Imagine um rapaz de dezenove anos, franzino, com a espinha dorsal torta por uma enfermidade implacável, encarando o balanço de dois meses de mar alto no Atlântico. José de Anchieta não tinha o porte atlético dos bandeirantes ou a farda imponente dos colonizadores. Quando desembarcou em Salvador, em julho de 1553, trazia nos olhos o brilho da entrega e na bagagem a promessa de uma terra onde o clima tropical pudesse aliviar suas dores ósseas. Nascido nas Ilhas Canárias em 19 de março de 1534, descendente de cristãos-novos, ele mal sabia que suas pegadas cansadas desenhariam o mapa de nascimento de uma nação. O jovem de fé que frequentava até oito missas diárias em Coimbra transformou-se, em solo brasileiro, em um andarilho incansável.
Caminho de fé
A saga paulista começou no alto de uma colina cercada pelos rios Tamanduateí e Anhangabaú. Nos Campos de Piratininga, ao lado do Padre Manuel da Nóbrega e com a ajuda do cacique Tibiriçá, Anchieta ergueu uma cabana de pau-a-pique. Ali, no dia 25 de janeiro de 1554, uma missa simples fundou o Colégio de São Paulo, semente de uma das maiores metrópoles do mundo. O jesuíta era um homem prático: enquanto ensinava artes e poesia para os curumins, também costurava alpargatas, erguia paredes de taipa e misturava ervas nativas como boticário, aprendendo com os indígenas os segredos da cura.
A facilidade com as palavras fez de Anchieta o primeiro grande tradutor da nossa alma. Ouvindo o falar dos nativos, decifrou a língua mais usada na costa e escreveu a primeira gramática do Tupi. Onde a civilização europeia via apenas o silêncio da mata ou o incompreensível, o "Irmão José" enxergou poesia, traduzindo o evangelho para a língua da terra. Para os indígenas, ele virou o Caraibebé, o "homem de asas", por sua velocidade espantosa em caminhar léguas pelo litoral para acudir um enfermo ou batizar um moribundo.
O mapa da devoção
Viajar pelas cidades que guardam a memória de Anchieta é fazer uma reportagem sobre o próprio início do Brasil. Em Itanhaém, segunda vila mais antiga do país, a famosa "Cama de Anchieta" — uma formação rochosa esculpida pelo vento e pelas ondas — serve de testemunho dos momentos em que o jesuíta descansava o corpo dolorido olhando o horizonte. Mas foi nas areias de Iperoig, atual Ubatuba, durante a tensa Confederação dos Tamoios em 1563, que o milagre da literatura brasileira aconteceu.
Feito refém voluntário por cinco meses para garantir a paz entre portugueses e indígenas, cercado pelo medo constante da morte, Anchieta buscou refúgio na poesia. Sem papel ou tinta, riscou com seu cajado nas areias úmidas da Praia do Cruzeiro os mais de 5.700 versos do seu célebre Poema à Virgem. Linha por linha, ele escrevia, memorizava e esperava a maré apagar, para no dia seguinte recomeçar. Mais tarde, em São Vicente, transcreveu tudo para o papel.
O corpo torto resistiu até os 63 anos, gastando suas últimas forças como Provincial da Companhia de Jesus e Superior no Espírito Santo. Quando faleceu em Reritiba (hoje cidade de Anchieta, no Espírito Santo), em 9 de junho de 1597, foram os ombros dos próprios indígenas que carregaram seu caixão por quilômetros até Vitória, chorando a perda do "pai que os amava". Canonizado em 2014 pelo Papa Francisco, o Santo do Brasil permanece vivo não apenas nos altares, mas em cada grão de areia e rincão de terra que ele soube, com tanta doçura e passos firmes, abençoar.









