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[RECEITA] As broas de milho da abadessa Leocádia: uma receita de 1729 que chegou até nós

4 min de leitura
Broas de milho

Crédito: divulgação

Imagine abrir um livro de receitas escrito há quase 300 anos e encontrar ali uma receita que ainda podemos preparar hoje.

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Há receitas que parecem pequenas demais para carregar uma história. Uma broa, feita de farinha, leite, açúcar e algumas especiarias, poderia parecer apenas mais uma receita antiga. Mas as Broas de milho de Santa Clara guardam um testemunho de quase três séculos sobre a vida dentro dos conventos, a alimentação e também a economia dessas comunidades religiosas.

A receita está registrada em um manuscrito de 26 de outubro de 1729, pertencente ao Convento de Santa Clara de Évora, em Portugal. O livro foi escrito pela abadessa, Sóror Maria Leocádia do Monte do Carmo, e reúne receitas de doces e outros preparos feitos pelas religiosas. A historiadora brasileira Leila Mezan Algranti publicou e estudou esse manuscrito, tornando possível conhecer hoje uma receita que poderia ter desaparecido com o passar das gerações. Foi isso que aconteceu com as Broas de Milho de Santa Clara.

É uma receita simples. E talvez seja justamente isso que a torna tão especial.

Nada de uma longa lista de ingredientes. As broas levam farinha de milho, farinha de trigo, açúcar, leite, cravo-da-índia, erva-doce e sal. Sóror Maria Leocádia escreveu as instruções de maneira muito direta: era preciso amassar os ingredientes, formar as broas e levá-las ao forno.

Uma receita para a cozinha de todos os dias, ou para aqueles momentos em que era preciso preparar algo para oferecer e repartir.

A cozinha também fazia parte da vida do convento

Quando pensamos em doçaria conventual, logo vêm à cabeça doces ricos em açúcar, ovos e amêndoas. Mas os antigos conventos também guardavam receitas muito mais simples.

A cozinha era um lugar de trabalho e organização. Os alimentos precisavam ser comprados, armazenados e aproveitados. E os doces tinham também uma função social: podiam ser oferecidos a visitantes, benfeitores e pessoas próximas da comunidade religiosa, além de fazer parte de festas e ocasiões especiais.

Por isso, aquele pequeno livro de receitas de Sóror Maria Leocádia é mais do que um livro de cozinha. Ele nos deixa entrever um pouco da vida cotidiana das religiosas.

E há algo bonito nisso: uma receita tão simples acabou se tornando uma maneira de conservar uma memória.

Uma broa que atravessou o tempo

O milho, ingrediente principal da receita, já fazia parte da alimentação portuguesa havia séculos, depois de ter chegado à Europa vindo das Américas. Assim, ingredientes e costumes viajaram de um lado para outro do Atlântico, entrando pouco a pouco nas cozinhas portuguesas e brasileiras.

Talvez seja por isso que uma receita como esta nos seja tão familiar.

Há algo de muito próximo numa broa feita com farinha, leite e erva-doce. É comida simples, feita para ser compartilhada. E talvez seja justamente aí que esteja seu encanto.

Sóror Maria Leocádia escreveu sua receita em 1729. Hoje, podemos abrir novamente aquele antigo caderno — desta vez com a nossa própria cozinha — e experimentar o mesmo sabor.

Broas de Milho de Santa Clara

Ingredientes

  • 900 g de farinha de milho
  • 450 g de farinha de trigo
  • 900 g de açúcar
  • 1 chávena de leite
  • Cravo-da-índia a gosto
  • Erva-doce a gosto
  • Uma pitada de sal

Modo de preparo

Misture as farinhas e o açúcar. Acrescente o leite, o cravo e a erva-doce. Junte uma pitada de sal e amasse bem até obter uma massa que possa ser moldada.

Faça pequenas broas e coloque-as numa assadeira.

Leve ao forno preaquecido até que estejam assadas e levemente douradas.

A receita original, escrita em 1729, é bastante breve e não indica temperaturas ou tempos de forno — algo comum nos antigos livros de cozinha. A versão acima é uma adaptação para a cozinha atual, preservando os ingredientes registrados no manuscrito.

Fonte histórica: Livro das Receitas de Doces e Cozinhados vários deste Convento de Santa Clara de Évora, escrito por Sóror Maria Leocádia do Monte do Carmo, em 1729. A receita e o manuscrito foram estudados pela historiadora brasileira Leila Mezan Algranti.