior parte do tempo, um fator com impacto em cadeia sobre a autoestima, a capacidade de tomar decisões e até mesmo a abertura pessoal à vivência da fé.
Em meio a esse cenário de vulnerabilidade psíquica, a religião emerge não como uma obrigação institucional, mas como uma tábua de salvação e um motor de resiliência.
A espiritualidade foi apontada por 64,0% dos participantes como a principal ferramenta para enfrentar os problemas do dia a dia, enquanto 55,8% declararam que a presença pastoral concreta os fortalece nos momentos de crise. Mesmo diante das intempéries emocionais e sociais, a esperança quanto ao futuro resiste no peito de 43,4% desses jovens.
Família, redes sociais e Deus
O estudo também desmistificou a ideia de que a juventude está se distanciando das raízes eclesiais. Entre os respondentes, 98% afirmaram convictamente ser católicos, e a transmissão dessa fé permanece fortemente vinculada ao lar: 61% disseram ter sido conduzidos à Igreja pelo exemplo direto de seus pais e avós. A adesão sacramental também é altíssima, com 93% tendo recebido todos os sacramentos da iniciação à vida cristã.
No ambiente virtual, onde a vida contemporânea pulsa, a surpresa reside nas preferências de busca desse público. Religião e espiritualidade são os temas mais procurados por eles na internet, superando áreas tradicionalmente populares como entretenimento, educação e política. Para consumir e interagir, 43,3% utilizam ativamente ferramentas digitais, dividindo sua preferência entre redes sociais como Instagram, TikTok, X e Facebook (26,4%) e aplicativos de mensagens, com amplo domínio do WhatsApp (16,2%).
Influência do altar
A Igreja desponta como a terceira maior fonte de informação para 13,5% dos jovens, superando por uma margem estreita a influência direta de influencers digitais e youtubers, que detêm 12,4% da preferência nas buscas por orientação e notícias. No campo da ação social, o comportamento reflete o individualismo da era moderna: mais de 41% dos jovens admitiram não participar de mobilizações coletivas, embora 23% demonstrem simpatia individual por pautas de cunho coletivo e social.
O relatório destrincha ainda a percepção juvenil sobre o protagonismo eclesial, o que os atrai ou afasta das paróquias, além de suas visões sobre vocação e projetos de vida. Diante desse espelho estatístico, o cardeal Jaime Spengler, arcebispo de Porto Alegre e presidente da CNBB, encerrou os debates com uma convocação urgente aos bispos. Para ele, os dados não devem ser apenas arquivados, mas profundamente estudados e refletidos por toda a Igreja, servindo como base concreta para reformular, acolher e melhorar os caminhos da evangelização dos jovens no Brasil.









