Há algo de profundamente sintomático na maneira como as grandes revoluções tecnológicas silenciosamente invadem os territórios que, por séculos, foram o monopólio quase exclusivo do sagrado e da transcendência
O ecossistema digital dilatou as possibilidades de comunicação, permitindo uma interação com plateias muito mais amplas do que aquelas que habitualmente frequentam as paróquias físicas ou as igrejas protestantes locais. No entanto, essa expansão cobra o seu preço: as religiões viram-se obrigadas a aceitar a lógica implacável dos novos meios, moldando sua linguagem, suas imagens e a própria quantidade de suas palavras ao formato interativo das telas, isso é um desafio de fé.
Diluição da fé
Este cenário altera profundamente a relação do fiel com a verdade institucional. O impacto mais visível da comunicação digital é o aumento impressionante da autonomia individual. Tanto crentes quanto não crentes navegam por plataformas religiosas decidindo, por conta própria, o que aceitar ou rejeitar. São eles que determinam até que ponto querem se envolver em um fórum, participar de um chat ou aderir a uma comunidade virtual.
O indivíduo moderno constrói uma religião sob medida, que cabe na palma de sua mão, que está acessível ao seu toque pelos aplicativos do celular. A consequência direta é que a palavra final sobre a verdade de uma mensagem já não pertence ao especialista teológico ou à autoridade eclesiástica tradicional. É o próprio usuário, ou o grupo virtual com o qual ele interage, que estabelece as fronteiras do que é aceitável. As igrejas convertem-se em meros aplicativos no telefone, acessíveis 24 horas por dia, enfraquecendo o sentido da pertença física e esvaziando a estrutura da liderança tradicional.
Uma eternidade domesticada
Se a transformação da prática diária já altera a nossa cultura, é no limiar da morte que a inteligência artificial projeta sua sombra mais delicada e inquietante. Hoje, a tecnologia promete uma espécie de eternidade artificial. Diante da perda de um ente querido, multiplicam-se os sites que permitem prolongar artificialmente a presença do falecido. Toda vez que organizamos uma viagem, compramos um livro ou fazemos buscas na internet, deixamos rastros digitais que os algoritmos convertem em informações detalhadas. O resultado é a criação de um aplicativo que torne real esse "além" familiar e domesticado, onde o morto continua a falar e a se comunicar conosco. Na teoria, é interessante saber se, por exemplo, um livro que foi lançado depois da morte de uma pessoa querida, seria do perfil dela, se ela gostaria de lê-lo com base nas informações que deixou em suas buscas na internet; também existem plataformas que geram um QRCode para quem vai ao cemitério e visita um túmulo, para que possa ter acesso a mais informações sobre o falecido; e existem as imagens geradas por Inteligência Artificial que mostram como uma pessoa falecida estaria hoje em uma fotografia.
São coisas interessantes que despertam a curiosidade, contudo, trata-se de uma mudança colossal para as religiões tradicionais, que sempre mantiveram uma sabedoria histórica e liturgias comunitárias específicas para ajudar a sociedade a processar a dor da perda. Ao privatizar o sentido da morte e transformá-la em algo doméstico, a tecnologia oferece um pequeno paraíso consolador, mas que desafia a última fronteira que a secularização ocidental ainda não havia conseguido golpear.
Por exemplo, na doutrina católica não existe comunicação com os mortos, o que existe é comunhão que é algo mais profundo; mas a voz de uma pessoa falecida pode reproduzir coisas que ela nunca registrou por meio da Inteligência Artificial; Ou, na visão católica existem as despedidas fúnebres, as orações, o consolo, com a internet o rito religioso é "menos" impactante do que as homenagens que as redes sociais são capazes.
Quando alguém morre e seu perfil continua nas redes sociais, não somos nós que sobrevivemos, mas sim uma imagem de nós deixada para os outros, o que pode paralisar a necessária elaboração do luto. Ainda assim, a necessidade do rito resiste: mesmo no Ocidente secularizado, a maioria das pessoas ainda recorre às liturgias tradicionais na hora da morte, praticando um rito em que talvez não creiam, mas do qual necessitam desesperadamente
A dignidade humana
Esse cenário divide o nosso tempo entre os entusiastas que enxergam na superação tecnológica dos limites mortais uma etapa legítima da evolução espiritual e da consciência humana — e aqueles que temem a dissolução da própria essência do homem. Não por acaso, ergue-se agora uma reação defensiva.
Recentemente, na Silicon Valley, uma aliança surpreendente e marcadamente reuniu acadêmicos, políticos, empresários e líderes religiosos para lançar uma declaração a favor de uma inteligência artificial estritamente pró-humana. Apoiado por mais de 40 organizações, o documento une figuras ideologicamente distantes, como o controverso Steve Bannon e o ativista dos direitos dos consumidores Ralph Nader, sob uma mesma urgência: a necessidade de garantir tecnologias confiáveis e controláveis que preservem a liberdade individual e a dignidade humana. Diante das pressões pós-humanistas, a sociedade começa a desenhar suas contraforças. A tecnologia mudou a autoridade, o crer e o morrer; resta saber se o ser humano conseguirá manter as rédeas de sua própria humanidade.












