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Irmã Maria de Coppi, assassinada por extremistas em 2022 e que o povo já considera santa

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Crédito: Comboni

Comboni

Aos 83 anos e após seis décadas dedicadas aos pobres de Moçambique, a irmã italiana Maria de Coppi foi morta por extremistas. Agora, a Igreja prepara a abertura oficial de sua beatificação, enquanto a memória de seu sacrifício permanece viva no coração de uma gente que a tem como santa

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A noite de 6 de setembro de 2022 não parecia diferente de tantas outras na missão católica de Chipene, fincada no interior da Diocese de Nacala, no norte de Moçambique. O silêncio do mato só era quebrado pelo coaxar dos sapos e pelo murmúrio distante dos jovens abrigados nos lares masculinos e femininos. Mas, quando os ponteiros do relógio se aproximaram das nove da noite, o inferno abriu suas portas. Um bando armado ligado ao grupo extremista Estado Islâmico invadiu o complexo missionário. Disparos rasgaram a escuridão, gritos de pânico ecoaram entre as árvores e o fogo começou a devorar tudo o que encontrava pela frente.

No meio da confusão, uma idosa de 83 anos, frágil no corpo, mas de uma têmpera talhada por quase seis décadas de solo africano, não teve tempo de alcançar a proteção das matas. A irmã italiana Maria de Coppi, missionária comboniana, foi atingida à queima-roupa com um tiro na cabeça. Morreu ali mesmo, no chão batido da terra que havia escolhido como pátria e destino.

A notícia daquela morte brutal correu o mundo, mas para o povo simples das aldeias vizinhas, não se tratava apenas da perda de uma religiosa estrangeira. Partia a mãe, a conselheira, a mulher que escutava com paciência infinita as dores das jovens moçambicanas e que nunca recuara diante do perigo. Por isso, quando o Bispo de Nacala, Dom Alberto Vera, confirmou recentemente que o processo de beatificação da religiosa avançará, ninguém nas comunidades locais se surpreendeu. Para aquela gente de mãos calejadas, Maria de Coppi já era santa muito antes de a bala atravessar a sua vida.

O fogo da memória

O rastro deixado pelos invasores naquela madrugada de terror foi devastador. Por mais de cinco horas, até por volta das duas da manhã, os extremistas destruíram metodicamente o trabalho de uma vida inteira. Incendiaram a igreja, a escola, o centro de saúde, a casa das religiosas, a biblioteca, as viaturas e os alojamentos dos estudantes. Roubaram e vandalizaram até mesmo o sacrário. Do complexo vivo e acolhedor de Chipene, sobrou apenas a desolação das paredes chamuscadas e o cheiro acre de fumaça.

Naquela mesma noite de horror, o padre Lorenzo, um dos sacerdotes que conseguira escapar para a vegetação com dezenas de jovens, enviou uma mensagem desesperada a Dom Alberto Vera. O texto, curto e lancinante, dava o retrato exato da tragédia: “Fomos assaltados esta noite. A Irmã Maria foi logo morta com um tiro na cabeça. Tudo foi queimado e ainda está a arder”.

Mas há coisas que as chamas do terrorismo não conseguem queimar. Passados quatro anos do martírio, a figura da Irmã Maria continua mais viva do que nunca na memória coletiva. Nascida na Itália, na região de Treviso, ela desembarcara em Moçambique no início dos anos 1960. Viveu os tempos duros da colonização, a guerra de independência, a sangrenta guerra civil e, por fim, a onda recente de extremismo religioso. Nunca quis ir embora. Dedicou especial atenção à formação das mulheres e jovens meninas, acolhendo histórias tragadas pela pobreza e pela exclusão.

Para que a Igreja abra formalmente um processo de beatificação por martírio, o direito canônico exige uma espera prudencial de cinco anos após a morte do servo de Deus. Dom Alberto Vera confirma que a contagem regressiva está chegando ao fim. O assunto será tratado no próximo Conselho Presbiteral e, em breve, os papéis oficiais começarão a correr. A causa da Irmã Maria de Coppi não caminhará sozinha: a intenção da diocese é avançar em simultâneo com a beatificação do catequista Cipriano. Este último, um líder leigo local, foi barbaramente assassinado a golpes de catana em 28 de agosto de 1984 por guerrilheiros da Renamo, em um dos episódios mais cruéis da guerra civil moçambicana. Dois mártires, duas épocas diferentes, a mesma terra regada por sangue e fé.

A santa de uma terra de dores

O avanço dos processos de beatificação ocorre em um momento em que Moçambique continua a sangrar sob o látego da violência. Embora o foco principal das incursões do Estado Islâmico seja a província de Cabo Delgado, a mancha do terrorismo tem transbordado para regiões vizinhas como Nampula e Niassa. Os números oficiais impressionam e doem: desde o início do conflito armado promovido pelos insurgentes em 2017, mais de 6.600 pessoas perderam a vida e cerca de 1,2 milhão foram obrigadas a abandonar suas casas e lavouras, transformando-se em deslocados internos no próprio país. Em setembro de 2026, um acampamento turístico de caça do treinador Carlos Queirós, na província de Niassa, foi totalmente destruído em mais um ataque que causou mortes e a fuga de milhares de camponeses.

A insegurança ronda mesmo as figuras de maior relevo da Igreja Católica. A reunião da Conferência Episcopal de Moçambique ocorrida em Maputo, onde Dom Alberto Vera falou sobre os preparativos para a beatificação da irmã, teve como pauta central outro crime estarrecedor: o assassinato de Dom Osório Citora Afonso, Bispo de Quelimane, morto em sua própria residência episcopal em junho deste ano de 2026. Três meses após o atentado, os bispos moçambicanos seguem cobrando respostas das autoridades sobre os autores materiais e morais de uma tragédia que chocou a comunidade eclesial.

Ainda assim, a semente plantada pela Irmã Maria de Coppi teima em dar frutos. Na sua terra natal, a diocese italiana de Vittorio Veneto, e no chão poeirento de Nacala, as peregrinações ao seu túmulo e a memória de sua dedicação tornaram-se frequentes. O Papa Francisco, ao recordar o seu sacrifício logo após o atentado, destacou que o seu testemunho de quase sessenta anos de serviço deve dar força e coragem a todo o povo moçambicano.

Na linguagem simples do povo não precisa de decretos latinos do Vaticano para saber quem é santo. Sabe-se pelo rastro de bem que a pessoa deixa pelo caminho, pela coragem de não fugir quando o perigo se aproxima e pela capacidade de amar até o último suspiro, e o Vaticano reconhece isso. A Irmã Maria de Coppi fez da vida um presente para Moçambique. O fogo queimou a missão de Chipene, mas não apagou a luz de uma mulher que trocou o conforto da Europa para virar cinza, oração e esperança no coração da África.