E<em>ntre o aroma de floresta e o traço poético da arquiteto-mística Lília Campelo, a CNBB resgata a memória de templos desenhados não como fortalezas, mas como tendas vivas de acolhimento e reconciliação</em>
Entre o aroma de floresta e o traço poético da arquiteto-mística Lília Campelo, a CNBB resgata a memória de templos desenhados não como fortalezas, mas como tendas vivas de acolhimento e reconciliação
Há um mistério silencioso que habita a matéria quando ela deixa de ser apenas tijolo e pedra para se transformar em morada da transcendência. Não é a imposição monumental das velhas catedrais que comove o espírito humano, mas a delicadeza com que um espaço consegue abrigar a fragilidade da alma. Em um tempo marcado pela pressa e pelo ruído urbano, o setor de espaço litúrgico da Comissão Episcopal para a Liturgia da CNBB promoveu o encontro virtual “Edificar Igrejas para Celebrar o Mistério da Fé“. Ali, bispos, arquitetos e religiosos reuniram-se em torno de uma pergunta essencial: como desenhar uma casa onde o invisível se torna presença tangível? A resposta surgiu ao resgatarem o legado de uma mulher que desenhava o sagrado ajoelhando-se em oração antes de encostar o lápis na prancheta: a arquiteta pernambucana Maria Lília Campelo.

Nascida em Recife em outubro de 1952, a sétima de dez filhos, Lília fez de sua prancheta um altar de serviço ao próximo. Formada pela Universidade Federal de Pernambuco em 1974, dedicou mais de trinta anos à Fazenda da Esperança — comunidade terapêutica voltada para a recuperação de jovens marcados pelas dores da dependência química. Entre a dor do recomeço e a busca da cura, projetou capelas, residências e hospitais. Contudo, foi no coração da Amazônia, em Manaus, que sua busca espiritual atingiu a síntese mais profunda com o projeto do Santuário da Misericórdia.
A oca mística
Diante da imensidão da floresta, Lília recusou as fórmulas prontas do Ocidente. Em vez de erguer paredes frias, foi escutar a sabedoria ancestral das aldeias indígenas. Inspirando-se no desenho circular dos povoados Xavante e na arquitetura acolhedora das malocas, concebeu um santuário em formato de oca. A estrutura apoiava-se em quatro grandes troncos de árvore — colhidos na própria mata pelos internos em recuperação — sustentando uma cúpula de cipó e palha de piaçava. Não se tratava de mera alegoria plástica, mas de uma teologia encarnada: a palha que envelhecia e demandava ser trocada coletivamente espelhava a própria vida humana, necessitada de constante renovação e perdão.
A religiosa e arquiteta Irmã Laíde Sonda recorda a dimensão orante da amiga: “Lília me contava que, antes de iniciar qualquer projeto de igreja, se recolhia em oração. Não só no instante de projetar, mas antes e durante. A arquitetura dela traduz uma conversão”. Para Lília, a disposição dos bancos jamais poderia imitar a rigidez militar. “Uma assembleia de fiéis não pode ser disposta como um pelotão do exército. A liturgia não diz ‘eu’, diz ‘nós’. O espaço precisa ser um abraço envolvente ao redor do altar, onde todos se sentem participantes do mesmo corpo”, explica a religiosa.
Os desafios do tempo da arquiteta
A genialidade de Lília espalhou-se pelo Brasil. Em 2007, quando o Papa Bento XVI esteve no país, celebrou diante de milhares sob o teto fluído da Tenda de Frei Galvão, em Guaratinguetá, erguida por ela em lona tensionada e vitrais coloridos. Mas a arquiteta repudiava a cópia mecânica.

Em Manaus, o Santuário da Misericórdia sofreu profundas alterações ao longo das décadas: a palha e os troncos originais deram lugar a telhas metálicas e pilares sintéticos, desfigurando a integração poética com a mata. O caso expõe a vulnerabilidade da arte sacra diante da falta de manutenção adequada e da incompreensão do programa iconográfico.
O bispo de Januária (MG), Dom José Dorival Barreto, enfatiza que o remédio para esse descuido passa pela pedagogia: “A arquitetura e o espaço litúrgico são um caminho de formação. Apresentar exemplos vivos nos ajuda quando pensamos em construir igrejas nas paróquias e nas pequenas comunidades que enfrentam tantas dificuldades. Quanto mais orientarmos, melhor celebraremos o mistério”.
Lília Campelo partiu em 2014, aos 61 anos, vitimada por um acidente vascular cerebral. Mas suas igrejas permanecem como orações esculpidas no espaço. Elas nos recordam que o templo cristão não se mede pela altivez de suas torres, mas pela capacidade de fazer o homem sentir que a terra é, verdadeiramente, a casa de Deus.












