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Plantada por um santo há 800 anos, esta laranjeira continua viva

4 min de leitura
Katedra w Sewilli

Crédito: Aranami | Shutterstock

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Trilhada por passos santos e lendas ancestrais, a árvore plantada por São Domingos em 1220 continua a desabrochar no silêncio de Roma, desafiando as estações e a própria fragilidade humana

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Trilhada por passos santos e lendas ancestrais, a árvore plantada por São Domingos em 1220 continua a desabrochar no silêncio de Roma, desafiando as estações e a própria fragilidade humana

Há lugares no mundo onde a terra parece guardar a memória exata de quem um dia por ali passou, como se o vento e as folhas fizessem questão de sussurrar antigas histórias aos desavisados. No alto do monte Aventino, bem junto aos muros seculares da basílica de Santa Sabina, vive um desses raros testemunhos do passado: uma laranjeira plantada por um santo que desafia os séculos.

Não se trata de uma árvore comum. É uma descendente direta, viva e pulsante, daquela mesma muda que o próprio São Domingos de Gusmão – fundador da Ordem dos Pregadores– acomodou com suas próprias mãos na terra romana, no já distante ano de 1220. Desde então, por mais de oitocentos invernos, primaveras, guerras e transformações do mundo, essa planta insiste em florescer e dar frutos, renovando-se a si mesma num ciclo que muitos chamam de milagre.

Um monumento vivo

Quando a gente pisa no pátio do convento, o rumor da Roma moderna parece se dissolver em respeito à antiguidade do lugar. A basílica de Santa Sabina, erguida no século V sobre as colunas reaproveitadas de um templo pagão, carrega a sobriedade dos monumentos que viram impérios desabar. E ali, no canto daquele claustro, a laranjeira faz as vezes de guardiã silenciosa.

Nem mesmo a força brutal de uma nevasca histórica que assolou Roma anos atrás conseguiu derrotar o velho aristo-verde. Os galhos vergaram, a geada pintou o cenário de branco e o desespero rondou o coração dos frades. Mas bastou uma noite de prece e vigília para que a natureza, obedecendo a um desígnio misterioso, voltasse a brotar da própria seiva seca. É o tipo de resistência que emociona: a prova de que a vida, quando cuidada com amor e fé, encontra sempre um jeito de renascer das cinzas ou do gelo.

O santo e a semente

A volta desse tronco venerável está cercada por um manto de lendas que o povo romano cultiva com carinho de geração em geração. Conta-se, por exemplo, que foram os frutos amargos desta mesma árvore que inspiraram Santa Catarina de Siena, no final do século XIV, a preparar cinco laranjas canditas para oferecer ao irascível Papa Urbano VI. Era uma forma delicada — e astuta — de mostrar ao pontífice que até a aspereza da vida e do poder pode ser adoçada com paciência e moderação.

Mas a imaginação popular foi ainda mais longe. Bem pertinho dali, no interior da igreja, repousa sobre uma coluna uma estranha pedra escura, crivada de marcas que lembram dedos incandescentes. A crendice jura que é o lapis diaboli, lançado pelas garras frustradas do próprio Demônio após tentar em vão desviar São Domingos de suas preces. A ciência, com sua frieza costumeira, diz tratar-se apenas do peso de uma antiga balança romana que quebrou durante uma reforma no século XVI.

No entanto, entre a precisão dos livros de história e a poesia dos causos conventuais, o que realmente importa é o encanto que permanece. A laranjeira de São Domingos continua ali, firme no Aventino, oferecendo sua sombra, suas folhas e seus frutos aos olhos curiosos que espiam pelo pequeno furo na parede — um lembrete vivo de que, por entre as fendas do tempo, a beleza e a esperança insistem em frutificar.

Em São Paulo, no convento dos religiosos dominicanos, conserva-se uma laranjeira que é descendente daquela plantada em Roma pelo santo fundador da ordem. Os freis interpretam na planta, o esforço de semeadura dos valores do reino de Deus que os frades desenvolvem. As raízes que a planta criou em São Paulo mostram que a ordem, também criou raízes nessa cidade, raízes tão profundas que se ligam, misticamente, àquelas da planta que é a ordem fundada por São Domingos de Gusmão.