Foram dezoito dias de poeira, subidas íngremes e o peso de vinte e cinco anos de vida consagrada carregados sobre duas rodas
Entre os dias 23 de maio e 9 de junho de 2026, o frade capuchinho Frei Ricardo Nascimento França enfrentou o asfalto, a terra e o próprio cansaço para cruzar cerca de oitocentos quilômetros do tradicional Caminho Francês de Santiago de Compostela. O ponto de partida foi a pequena Saint-Jean-Pied-de-Port, na França; o destino final, as escarpadas de Finisterra, na costa atlântica da Espanha.
Membro da Província Bahia e Sergipe, a viagem do religioso não buscava recordes nem era um simples desafio esportivo, mas sim uma ação de graças pelo seu jubileu de prata na vida religiosa. Na tradição franciscana, a celebração representa a renovação do compromisso assumido diante de Deus segundo o Evangelho e o carisma de São Francisco de Assis. A peregrinação ocorreu durante o Ano Franciscano, que recorda os 800 anos do trânsito de São Francisco, e no Ano Jubilar Carmelita, em memória dos 300 anos da canonização de São João da Cruz.
Por trás dos oitocentos quilômetros rodados pela Europa existem seis anos de preparação física e mental. No Brasil, Frei Ricardo realizou sucessivos percursos de bicicleta, unindo treinamento rigoroso, disciplina e fortalecimento interior antes de encarar a rota europeia. Ao cruzar os Pireneus e atravessar as regiões históricas de Navarra, La Rioja, Castela e Leão e Galícia, o frade visitou mosteiros, igrejas e seculares albergues de peregrinos.
A cada etapa vencida, o cansaço do corpo dava lugar ao registro. O capuchinho elaborou um diário ilustrado reunindo fotografias, anotações diárias, trechos do Cântico Espiritual de São João da Cruz e referências bíblicas. O álbum documenta o esforço do pedal, o silêncio das rotas antigas e a intensa busca por contemplação interior ao longo de todo o trajeto.
A chegada à Catedral de Santiago de Compostela não significou o fim da linha. Frei Ricardo prolongou a jornada até Muxía e Finisterra, locais onde peregrinos encerram simbolicamente o percurso diante da imensidão do Atlântico. Em seguida, deslocou-se ao Santuário de Fátima, em Portugal, onde encerrou a peregrinação renovando sua consagração e suas preces por paz e conversão.
Ao concluir a travessia, o religioso afirmou que o verdadeiro caminho é aquele que conduz ao interior da própria existência. Um testemunho de que a fé permanece uma experiência viva quando traduzida em coragem, esforço humano e pés nos pedais.












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