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O mistério das mulheres que usam mitra

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MITRA

Crédito: fot. Marek Kuć/Episkopat News/Flickr

Símbolo da autoridade episcopal na Igreja Católica, a mitra guarda séculos de liturgia. Entenda o que é essa insígnia, quem pode ostentá-la e como abadessas medievais desafiaram o tempo usando o adereço reservado aos bispos

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Caminhar pelas naves silenciosas das grandes catedrais é deparar-se com enigmas esculpidos em tecido, ouro e mistério, na vida de homens e mulheres. Na liturgia católica, poucas peças carregam uma carga simbólica tão profunda quanto a mitra. Trata-se de uma cobertura da cabeça de forma alongada — cujas duas pontas elevadas simbolizam, na tradição cristã, a harmonia entre o Antigo e o Novo Testamento. Originada do grego mítra, termo que designava uma faixa para a cabeça, a peça que hoje vemos sobre a fronte dos prelados nem sempre teve esse contorno majestoso.

Na sua gênese, por volta do século VIII, era um simples gorro de pano usado pelos Papas em cortejos solenes por Roma. A partir do século X, consolidando-se no século XII, o adereço transformou-se na insígnia litúrgica por excelência dos bispos. Atualmente a peça divide-se em vertentes que vão da "simples" (em linho ou seda branca, para tempos de penitência) à "ornamentada" ou "preciosa" (em fios dourados, usada em missas solenes e ordenações).

A anatomia da bênção

A quem pertence o direito de erguer essa coroa do sagrado? No desenho institucional da Igreja, a mitra é conferida ao bispo em sua ordenação. Ela é usada em instantes específicos: quando ele se senta para instruir o povo, ao abençoar a assembleia, ao executar gestos sacramentais ou ao caminhar em procissões pontificais.

Contudo, o direito canônico abriu exceções fascinantes. Pela concessão dos Papas — prática iniciada no século XI —, a insígnia foi estendida aos abades de grandes mosteiros. Surgia o "abade mitrado", o monge que, ao receber a bênção abacial, adquiria o direito de usar a mitra, a cruz peitoral, o anel e o pastoral (o báculo), exercendo jurisdição espiritual e temporal sobre territórios.

Quando a mitra cobriu véus das mulheres

Se a presença da mitra na fronte masculina é a regra, a história dos conventos guarda um fenômeno interessante: a existência das abadessas mitradas. Em uma Idade Média onde as mulheres detinham certa autonomia, a Santa Sé concedeu a superioras de mosteiros femininos uma jurisdição ad instar episcoporum — um poder "quase episcopal".

Essas mulheres extraordinárias, oriundas da nobreza e de linhagens imperiais, tornaram-se soberanas . O caso mais emblemático ocorreu na Espanha, na Abadia de Santa Maria la Real de Las Huelgas, em Burgos. Fundado em 1187 pelo rei Afonso VIII e pela rainha Leonor de Aquitânia, o mosteiro recebeu do Papa Clemente III um estatuto autônomo sem precedentes. Sua primeira superiora, Dona Miso, e sucessoras como Dona Ana de Áustria, usavam a mitra nas cerimônias da abadia. Elas tinham o privilégio de impor o beijo de mão obrigatório a todo o clero local — um desconforto imenso para os padres diocesanos.

Cenário idêntico floresceu no sul da Itália, na Abadia de São Bento de Conversano. Em 1266, o Papa Clemente IV conferiu à abadessa Dametta Paleólogo — da família imperial de Constantinopla — a mesma jurisdição. Apelidada de Monstrum Apuliae (o Colosso da Apúlia), Dametta e suas sucessoras governaram a região com pulso firme e báculo na mão por mais de cinco séculos, até que o rei Joaquim Murat extinguiu o privilégio em 1810.

Mas, neste século, eu mesmo vi em um mosteiro uma abadessa que suava mitra, segurava báculo, tinha anel no dedo, cruz no pescoço e estendia as mãos para abençoar as irmãs. Eu, que era jovenzinho, estava acostumado a ver esses sinais com os bispos. Aliás, olhávamos para os bispos como figuras de força, poder e simpatia. A monga que usava a mitra não parecia com os bispos que recebíamos com alegria para as festas da paróquia e a celebração do crisma. Ali, na juventude, compreendi que esses sinais não indicavam poder, mas apontavam para realidades espirituais muito elevadas. Os bispos abençoavam o povo a eles confiados, a abadessa também estendia a mão para as suas irmãs. Certamente ela não queria ser recebida como um bispo em um festejo paroquial, mas queria servir à sua comunidade com o mesmo zelo que um bispo se dedica aos fiéis a ele confiados.

Olhar para essas abadessas mitradas não é apenas folhear uma curiosidade do passado. É reconhecer um instante da história onde a fé, o poder e a coragem feminina se entrecruzaram, provando que, sob o brilho do tecido sagrado, a autoridade do Espírito sopra onde quer — inclusive sob o véu das mulheres.